HISTORIA DO BRASIL,
<j
DA
HISTORIA DO BRASIL
ATÉ 1828,
Ht0 íre 3auetr0,
ÍÍA TYPOGRAPHIA DE GUEFFIER E C?
RUA BA QUITANDA , 79.
1831.
eu
«Cf. < ®xc. Sínr. e<wwt
Antonio iííanufl Ira Sttorira t Santpata,
o. ,,<&.«? C. ,
g- £ Do 91
© original íf esta ©bra \)é por t>e?es ine-
xacto; nos trabalhamos para que a traírur-
cao o noa fosse, doiras as paesaflene que
aqui se act)arem nas primeiras épocas, es-
trancas ao Hcsumo Svance^ esiao em D, te
(6ar?, ttoel)a pita, JHatec te Deos, Slgrrs
te Ca?al, Cery, ou Soutljey.
©uanto á parte contemporânea que nos í>i?
respeito^ Umitamo-nos a pura e ingénua ex-
posição tes factos , por assim 0 exigir a
plano ÍTeste Cpitome*
t$nw
DA
HISTORIA DO BRASIL.
ÔS©©£©Q3©QS©£©QGQ©Q9G«OQQ©£>©QQ<£©9®3G©
PRIMEIRA ÉPOCA.
€> 0ra$il antes íra ronquista»
/
He huma verdade infelizmente incontestá-
vel, que, a toda a parte onde os Europeos
tem levado suas conquistas, as Nações sel-
vagens tem rapidamente diminuido. Não
são somente as guerras , que tem extermi-
nado os Indígenas do Novo Mundo , he
preciso contár entre as causas da sua ruina,
as moléstias importadas por nós , e a escra*
2
ÍO
vidão, a que elles tem por tantas vezes pre-
ferido a morte.
Paw disse : « Nada mais existe da antiga
America , do que o céo, a terra, e a dolorosa
memoria das suas espantosas desgraças. »
Esta frase contém em poucas palavras a His-
toria de muitos milhões de homens. As gran-
des Nações que existião na época da conquista,
sc tem extinguido, eas fracas Tribus de quem
se desprcsou a aliiança sobreviverão : a civi-
lisação destruio as primeiras, a natureza sel-
vagem conservou as outras para nos offere-
cerem huma evidente prova de que se não
deve fazer passar immediatamente hum Povo
do estado inculto aos nossos hábitos sociaes,
bem como se não pode de hum salto fazer
retrogradar as Nações. Nos séculos futuros se
estudará talvez com mais interesse do que no
prezente a Historia dos Americanos, porém
o complexo de documentos contraditórios que
surguáõ espalhará grande obscuridade sobre
tempos aliás pouco remotos : he pois interes-
sante recorrer actualmente ás verdadeiras
origens, e conservar com escrupulosa exac-
tidão os principaes vestigios das Hordas in-
dígenas , com especialidade d aquellas que
tem cessado de existir.
A Nação dos Tupis , depois de ter ven-
cido a dos Tapuyas, extendeo antigamente
o seu Império sobre a maior parte das
costas do Brasil e da Guyana \ he provável
que, em sua origem, esta Nação provies-
se dos Povos bellicosos do Paraguay onde
hum a Povoação inteira conserva o nome pri-
mitivo que se modificou segundo as Tribus.
Bem como em outro tempo se vio na
Europa, o Norte enviar innumeraveis Le-
giões sobre os Estados do Meio Dia , o Sul
de America Meridional fornecco novos ha-
bitantes as férteis regiões que se aproximao
da Equinocial. Os conquistadores depois de
terem expellido para o interior do paiz os
outros habitantes, se devidiráo em Tribus :
a dos Tupinambds hera a mais celebre..
En-eontrão-se , com pouca diíFerença os
mesmos usos e costumes na maior parte das
Tribus: todas manifestao huma propensão
decidida para a vida errante , e a desejo
de perfeita independência : por toda a parte
se achão provas irrefi agaveis de que o estado
selvagem em que vivião estes Povos reunia
vantagens que a eivilisação só pode ofíerecer
xio fim de muitos séculos.
Apesar de mao serem agrícolas , os Tupis
se dav~o á cultura de certos vegetaes.de re-*
conhecida utilidade : a mandioca e as ba-^
tatás cresci ií o em abundância nas visinhan-
ças de suas habitações ; he porem certo que
as colheitas nao pertencido exclusivamente
a ninguém, O producto da caça e da pesca
hera a base do nutrimento de todas as farmV
x3
lias. He provável que a maior ou menor
abundância de caça em hum lugar deter-
minasse a duração da residência 5 com tudo
acontecia que a morte de alguns, ou o
capricho dos Feiticeiros , operava esta mu-
dança j ent~o transportavão a muitas legoas
o pequeno numero de cabanas que compu-
nha a Aldèa.
Estas habitações se construi Ho rapida-
mente , porque em toda a parle se eneon-
travão taquáras e coqueiros , para formarem
as paredes e os tectos. Muitas familias se
reunilo na mesma cabana , porém isto nlo
significa communidade absoluta de bens;
cada hum tinha o seu arco, sua rêde, suas
flechas, seu alfange de páo , e seus diversos
ornamenlos de primas quasi sempre resul-
taJo da industria das mulheres.
Nos lugares onde se podia temer a in-
vasão inimiga, as Aldèas herão fortificadas
M
por meio de pallissadas. \è-se na antiga
viagem de Hans-Stade A que estas defesas,
nem sempre os punhão ao abrigo da furor
dos inimigos, que incendiarão as habitações
lançando sobre ellas flechas guarnecidas de
algodão inflamado^ Não se sabe com tudo,,
se foi á vista das armas de fogo que os
Cabocolos deverão esta idéa, ou se ao en-
genho inventivo de destruição, tão natural
ao homem. As proximidades das fortifica-
ções herão defendidas por meio de fojos.
Eis o que temos a dizer, respeito aos meios
de subsistência , e recursos defensivos destes
Povos : passemos agora a tratar da Religião,
e forma de Governo adoptados por elles.
Os Indígenas do Brasil reconhecião a
existência de hum bom,, e de hum mão
principio : Deos se lhes manifestava pelo es-
trondo do trovão., e não herão isemptos do
temor do Anhangá , ou espirito maligno.
i5
He de toda a incerteza que fizessem sacri-
fícios á Divindade, porem sabe-se que jul-
gavâo aplacár o Génio malfazejo, collocando
sobre os túmulos de seus maiores muitos
alimentos, e bebidas fermentadas. Segundo
huma antiga tradição, existião em algumas
Aldeãs, Templos onde se adorava o Mara-
cá. Este instrumento sagrado, ainda hoje
em uso, se compunha de huma coloquíntida
cheia de seixinhos ou grãos seccos, e armada
de hum cabo de páo, com o qual a agi-
tava o os Feiticeiros , espécie de sacerdotes
conhecidos pelo nome de Pdgés , cujas
funeções não varião em toda a costa doesta
porção da America , e que se eneontr-r
sempre com o Maracá , emblema de seus po-
deres. Antes de receberem as dlstmcçces
do poder sacerdotal, passavão pelas mais
terriveis provas : durante muitos annos se
lhes impunha tão rigorosa abstinência, que
muitas vezes a morte os privava de gosa-
rem do fim dos seus trabalhos. A Historia
nos conserva parte dos usos exteriores cFes«
tas iniciações *, porém mais interessante
seria conhecer as convenções particulares
dos Págés , que tinhâo por fim illudír os
Selvagens seus compatriotas \ este segredo
foi tão bem guardado , como os dos Povos
mais civilisados da antiguidade; sò se pode
assegurar que em toda a parte onde os
Págés estabelecia© o Mara cá, lhe vinhâo
trazer numerosas offrendas. Estes homens
herâo quem nas épocas mais criticas in^
fundião nos guerreiros o esforço 3 e a cons-
tância : nestas occasiões excluião as mu-.
Iheres da cabana onde se ajuntava o con-
selho , executavão algumas danças lentas e
misteriosas , e recebiâo successivamente o
fumo do petuma^
Hera tal a influencia dos sacerdotes sel-
vagens , que os infelizes que incorriâo na
sua indignação, julgavão não poder sub-,
trahir- se á morte 5 e allucinados pelas terri-
i
veis sentenças dos Págés , se abandonarão á
desesperação, e apprcssavão em realisár taes
imprecações. Por islo se pode fazer per-
feita idéa do ascendente que tinhuo estes
entes poderosos sobre o estado social dos
Indígenas Brasileiros. 0 Povo se persuadia
que assim como elles tinhlo o poder de dár
a morte só com palavras , também da
mesm'arte podíâo restituir á vida : por
isso os chamavuo para cuidarem dos en-
fermos mais perigosos*, e ainda que os moios
que empregavâo os Págés para os curativos,
thessem mais ou menos relação com as frí-
volas práticas da mágica , elles nao herão
totalmente estranhos ao conhecimento das
propriedades de algumas plantas , sendo
com tudo as curas que efíeituavâo , attri-
buidas mais ao poder sobrenatural de que
os suppunháo dotados, do que a este co-
nhecimento.
Os Págés não tinhão grande influencia
i8
no governo, o qual hera extremamente
simples, e se encontra idêntico em todas
as Tribus, Cada Aldêa tinha hum Chefe
civil cuja authoridade se limitava á de
aconselhar; este foi em todos os tempos
o direito da velhice , por isso estes Chefes
lierâo de idade avançada, representando
hum pai de familia no meio de seus filhos x
Levy lhes dá este titulo.
Com effeito, em Aldeãs pouco povoadas 9
como as dos Americanos, todos deviao a?har-
se mais ou menos ligados de parentesco.
Havia entre os Tupis o uso dos grandes
conselhos, onde se fumava, como entre os
Americanos do Norte , o cachimbo da paz ;
aií se diseutiáo os negócios importantes e de
interesse geral.
Para ser admittido no corpo dos guerrei-
ros, hera preciso submetter-se a provas rigo»
*0
rosas, ainda qtie menos do que as dos Pages.
Os combatentes nomearão o Chefe que os
condusia á peleja ; a experiência das guer-
ras precedentes os guiava na escolha. A au-
thor idade do General cessava com a guerra.
O valor não hera só suííiciente para coin-
mamar eslas falanges , muitas vezes se tor-
nava indispensável usar de talentos militares,
fructos da reflexão e experieneia.
As guerras não se fazião sempre como
entre as Nações modernas , onde a victoria
pertence por excellencia á estratégia : em-
prcgavão-se todos os meios de surprender o
inimigo, mas davão-se batalhas campaes
repetidamente , cujos choques herão terríveis.
Se os assaltantes herão repellidos no ataque
de alguma Aldèa fortificada , praticava©
hum sitio regular , isto he , formavãa a
certa distancia , com ramos flexíveis, hum
elevado parapeito , d'onde podessem lançar
20
as flechas sobre o inimigo , e interceptar-
lhe a passagem tios Tiveres ; porem, como
geralmente lhes faltava a elles mesmos as
munições necessárias , todas as operações
se termina v?io de prompto, acontecendo que
o sitiante , achando - se cercado em suas
próprias obras , deixava grande numero dos
seus em poder do inimigo. O Oceano hera
mui frequentemente o lheatio das proêsas
dos Tupinambás^ e aqui se exigia ainda mais
habilidade da parte do General. Numerosas
pirogas construídas de hum só tronco for-
ma vão as forças navaes desta Nação.
Não devemos deixar em silencio hum
riso com n ui m á maior parte dos Povos da
America , e tão notável como o do sacrifício
dos prisioneiros , e dos repugnantes festins
em que estes miseráveis servião de pasto a
seus rivaes \ porem se os Povos anthropo-
phagos horrorisão os Furopeos, quanto mais
horror não deve excitar -lhes a lembrança
31
cios enormes crimes a que esta barbaridade
sérvio de excusa.
E*tes homens, que t~o cruéis nos pintao,
dav~o, lie verdade, a morte a alguns pri-
sioneiros : pratica a que se julgav~o autho-
risados, porque seus maiores havifio recebido
Í2,uaes tormentos do inimigo cm semelhantes
occasices ; a estupidez lhes nno deixava ver
o horror da vingança, mas esta vingança
hei a prompta, nlo tinhao inventado, eomo
os que se jactão de serem civilisados, pri-
sões subterrâneas, masmorras negras e em-
pestadas, ontle se respira o horror do eapti-
veiro e o desejo da morte. Entre os Tupis,
o prisioneiro destinado ao sacrifício gosava até
aos últimos instantes, dos praseres da vida,
só esta lhe era exigida, e n~o querido que
elía o abandonasse entre pungentes sofri-
mentos. Os vencedores lhe escolhi o nos pri-
sioneiros huma esposa entre as donzelias mais
dislinctas cm belleza. Esta escravidão que
Iâ2
devia terminar de hunia maneira tão trágica
durava ordinariamente mezes, e se prolon-
gava algumas occasões a annos inteiros. Co-
mo o sacrificador gosava de particular con-
sideração, muitos guerreiros reservavão esta
honra para seus filhos, e esperavão que elles
chegassem a estado de se encarregar da exe-
cução.
Depois d'este acto , o sacrificador mudava
de nome, e praticava na perna huma pro-
funda incisão*, singular ferrete de huma no-
hresa de nova espécie , mormente não se
tendo o algos exposto a a poderá r-se do pri-
sioneiro no combate.
Bem que em quasi toda a America se ob-
serve pouca difíerença nas ceremonias, quan-
do a NaçHo se reúne para immolar huma vie-
tima , os usos dos Cabocolos em geral herão
menos cruéis que os de muitos outros Povos,
que insultavâo e mutiiavâo os prisioneiros
23
antes de lhes dár a morte, o que estes sé
faziâo aos Págés inimigos.
O estabelecimento dos Portuguezes no
Brasil produsio grande mudança na sorte dos
que cahiâo nas mãos do inimigo ; os Selva-
gens pi eferião vendel-os como escravos , á
odiosa satisfação de saciar n'elles a raiva con-
tra outra Tribu : d'isto mesmo, porém, re-
sultou nova desgraça^ consequência inevitável
do deshumano tráfico da escravatura : as
guerras se multiplicarão, tornando-se mais
destructivas.
As transmigrações d'cstes Povos, suas der-
radeiras guerras, e em fim sua quasi total
aniquilação, eis o que importa moslrár em
summario, tratando de algumas Tribus im-
portantes de que não temos ainda fallado.
Os Tapuyas, expulsos por toda a parte do
território que anteriormente oceupavao, pro-
curarão hum asilo no interior do paiz; os
matos virgens não poderão ainda subtrahil-os
ás perseguições dos Selvagens conquistadores,
e , só oppondo o mais decidido valor aos fu-
rores do terrível inimigo, escaparão em parte
ao captiveiro, ou á mor te. Este Povo, que em
outro tempo tinha formado grande numero
de Nações poderosas , se achou disperso , e
por consequência fraco.
Ainda que os Tapuyas tivessem alguma se-
melhança com os Tupis, se accreditâmos hum
antigo manuscripto, differião d'elies na lin-
guagem, e em muitos costumes} passa por
certo que não sacrificavão os prisioneiros, o
que os usos das Tribus existentes parecem
desmentir.
Pouco depois da derrota dos Tapuyas, as
Hordas que se Unhão reunido contra elles, se
dividirão, e tornarão inimigas capitães. A
Historia menciona os nomes das principaes
25
Nações Tupis, ao passo que indica algumas
de suas guerras, muitas vezes funestas aos
Europeos. Os Tupinambds, Tupinacs, e os
Tupininquins , herão as tres principaesj po-
dem-se depois ad-miltir os Tamoyos^ Càhetès 5
Amapiras^ etc. Muitas Nações estabelecidas
nas visiiihanças destas, não pareciao per-
tencer á raça dos Tupis, nem á dos Tapuyas,
talvez fossem restos dos mais antigos habi-
tantes, ou que proviessem de outros do inte-
rior, d'onde tivessem sido expulsas. Hum
sábio Alemão observou muitas destas Tribus
no Perú , c assegura que algumas adoravão o
sol *, entre estes se devem contar os temiveis
Ubirajarás, que viviao no centro da Provin-
da da Bahia, e que não entendiâo a lingua-
gem de nenhum dos seus visinhos.
As tradições incertas das Tribus conquis-
tadas pelos Portuguezes, são fraco soccorro
para a Historia; com tudo ellas nos tem
guiado, e nos servirão ainda na exposição das
4
26
gn prras que sustentarão os indígenas. He jâ
diííicil estabelecer de huma maneira incon-
testável o lugar do domínio de cada Povo por
occasião da descoberta , e quasi impossível
fazel-o para épocas anteriores. Nos procura-
remos com tudo , dizer o que há de mais certo
a este respeito 5 começando pelo Sul.,
Os Carijós i que se julga terem pertencido
á grande Nação dos Guaranys do Paraguay,
forão sem custo conquistados, e, como mais
dispostos a adoptar a vida agrícola , muito
úteis aos Colonos de S. Vicente. Os Povos sel-
vagens dos arredores os despresavao como
cobardes. Elíes não tardarão em alliar-se
com os conquistadores \ nos sertões do Brasil
se encontrão ainda muitos mestiços que del-
les descendem , ainda que a família primi-
tiva esteja ex tine ta.
Os Tamoyos herao senhores de toda a costa
comprehendida entre o Cabo de S. Thoméj
27
e Angra dos Reys , e ainda que os mais
hábeis na arte de fortificar, for3o primei-
ramente expellidos para o interior pelos
Goaytacascs ; mas voltando logo as margens
do Oceano , os Portuguezes os destruirão,
completamente. Seus primeiros inimigos não
tiverHo melhor sorte; vencidos em difíeren-
tes combates, forno obrigados a dispersar-se,
e na extramidade da Província do Rio de Ja-
neiro, existem ainda fracos restos de suas
Tribus, com o nome de Coroados , os quaes
vivem em plena paz com os Brasileiros, bem
que conservando huma parte dos antigos
usos. Os Goaytacascs sHo talvez os nnicos,
Cabocolos que deixassem monumentos capa-
zes de excitar a curiosidade dos Antiquários;
elles enterravao seus guerreiros em grandes
vasos de ar gi lia, e em diíferenléi occasiões >
se tem descoberto muitas destas sepulturas.
Nao fatiaremos dos Goayanases , que forao
aniquilados, ou que se unirão a outros,
28
porque a Naçlo n~o hera assaz considerável
para poder resistir as forças dos Euiopeos, e
dos Selvagens com quem tinhão guerra.
Nao pode deixar de surprender que bum
Povo como o Tupinambá n~o deixasse ves-
tígio algum na Província do Rio de Janeiro,
o que prova que na emigração geral ^ as
Tribus re reunirão. Nos indicaremos as
causas d'esta unanimidade , táo notável entre
hum Povo numeroso, fatiando dos indígenas
de S. Salvador.
Os Tupininquins , e os Tupinaes, formava©
antigamente hum a só Nação : por isso, ha-r
Li t indo ambos huma parte da costa entre Rio
de Janeiro e Bahia, e tendo diversos iate?
9 resses, jamais se vio a guerra entre elles. Fo-
rao os Tupininquins que acolherão o AlmU
ranle Cabral ^ e parece que mal recompensa-
dos for lo de sua hospitalidade ; porque algum
tempo depois do estabelecimento dos primei-
29
ros Portuguezes , abandonarão a costa , e se
refugiarão nos maios que cobrem este deli-
cioso território.
Todos os recursos offerecklos pela natureza
sho mesquinhos para hum Povo selvagem ,
cuja industria n~o cresce na razão das neces-
dadesj he provável que os Tupininquins ti-
rassem grande partido da pesca, extrema-
mente abundante n'estas paragens, c que este
fosse o motivo que os indusio a vir habitár
á beira-mar *, porem , talvez nlo fugindo
aos bosques, tivessem evitado participar da
sorte cruel dos Portnguezes ; a feroz Naçlo
dos Âymorcs desceo do interior , e destruio
sem distincçlo Furopeos , e Americanos. Fal-
la-se com raz"o dos serviços que os Tupinin-
quins prestarão aos Portuguezes ; elies se
subnettei ào á civil is açTio , e se distinguirão
pela doçura de seus costumes ; a sua existência
actual he miserável. Os Tupinaes formarão
provavelmente nova aliiança com esta Nação,
3o
Depois que os Indígenas Brasileiros se mio
pedem glorificar do titulo sagrado cTinde-
pendentes, juntarão suas desgraças, er em
pouco, a palavra Americano bastará para
designar muitas raças r que em outro tempo
forâo inimigos irreconciliáveis*
Os Aymores, que adquerirao Ho funesta
celebridade, só apparecerão- na costa, muito
tempo depois do descobrimento. Pensa - se
geralmente que este Povo descendia de hum a
Tribu de Tapuyas,que destacada nas solidões,
do interior, tinha perdido as mesmas gros-
seiras artes de seus ascendentes. Os próprios
Selvagens os olhuvHo como a irracionaes, por
ignorarem a maneira de construir huma ca-
bana , e nao saberem adornar-se com as ricas
plumas cujo uso se encontrava em todas as
outras Tribus. Elles tinhâo ainda outro ca-
racter mais distincto , que consistia no in--
vencivel temor da agoa , o que os impedia
de perseguir o inimigo, quando este trans-
3i
punha hum rio, ou hum lago. Esta circuns-
tancia nos parece attestar que os Ay mores
provinhâo das Hordas habitantes das áridas
planices de Pernambuco , Ceará , e Piauhy ;
pois que hum Povo bárbaro que habita as
margens dos rios, não deve ignorar muito
tempo a arle de nadár. Os Aymores fazião
mais uso da carne humanado que os anthro-
póph.igos de que temos fallado, e a conser-
va vão como qualquer outro nutri mento, sem
a isso juntarem idra alguma de vingança.
Elles assolarão Porto Seguro, e Ilheos, a ponto
de obrigarem todas as fazendas a cessar seus
trabalhos, pela absoluta falia de escravos;
avalia-se em 300 Colonos, e 3,000 Indígenas
e Negros, o numero dos mortos. Os Aymores
forâo depois batidos e dispersos; dos restos
doesta raça procedem os Botocudos, que per-
correm as margens dos rios Doce, e Bel-
monte , alguns em paz com os Brasileiros.
Os Papanases se estabelecerão antigamente
32
entre Porto Seguro e Espirito Santo*, mas,
os Tupininquins, e os Goaytacases, lhe fize-
rao tão cruel guerra, que os forçarão a ga-
nhar o interior, onde vivem talvez com
differente nome.
Vamos tratar em fim da porção da costa
habitada pelo Povo de que os Portuguezes te-
riâo obtido as maiores vantagens, se a escra-
vidão não tivesse sido muitas vezes o premio
de suas virtudes hospitaleiras. Os Tupinam-
bás , geralmente temidos., se elevavão por
seus costumes e coragem , acima de todas
as Nações contemporâneas. A Bahia pertencia
excltisi vãmente a estes Indigenas , cujas diíFe-
rentes Tribus viverão largo tempo em per-
feita harmonia , até que hum accidente, pouco
importante em aparência., mudou a face das
cousas. 0 rapto de huma mulher acendeo
a guerra entre duas Aldeãs : a familia ofíen-
dida ganhou a Ilha de Itaparica , muitas
outras se lhe reunirão \ os contrários esta-
33
belecerao-se nas praias oppostas do continente,
e a bahia foi o theatro de huma guerra
continua e sanguinolenta. 0 tempo não
pôde adoçar a cólera dos dois partidos : en-
tre os Selvagens a vingança lie liuma neces-
sidade que toda a Nação sente igualmente;
o odio augmentou a ponto de não respeita-
rem nem os túmulos dos contrários : os
mortos forâo desenterrados , e receberão mil
ultrages *, depois de se terem entregues a
tão indigno procedimento , os guerreiros
mudarão de nome : suas grosseiras supers-
tições lhes fazião suppôr que d'est' arte es-
capavao ao furor dos manes irritados. Os
Tupinambás tomarão parte nas guerras dos
Portuguezes, tendo antes feito vãos esforços
para se oppòrem á aggressão europea. Nos os
veremos figurar na Historia até certa época,
mas para desaparecerem repeutinamente ;
da mesma maneira que se reunirão para
invadirem hum terreno fértil , assim cessou
sua rivalidade quando foi preciso abando-
5
H
nal-o. O Norte lhes offereeia vastos desertos
desconhecidos aos Europeos, diregirão-se para
elles: o paiz regado pelo Àmasonasos abrigou;
os nomes de algumas ilhas, e de muitos
tributários deste rio, lembrâo ainda a emi-
gração ; talvez se conservem algumas Tribus
de Tupinambás nos bosques do Pará , mas
he certo que se não encontrão nos lugares
habitados por elles na occasião da conquista.
Pertendem alguns escriptores, que depois
de deixarem o paiz onde os querião escravi-
sár, se tornarão a dividir, e huma parte
se estabelece© no Perú.
Dalém do rio de S. Francisco estavao
os Amapiras , que também descendião da
Nação dos Tupis, mas que d'elles se separa-
rão em tempo das grandes guerras com os
Tapuyas*, este Povo tinha tomado o nome
de hum de seus Chefes, e vivia em guerra
com outro mais selvagem, e de difíerente
origem.
35
Os Ubirajarás que, como dissemos, habi-
tavão o interior, se conservarão muito tempo
sem conhecerem os Europeos, porém logo
que aparecerão nas costas forão inteiramente
destruidos.
A Província de Pernambuco, onde agora
existem poucos Indígenas, hera antigamente
povoada pelos terríveis Cahete's, que possuião
todo o território comprehendido entre os
rios S. Francisco e Parahyba , e que sus-
tentavão huma guerra constante com os
Tupinambás, por meio de jangadas. Doze
guerreiros podiâo transportar-se em cada
huma d'estas simples embarcações, e nume-
rosas Esquadras levava o a devastação e a morte
às Tribus inimigas postadas algumas vezes
a cincoenta legoas. Este humor bellicoso foi
funesto aos Cahetés*, os Tupinambás se jun-
tarão aos Tupinaes e Tapuyas para os des-
truírem , o que conseguirão : só os que ganha-
rão a serra de Aqueriba poderão escapár á
36
morte ou á escravidão : cousas quasi idênti-
cas entre taes contendores. Os Cahetés tinhão
reputação de muito cruéis, o que confirma o
differentes factos referidos pelos escriptores
antigos.
Os PitagoareSj, que confinava o com os Cahe-
tés, não herão menos temíveis; amigos fieis
dos Fiancezes, os acompanharão em muitas
expedições. Ainda que estes Cabocoios tives-*
sem os principaes estabelecimentos entre Rio
Grande do Norte e Parahyha, parece que
dominava o ate' alem do Maranhão,
II a ma multidão de outras Nações menos
consideráveis habitava a costa, mas para tra-
tár de sua Historia, seria necessário limitar-
nos a huma nomenclatura extravagante :
muitas herão Tribos fugitivas dos Povos de
que nos lemos occupado, que procurarão re-
fugio nas regiões menos povoadas do Norte,
Indicar o que resta d'estas raças, seria sem
37
duvida hum trabalho curioso , porém qu*
nos faria exceder o quadro d'esta obra j con-
tentar-nos-hemos pois^, fallando do estado
prezenle do Brasil, com designar summaria-
mente as principaes Nações que habitão ainda
este vasto território.
SEGUNDA ÉPOCA.
© Orasil conquistai pelos }Jortu<jue;cs,
A viagem de D. Vasco da Gama ás índias
Orientaes tinha excitado nos Portuguezes o
desejo violento de continuar tão importantes
e gloriosas empresas : a Nação inteira ambi-
cionava novas expedições. El Rey D. Manuel,
aao menos interessado em fixár o seu domínio
4o
na A'sia, enviou huma Esquadra a CallecUfê?
este Monarcha estava longe de esperar o que
a fortuna lhe preparava ; o accaso , então
como outras vezes, guiou os passos de intré-
pidos navegantes*, estes, sentindo a necessi-
dade de evitár as calmarias da costa d' Africa,
fizerão-se muito ao largo , os ventos forçarão
o rumo da Esquadra , e a costa da America
1500 Meridional se patenteou aos Lusitanos.
S2 de Ab.
Nos não sabemos se tal descobrimento, in-
teiramente filho de circunstancias indepen-
dentes de raciocinio, pode fornecer grande
honra aos Portuguezes ; mas he certo que elle
so podia caber a quem ousado sulcava o
Oceano em tão longiquas paragens. O conhe-
cimento pois da existência da costa do Brasil
se deve a Pedro Alvares Cabral^ Commandante
da Esquadra.
O Hespanhol Vicente Yanes Pinzon , so vi-
sitou os locaes visinhos á foz do Amasonas i
4*
esta expedição foi sem effeito, em quanto
Cabral tornou a sua util á Patria.
Segundo o costume, começou por dár
hum nome ao paiz , antes de saber o que elle
tinha entre os primitivos habitantes. Foi na
oitava de Páscoa que o Almirante encarou as
costas brasileiras , por isso a primeira mon-
tanha avistada se chamou Monte Pascoal,
c o resto Terra da Vera Cruz. O desembar-
que effeituou-se no lugar depois chamado
Porto Seguro.
A conducta dos Portuguczes foi assaz pru-
dente para com os habitantes, os quaes de
sua parte Paes mostrarão inteira confiança:
pois que desarmados se introdusião no meio
d'elles, e não temerão admittil-os, ainda que
em pequeno numero, em suas Aldeãs.
Os Selvagens desejavão possuir todos os
objectos que lhes heião estranhos, e depois
6
42
de os obterem , não testeinunhavao o menór
prazer , julgando que não havia nenhum
agradecimento a dár por hum objecto para
elles inútil. He preciso ter chegado a alto
grao de perfeição no estado social, para
ser sensível a huma boa intenção que não
tem effeito*
OsTupininquins não tardarão em conhecer
as vantagens que os Portuguezes tiravão do
ferro , e se juntarão em torno de alguns dos
viajantes que talhava o a machado hum grosso
madeiro para a construcção de huma cruz
que se devia erigir na praia onde primeiro
tinhão desembarcado *, talvez hum grosseiro
instrumento lhes deo mais alta idéa da scien-
cia europea , do que as numerosas embarca-
ções, das quaes não podião conceber a ad-
mirável construcção. Os Cabocolos ajudarão
a plantar esta cruz, que indicava ás Nações
selvagens., que o paiz tinha cessado de perten-
Gcr-lhes , e que hum dominador na Europa
43
decidiria de stia sorle futura. Durante as cere-
monias religiosas que tivera o lugár logo na
occasião da posse , se comportarão exacta-
mente como os Europeos, imitarão seus ges-
tos e devoção , o que fez pensar que abraça-
rião facilmente o christianismo *, mas o futu-
ro mostrou quanto devia ser custosa esta con-
versão, que marchou sempre a pár da vio-
lência 9 porque outros interesses, mais do que
os de Religião, influirão sobre este objecto.
Bem que Cabral, no começo avaliasse em
pouco a utilidade que Portugal poderia tirar
d 'es te descobrimento,, julgou a propósito de
ali deixar dois moços resolutos condemnados
a degredo na A'sia , afim de aprenderem o
idioma dos Indígenas, e servirem de inter-
pretes a outras expedições. Hesitou-se em
aprisionar alguns Cabocolos, e envial-os á
Europa, mas, cousa admirável,, olhou-se
esta medida como injusta \ e a opposição
de Cabral a tal violência deve contar-se no
44
numero das brilhantes acções que delíe se
citão.
Partidos da Vera-Cruz, a embarcação que
condusia as provisões da Esquadra , descarre-
gou para outras , e tomou o rumo da Europa,
a levár tão lisongeira nova ao poderoso Mo-
narcha Portuguez. Gaspar de Lemos 3 Com«
mandante d'esta embarcação, reoonheceo parte
da costa, e, não imitando a moderação de seu
Chefe, apoderou-se de dois Iudigenas, e o§
condusio a Corte,
Reflectindo no effeito que deverião produ-
sir em hum Povo ardente e sabiamente go-
vernado, as noticias successivas de grandiosas
conquistas e maravilhosos descobrimentos ,
que aífluião em Lisboa n'esta época da gloria
portugueza, se conhecerá a razão do espan^
toso engrandessimento de suas numerosas Co-
lónias.
1501 Cabral^ de volta da índia , encontrou IVi-
45
colau Coelho á testa de huma expedição naval,
mandada por El Rey D. Manuel directamente
a Vera-Cruz.
Hum Author de boa nota afirma queÂme-
rico Vespucio par tio também no mesmo anno
para este paiz, que perdeo alguns dos seus ás
mãos dos anthropóphagos , e que em outra
viagem, em 1502 > fundou o primeiro esta-
belecimento na Bahia de Todos os Santos.
Quanto os remotos tempos da Historia da Eu-
ropa devem ser obscuros, quando buma
época tão próxima de nos, oflferece ja conjec-
turas sobre factos importantes! Todavia, o
descobrimento da Bahia se deve attribuír a
Cliristovuo JacqucS) o qual explorou toda a
costa até ao estreito de Magalhães, plantando
padrões nacionaes em todos os portos que
visitou. Este Capitão, tendo a infelicidade Je
perder algumas caravellas , estabeleceo eom
as equipagens delias huma pequena Coloma
46
em Vera-Cruzj a qual n'esta occasião tomo»
o nome de Porto Seguro.
0 pao de tintura exportado d'esta Povoação
excitou o interesse dos negociantes Portu-
guezes, e o vasto terreno onde se colhia a
Ibirapitanga se tournou hum mananciál de
riquesas; os mercadores davão a esta droga
o nome de pao brasil s por causa da inten-
sidade e brilhantismo de sua cor, que se as-
semelha á da brasa : e d'aquí a denominaçaa-
de todo o paiz.
Além das Esquadras destinadas á A'sia ,
1502 <Iue tocav^° no Brasil, muitas expedições se
1503 organisarão expressamente para este bello
paiz, porém nao formavâo estabelecimentos
duráveis*, de maneira que a goarnição de hum
45^5 navio naufragado perto de Porto Seguro, te-
ve que buscar asilo entre os Selvagens , por-*
que a este tempo já se achava aniquilada a
47
Povoação portugueza. As primeiras construo-
ções herão, como as dos Indígenas , pouco
resistentes.
Entre as expedições que tiverão lugar por
esta época, cumpre distinguir a de João Dias
Solis , hábil Piloto Castelhano , que reconhe-
ceo grande parte da costa, e entrou na bahia
de Nitherohy 5 o celebre Fernando de Maga- 1 526
Ihães, o imitou pouco depois : as que se segui-
rão forâo infructuosas, á excepção da de
Diogo Garcia
Divisão do Brasil em Capitanias, — Povoação do Espirito-
Sanlo, de Pernambuco e da Bahia.
Se El Rey D. Manuel hera incançavel no
-augmento do Império Portuguez ^ seu filho,
El Rey D. João III procurou sabiamente
tirár das novas Colónias as possíveis vanta-
gens, O Brasil não tardou em manifestar ,
por sua admirável fertilidade, quanto podia
ser util á Metropoli , e esta emprehende*
43
tlar-líie huma forma cie governo que íeis-*
desse á sua prosperidade. Deve-se attribuír
á época a pouca prudência que Louve na
escolha da primeira administração d^eslepaiz.
1531 O território foi repartido em nove Capita-
nias hereditárias*, este espécie de governo
feudal não hera nada próprio para catequizar
os Indígenas, dotados de hum animo diame-
tralmente opposto a taes instituições.
Conferio-se aos Donatários o direito de con-
quistarem grandes porções de terreno , e for»
marem estabelecimentos a seu capricho.
A primeira Povoação de alguma impor*
1531 tancia, foi fundada por Martim Ãffonço de
Souza, que já se havia distinguido nas índias
Orientaes; o caracter pacifico das Carijós o
determinou a adoptar o território de S. Vi-
cente; este Donatirio examinou a excellente
bahia de Nitherohy , e não percebendo as van-
tagens da posição, contentou-se eomdar-lhe
49
© nome exótico de Rio de Janeiro. Elie tentou
estabeleeer-se pelos i os Selvagens se lhe
opposerão*, e João Ramalho , que tinha naufra*
gado nVstc lugar, protegendo-o para com huma
Tribu mais poderosa, concorreo para o aug-
mento de S. Vicente, e lhe deo facilidade de
estabelecer ao longo da costa, muitos Euro-
peos vindos com elle. M. A \ de Souza, intro-
dusio no Brasil a cultura da canna d'assucar,
e as muares : serviços estes bastantes para
merecer eterno reconhecimento*
A Pedro Lopes de Souza , irmão do primei-
ro Donatário, coube a Capitania de Santo
Amaro, perto de S. Vicente, os Pitagoares
lhe disputarão a posse do terreno, mas fi-
nalmente vencidos em huma batalha decisi- 1534
va, se estabeleceo a pequena Colónia. Lopes
de Souza, tentando reconhecer a costa ao Sul
de seus domínios , pereceo em hum naufrágio^
na foz do rio da Prata,
7
5o
i 534 Pedro de Goes , veio tomár a posse da Capi*
tania da Parahyha , mas abandonou-a pouco
depois *
fiasco Fernandez Coutinho , nomeado Do-
natário da Capitania do Espirito Santo, esta-
1 534 foeleceo-se nas proximidades do desembarqué
de Cã br ai , onde encontrou hutn dos dois des-
terrados , que esle ali havia deixado $ e que
muito lhe sérvio para adquerír a alliança dos
Tupininquins, que conseguio juntar em Al*
dèas subordinadas.
Á Capitania dos Ilheos foi dada a Jorge
1534 de Figueiredo Correa, o qual enviou Fran*
cisco Valdez , Cavalheiro Castelhano, tomár
a posse.
1 534 Porto Seguro foi conferido a Pedro do Cani-
ço Toyrinho 5 que ali se estabeleceo.
A Capitania de Pernambuco teve por Do-
5i
natario , Duarte Coelho Pereira , que ja havia
prestado relevantes serviços no Brasil , o qual
veio povoal-a, trasendo muitas famílias, e
fundou a Cidade de Olinda ; tendo primeiro , i 535
auxiliado pelo célebre Tapeird, Chefe na Tribu
dos Tabayarés, expellido valerosamente os
bravos Cahetés commandados por Francezes.
A Colónia progredio rapidamente pela boa
administração de Coelho Pereira, o qual sou-
be aproveitár do préstimo de muitas famí-
lias, que a Inquisição de Lisboa mandou pro-
curar no Novo Mundo o asilo que a Europa
lhes negava*, muitos Judeos emigrados por
perseguições religiosas, vierão buscar segu-
rança igualmente em Pernambuco.
Ao célebre Historiador João de Barros,
coube a Capitania do Maranhão; mas Ayres da
Cunha, que em seu lugar veio tomara posse,
naufragando na entrada da barra, João de 153S
Barros cedeo do donativo a favor de Luiz
de Mello, o qual tendo igual sorte nos perigo-
5%
1536 sos baixios do Maranhão, o território ficou
despovoado , nos domínios da Coroa,
A ultima Capitania povoada foi a da "Bahia
de Todos os Santos, que se conservava entre-
gue aos Tupinambás.
Hum Europeo vivia ja no meio d'estes Seí-
vagens, antes que o Governo Portuguez ti-
vesse disposto do terreno que elles occupavão.
1512 Diogo Alves Correa , lançado por huma tor-
menta sobre as costas do Brasil, se tinha li-
gado á familia de hum Chefe, e gosava entre
toda a Tribuj que o chamava o Caramuru 7
da consideração que lhe devia adquirir a su-
perioridade de sua intelligencia sobre a de
hum Povo bárbaro,
Francisco Pereira Coutinho, a quem El Rey
tinha concedido o território entre a Ponta
do Padrão e o Rio de S. Francisco , começou
o seu Governo declarando huma guerra crua
aos Tupinambás, e apoiando todos es excessos
53
da desenfreada soldadesca que o tinha arom-
panhado; os Selvagens supportas âo estas vio-
lências, até que o Governador a poderá ndo-sc
de Alces Correa, a famosa Paraguassá, es-
posa do naufragado, com mim içando a toda
aTribu o fogo da vingança, que a animava,
obrigou o Donatário a procurar asilo na Ca-
pitania dos Illicos.
Parte dos Tupinambás , ja costumada ao
uso das superfluidades importadas da Euro-
pa , no tempo de Pereira Coiilinlt© , mandou-
lhe propor a paz \ e este, aceitando-a impru-
dentemente, voltava á Bahia, quando huma
violenta tempestade o lançou contra a Ilha 1543
de Itaparica : todos os que, evitando a morte
no Oceano , ganharão terra, forâo devorados
pelos Indigenas : só Alves Correa escapou., e
foi restituído aos seus.
Depois d'este trágico successo, a Capitania
foi encorporada aos domínios d El Rey.
54
O Governo- de Portugal , inteirado da
utilidade do novo Estado do Brasil , resolveov
tomar medidas que fizessem reverter em fa-
vor da Coroa, os rendimentos que até ali so
disfructavâo os Donatários, e, conhecendo as
vantagens da posição da Bahia de Todos os
Santos. 5 fixou este ponto para Capital de
todo o Brasil. Cinco embarcações , 600 vo-
luntários , i5oo condemnados , e algumas
famílias decididas a hiima emigração pro-
vavelmente vantajosa , constituirão a nova
expedição, cujo commando foi confiado a
Thomé de Souza , revestido do titulo de Go-
1549 vernador Geral do Brasil, e authorisado a
extender sua jurisdicção a Iodas as Capitanias*
Os privilégios dos Donatários fora o entã©
consideravelmente restringidos.
Thomé de Souza, achou ainda na Bahia ,
Alves Carrea, que vivia no meio dos Selva-
55
gens , e que concorreo para que estes se lhê
alliassem.
Os primeiros fundamentos da Cidade de
S. Salvador forão lançados no locai hoje oc-
cupado pelo bairro da Ajuda , sem embargo
da razoável opposiçao dos muitos que votavao
por outra escolha.
A actividade dos novos Colonos surprende
quando se considerão os edifícios construidos
por este tempo, ella se deve attribuír á sabia
e prudente conducta do Governador.
Os Tupinambás, que se tinhâo associado
aos Portuguezes para a edificação da Cidade
onde deviâo habitár seus cruéis perseguidores,
forão de novo maltratados, porque hum dos
seus assassinou hum Portuguez, bem que o \
criminoso fosse entregue ao Governo. D'en-
tâo em diante , a desconfiança augmentou de
56
huma e outra parte, e hum ódio reciproco
succedeo ao commercio mais tranquiilo.
Alguns Jesuiías, que então chegarão ao
Brasil , vierão augmentár este rancor ,
tentando o proselytismo dos Selvagens ;
e , levados de hum zelo inconsiderado ,
ousando roubar -lhes hum prisioneiro ja
ferido do golpe moriál, e destinado a hum
de seus usuaes e bárbaros festins *, os Caboco-
los enfurecidos marcharão em força contra
a Cidade, porém a firmeza dos Portuguezes,
e o aspecto das armas de fogo, os amedronta-
rão, e fizerão retirar. Estes factos, unidos
á indolência dos Indigenas, e á conducta
de sens conquistadores , motivarão a re-
pugnância que aquelles sempre tiverão á
civilisacão.
N esta época, muitos Europeos, desdenhan-
do a cultura das terras, penetrarão pelo in-
terior, esperando verificar conjecturas á cer-
ca da riquesa mincrál do paiz. Terio sido
5?
melhor que taes pesquisas fossem, por então*
infructuosas.
Thomé de Souza, pedio retirar-se á Corte,
entregou o Governo a Duarte da Costa, para
isso nomeado, e par tio deixando a mais sau- 552
dosa memoria.
O novo Governador, que tinha entrado no
Brasil, acompanhado por dezaseis Jesuitas ,
entre osquaes se notava o celebre Jose Ancheta,
e que descobrio em seus companheiros de via-
gem esta ambição de authoridade que sempre
os tem caracterisado , projectou logo tomár
as convenientes medidas de reacçlo. Os Mis-
sionários, desesperados da protecção do Go-
verno, se retirarão paia a extremidade Sul
do Estado, procurando occultarem-se á vigi-
lância de D» da Costa \ as planices de Pirati-
ninga lhes parecerão próprias para huma
Povoação, que foi depois habitada pelos do-
minadores do Paraguay.
58
Tentativas dos Francese» para *e estabelecerem nô Brasil.
Povoação de S. Paulo.
Bem que as Colónias da America Meridio-
nal pertencessem por direito indisputável ?
parte á Hespanha, e parte a Portugal, as
outras Potencias dEuropa n~o podiao obser-
vár sem hum sentimento de inveja, o domi-
nio exclusivo d'estas duas*
Nicolau de Villcgagnon , homem hábil e
atrevido, organisou em França huma expe-
dição sob os auspícios do famoso Almirante
Gaspar de Coligui, no intuito de vir estube-
lecer-senabeila bahia deNitherohy , e d aqui
fazer propagar no Novo Mundo os preceitos
da Pieligiao Reformada, da qual se dizia affin*
cado partidário. Chegado ao Rio de Jane?-
5 ro, construio dentro da bahia, em huma
pequena ilha, o Forte de Coligni , hoje conhe-
cido pelo nome de seu fundador \ mas pouco
tempo depois, mudando repentinamente de 155?
crença , perseguio milhares de companheiro^,
que seus falsos juramentos lhe tinhao gran-
geado,
Mendo de Sá, successor de Z>. da Costa ,
por ordem da Côrte veio repeliir os intrusos
concentrados no ForU de Coligni , e, apezár
de valerosa defensa % conseguio fazel-os aban<-
donára posição^ e passar ao continente, onde ^ 560
se fortificarão *, porem como não ficasse força
para prohibir o estabelecimento, os France-
zes se reunirão mais vantajosamente ainda
do que a principio.
Villegagnon , chamado á Europa , occultou
os furiosos remorsos de sua negra perfídia,
no interior de hum palácio, onde acabou in-
famado com o odioso epitheto de Caim da
America.
Os Padres Manuel da Nóbrega , e José
6o
Áncheia, se tinhao transportado a S. Vicente
antes da aceno contra os Francezes, afim de
ali prepararem hum refugio á Frota Poi tu-
gueza. O Governador Geral quiz examinar a
mais antiga Capitania do Brasil, e deo á veia
para aquelle porto. O caracter ardente e firme
dos Vicentistas, sua resolução nobre e altiva,
a par de muita robustos e agilidade, indusi-
rao M, de Sá a aproveitár de tao felizes dis-
posições, e dar á Colónia a importância de
que ella hera capaz ; porem , chamado ás vi-
sinhanças de S. Salvador, onde os Aymorés
arremeçando-se segunda vez sobre as habita-
ções portuguezas commetterao os mais cruéis
excessos, foi obrigado aabandonár S. Vicente,
encarregando os dois Missionários do aug«
mento da Colónia.
Estes começarão por transferir o Coliegio,
da Povoação de S. André para Piratininga,
chamancio-lhe Collegio de S. Paulo \ e d'aqui
o nome que esta Capitania, dentro de outros
6i
limites , teve em 1710, quando Antonio d' A%*
biujiwrqne Coelho a veio governár. II uma es-
trada se abrioaté ao porto \ e esta Povoação se
tornou em pouco huma das mais iloreeeni.es do
Estado \ ganhando assim os bravos Yicentistas
o necessário elasterio para hum dia levarem
o nome poi tuguez ás mais longiquas regiões
do interior.
Todavia, os Tamoyos perturba v!©- a cada
passo o progresso da Povoação, e animados
por continuas victorias, arm~o finalmente tre-
zentas pirogas para atacaiem os ^ icentistas, 1 j63
quando Nóbrega e Ancketa , possuídos do mais
heróico valor, peneti\io até aocampo inimigo,
e obtém huma capitulação que salva a recente
Colónia da completa e inevitável rui na.
Passados estes acontecimentos, hum novo
flagrlo acommetteo os Indígenas, a- bexigas 1564
se deciaiarao entre estes Povos. O abandono
dos doentes, a errada convicção de huma
morte infalível, e outras razões phisicas> fi*
zerão com que esta moléstia causasse maior
devastação do que todas as guerras europeas.
Expulsão dos Francezes. — Povoação do Rio de Janeiro.
Divisão do Brasil em dois Governos separado».
0 Governo de Lisboa informado do prós*
pero augmento da Colónia Franceza estabe-*
lecida no Rio de Janeiro, e por tanto tempo
abandonada da Corte-, deixou em fim sua inex-
plicável negligencia, e resolveo fazer desalor
jár os Protestantes de tão preciosa paragem.
Para este efíeito foi escolhido Estácio de Sd,
a quem se deo o commando de huma expedi-
ção que partio de Portugal., foi passár pela
Bahia para receber reforço de gente e arma-
mento, e veio desembarcar no Rio de Janeiro ,
1565 junto ao monte Pao dassucar. Os Francezes
os receberão como prevenidos , e repellirao em
diversos ataques , durante quasi dois annos ;
mas os Portuguezes recorrendo ao Governador
63
Geral M. de Sd, este armou huma Frota de-
baixo do commando de Christovão de Barros ,
veio em pessoa ao auxilio de seu sobrinho E.
de Sd , e em dois dias tomou, ajudado pelo 15
hábil Nóbrega , todas as posições do inimigo,
c o obrigou a debandár, e seus alliados Ta-
moyos. Os Protestantes embarcarão em quatro
navios, e se diregirao sobre Pernambuco,
d'onde obrigados a ganhar o largo pelo Gover-
nador da Capitania, forao constrangidos a
vultár á Europa.
E. de Sá, expirou poucos dias depois do
ultimo combate , de gloriosas feridas que nel-
le recebeo.
Salvador Correa de Sd, nomeado Gover-
nador do Rio de Janeiro, estabeleceo aqui
muitas familias que M. de Sd tinha trans-
portado das Povoações entre Bahia e esta
Capitania, na Armada de C. de Barros,
e o Governador Geral deo principio á fun-
dação da Cidade de S. Sebastião , no lugár
onde hoje eiíii o bairro da Misericórdia.
Os Francezes, pertinases no projecto de
se fixarem na x\merica Portugueza , apa-
1569 receião ainda na bahia do Rio de Janeiro,
com quatro navios de guerra, mas o Gover-
nador, ajudado por Martim Affonço, In-
dígena convertido, os batèo, e obrigou á
fuga.
O Brasil começava a prosperár : os Jesuí-
tas viço melhor que ninguém as vantagens
que elle ofíerecia, e não se poupando a in-
ventos e fadigas, conseguirão ganhár a a re-
feição de muitas Tribus Guaranys. Por sua
insinuação , 69 Religiosos se embarcarão em
Lisboa para as possessões da America ; o mais
considerável armamento que Portugal en-
viasse a suas conquistas, se preparou com
grande actividade. Os novos Missionários vi-
nh^o em difíerentes navios da Froia reunir-
65
se aos de Piratininga; mas j arques Sorê^
façanliozo Corsário Normando, tinha jura-
do, por huma falál represália, exterminár
todos os Catholicos quecahisscm em seu poder :
sò hum Jesuita chegou ao deslino.
O fim doeste período he assignalado por
dois importantes factos : o celebre Manuel dâ
Nóbrega morreo com 53 annos de idade 5
e Mendo de Sd nao tardou em seguil-o ao 1571
túmulo. Estes dois homens sSo Credores dos
elogios da Historia, não sò por seu talento
administrativo, e incançavel zelo pelo aug-
mento do Brasil, como pela actividade e
magno valor que desenvolverão na guerra
contra os Franeezes, e Indígenas; he sobre
tudo para notar, que o homem da Igreja fosse
o mais interessado nas conquistas.
Pela morte dUl Rey D. João III , o Brasil , ^553
como todas as Colónias P01 ttiguezas, tinha
perdido hum protector douto e zelozo. JNa
9
66
minor idade d*Ei Piey D. Sebastião, as re-
messas que se enviarão regularmente a Ame-
rica, cessarão j e foi entro feliz que a tran-
sacta administração tivesse dado assaz de vi-
gor á Colónia > para poder prescindir por
algum tempo dos soccorros da Metropoli.
Depois da morte de M. de Sâ , a Corte
de Lisboa achou que suas vastas possessões
da America não devia o ser confiadas á di-
1572 recçâo de hum só Governador, e enviou ao
Brasil dois Capitães Generaes independentes:
Antonio Saí. ma , no Rio de Janeiro, foi en-
carregado das Capitanias do Sul, e sua ju-
risdiccf o se comprehendia entre os rios Bel-
monte, e da Prata-, Luiz de Brito . que resi-
dia em S. Salvador, governava as Capitanias
do iNorte.
Aqui se deve fixar a aniquilação das duas
maiores Nações Indígenas ainda existentes.
Salema desembaraçou completamente o paiz
6?
do seu Governo, elos Tamoyos e Tupinam-
bis, evitando assim, n:o só a destruição
da recente Cidade do Rio de Janeiro, como
qualquer invasão a que o> Francezes se ani-
massem confiados na aíliança d estas Tiibus,
O numero dos mortos e captivos, entre
as duas Nações Cabocolas subio a 0,000. Foi
então que os TupinamLas se decidi 1 âo a aban-
donarem a cosia, e intrincheii arem-se nos
dezerlos. Hum velho chamado Japyassú ,
respeitado de seus patricios, vendo-os desa-
nimar na execução deste projecto, lhes
diregio hum eloquente discurso, e os fez
persistir na emigração , que foi quasi
total.
Em quanto estes Europeos se emprega
emdevastár as Tribus residentes nas margens
do Oceano, outros, não menos emprendedoi es,
se confiarão das que habilavão o interior,
As descobertas das minas nas Colónias
Hespanholas 3 produsirâo nos Portuguezes
68
hum ardente desejo de procurarem melaes
preciosos no Brasil ; e, sem terem indicio
algum du lugár d'estes thesouros, mostrarão
mais constância e atrevimento do que os
exploradores do Peru,
Sebastião Fernandes Toyrinho^ habitante
4573 de Porto Seguro, subio o rio Doce, reco-
nheceo parte do território , hoje de Minas
GeraeSj, e atravessou até ao Jiquitinhonha ,
pelo qual voltou á beira mar, trasendo bri-
lhantes resultados de sua incursão, e asse-
gurando a existência de ricas e copiosas mi-
nas nraquelias paragens. Muitos outros se-
guirão o seu exemplo, com mais ou menos
fortuna, porém nenhum estabelecimento se
formou ainda no interior.
Salema empregou o tempo do seu Governo
em proteger a agricultura, que muito pro-
gredio.
69
O Brasil volta ao regimen cie hum só Governador. — Po-
voação da Parahyba.
A medida de dividir o Brasil em dois
Governos , pareceo imprudente a May-Patria ,
e a inteira administração do Estado foi
confiada a Diogo Lourenço da Veiga-, o qual \
começou a seu Governo por mandar João
Tavares , com algumas famílias estabelecer-
se na Capitania de Parahyba, ou Itamaracá,
abandonada pela fraquesa de seu primeiro
Donatário. Tavares , depois de reiteradas
indagações, fundou hum pequeno Presidio
na I!ha da Cambôa, que depois foi mu-
dado por seu successor Fructuozo Barboza,
para o lugár de Cabedèllo.
Eis-nos chegados á maior crise politica
de Portugal e suas Colónias. EL Rey D. Se-
bastião passa á Africa, e perde coma vida \
7o
na batalha de Alcácer, a coroa, riquesas
e gloria da Nação.
9 O Cardeal D. Henrique sobe ao throno
e morre 16 mezes depois.
t
TERCEIRA ÉPOCA.
€> Ôraeil no írominia íjespanljal,
Portugal , que no espaço de dois se'culos
vio Lrotár de seu seio hum sem numero de
heroesj este circunscripto paiz, espanto da
Europa, e terror dos Povos transatlânticos,
vai finalmente succumbír ás baixas, mas
poderosas manobras da intriga ; as espadas
dos Alexandres Portuguezes baqueao perante
a cabala de hum punhado de invejosos es-
trangeiros secundados por indigno» Lusita-
72
tios } e o Reino cahe do cúmulo da gloria
mais esplendida, na tutela do Governo Hes-
panhol.
0 Brasil., ligado á sorte de Metropoli ,
1580 ficou igualmente submettido , mas soube
depois pixnár que, sem o socorro da Europa,
se podia defender , e mesmo prosperár.
Sebastião Barreto^ então Governador Ge-
ral, aproveitando a negligencia de Filippe II.,
conservGu a paz com os Inglezes , cujo com-
mercio, ainda que pouco considerável, lhe
hera utiL
Nestes tempos^ alguns Fra ncezes auxiliados
Í583 Pe^os Pitagoares, atacarão a Capitania da
Paralryha •, mas o Governador Geral lhes en-
viou Diogo Valdez^ que os fez abandonar a
empresa.
«
73
Minas <le Prata. — Povoação âe Seregype. — Os Iugloze»
acomaietlem o Brasil. — Povoação do Rio Grande do
Rorte. — Incursões no inleiior. — Povoação do Ceará.
Por esta epoea , Robcrio Dias , descendente,
do célebre D. A Ivcs Correa , que possuía
prodigiosa quantidade de prata, resultado
de suas viagens ao interior, se transportou 1585
á Corte de Filippe, onde se comprometteo
a mostiár a fonte dYstas riquesas, assegu-
rando ser cila mais abundante neste metal,
do que a Biscaya em ferro *, poiém , sendo-lke
negado o titulo de Marquez, que em recom-
pensa requeria, ainda hoje se desconhece
este thesouro, bem que em muitas partes
do Brasil se tenhao encontrado pequenas
minas de prata.
A primeira providencia que a Corte dHes-
páhha deo a respeito do Brasil, foi huma
ordem á CÍiristôvão de Èárros^ para hir
rèpellir os Indígenas que infesta vão as Po- 1590
10
-A
voações de ítapicurú e Rio Real, e fazei*
transportár para ali algumas famílias da
Bahia, onde hera Governador Interino \ dando
assim começo á cultura d*áquellas terras,
até então entregues aos Cabocolos, e aos Pi-
ratas Francezes que abordavão em busca de
páo brasil. Os habitantes principiarão a Villa
de S. Christovão, perto da foz do rio Cotin-
diba*
Aqui devemos fallár das empresas de al-»
guns aventureiros Inglezes contra o Brasil*
Thomas Cavendish, sahio de Inglaterra,
com pretexto de visitar o estreito de Maga-
lhães ; mas chegando ás aguas da Capitania de
1591 S. Vicente, com huma expedição em 5 em-
barcações bem equipadas, destacou o Imme-
diato , Carlos Cooke , commandando o melhor
de sua gente, a atacar a Villa de Santos.
Este desembarca , e surprende muitos habi-
tantes dentro do Templo , ali reunidos para
75
o Officio Divino ; cerca a Igreja , e propóe-
Ihes comprarem a liberdade*, porem logo, en-
tregando-se e os seus á intemperança , os
Portuguezes, aproveitando as trevas e o somno
dos Piratas., fogem para o interior com todas
as riquesas. Quando Cavendish subio o rio ,
não encontrou mesmo provisões para a sua
Frota; e, lançando o fugo á Povoação de S.
"\icente, deo a vela para o cabo dHorne.
Hum violento temporal o forçou a retro-
gradár separado do resto da Enquadra. De
novo perto de Santos, desembarcou 25 ho-
mens na Praia da Barra ; e cTestes só dois
escapar." o á morte, e forão condusidos , com
as cabeças de seus companheiros, em trium*
pho até á Villa,
Desanimado o Commandante Inglez com
a corajosa defensa dos Paulistas, seguio para
o Espirito Santo. O Governador d esta Capi-
tania tinha-se prevenido, e quando Roberto
Morgan abordou com duas grandes chalupas
7&
Jbem tripoladas , e guarnecidas ? lhe fe
hum fogo Ião activo e bem diregido , cjue
raros voltarão á Frota f ficando as praias
juncadas de mortos^ e a cadeia cheia de
prisioneiros*,
Cavendi&h se dicidio finalmente a buscár
a Europa, e morreo na viagem, devorado
por hum raivoso desespero..
Tão desastroso resultado n^o foi bastante
para impedir que os Inglezes tentassem noi-
vas hostilidades contra o Brasil.
II u ma companhia de Londres armou se-*
gunda expcdielo, e o Cavalheiro Jayme dê
Lanças! cr ^ sem embargo de mui lo devedor
á hospitalidade portugueza, I ornou o com-
inando da Fiola s composta de trez navios ^
e se direpio sobre Pernambuco. Passando
pela Ilha de Maio, reunio as suas forças ás
de Jouo Vcnmr , e veio surgir defronte
77
da Cidade de Olinda. O Governador "Portn- 1593
guez fortificou-se no Recife *, mas Lancaster
em pessoa á testa da flor de sua equipagem,
assalta e toma o Furte \ os defen>ores
abandonâo o terreno , e o Pirata sa-
queia a Cidade, e carrega as suas embarca-
ções de ricos despojos. Todavia, os habi-
tantes voltando as praias, inquietão o ini-
migo com hum continuado tiroteiro , t< .1-
ílo em v~o queimar a Esquadra, e querem
obsiár á sabida de Lancusttr , por meio de
hum a bateria bem colocada; este manda o
Segundo Commandanle, João Borker, atacai-
a, o 'qual perece e alguns Francezes que se ILe
tinhfo associado j entretanto, a Es pildra lo-e
do alcance da artilbtria., e vai ancuiár eux
Fiiidmuth.
A morte de Filippo II livrou a íl spa-
nha de hum Sob* rano f 10 e oneioso, privou
a Inquisição do seu mais sanguinat '■<> ;.r -
tctcOi , mas nada influiu sobre
78
Portuguezas. Filippe III, filho de.*te Mo-
1598 narcha , herdou o Reino de Portugal e seus
Domínios,
D* Francisco de Souza , então Governador
Geral, informado de que os Pítagoares conti-
nuavão a destruir as plantações visinhas do Pa-
rahyba, deod'isto conta â Corte*, e, com pré-
via authorisaclo, fez armar em Pernambuco
huma Frota, diregio-se á foz do rio Grande,
e construio ali hum Forte, nomeando-lhe
para Commandante , Jerónimo d' A Ibuquerque
Coelho j o qual teve que sustentár muitos e
frequentes ataques dos Selvagens., até que,
conciliando-se com Sorobabè } Chefe na prin-
cipal Tribu, pôde lançar os primeiros fun«*
1599 Jumentos da Cidade do Natál.
D. Pedro Botelho, que lhe succedera n©
Governo, não achando na Còrte de Madrid,
sempre solícita em definhár as possessões de
tão temiveis, posto que submettidos visinhos,
79
* apoio requerido por seus projectos de novas
conquistas sobre os Indígenas, limitou-se a 1603
animár a exploração dos sertões.
Gabriel Soares , com companheiros , vi-
sita todo o terreno banhado pelo rio S. Fran-
cisco, vai até ás fronteiras do Perú, e volta
no fim de tão árdua tarefa, sem a menor van-
tagem.
Pedro Coelho de Souza , não foi mais feliz
em huma primeira digressão pelo rio Para-
hyba e seus tributários*, porém, obtendo do
Governador Geral, auxilio a nova expedição,
partio com 8o homens, diregindo-se á serra
de Ibiapaba. Algums Tapuyas aqui refugia-
dos, e condusidos pelo Francez Adolfo Bom-
bille , lhe disputarão o accessoj mas elle os
cerca , e escravisa todos os Selvagens apanha-
dos com as armas na mão. 0 produto d'esta
viagem não correspondeo aos seus muitos
gastos e fadigas.
8&
Tcrcfira irrupção dos Ay mores veio
ainda inquietár os habitantes da costa entre
Bahia e Rio de Janeiro*, mas o Governa-
dor Geral os obrigou a deste i rarem-se para
os matos virgens; e o Jesuíta Do min § os Ro-
drigues os fez depois reunir em pequenas Al-
dêas.
Huma perfídia, porem, Foi exercida para
com os Pítagoares. Depois d'estes terem con-
corrido píira livrár os Portuguezes dos in-
sultos das Hordas bravias dos A) mores, tivè-
jão em recompensa serem redusidos á escra-
1604 \i l^o por seus alliados. Filippe II í provi-
denciou contra esta barbaridade ; mas os
Colonos, confiados na distancia, e na fra-
quesa de hum poder que odiavâo, pouco mi-
iiòrar3o os málc* dòs míseros Pitagoares.
D. Dwgo de Menezes , que súccedee a
1608 D. Vidro Botelho, quiz explorár as margens
do Amasonas; porém, nao conseguindo soe-
»i
corro d'He5panha , limitou-se a mandar al-
gumas famílias estabelecerem hum pequeno 1609
Presidio na embocadura do rio Ceará , por
lhe parecer este lugar fértil e sadio. O pro-
gresso da Povoação foi em extremo moroso,
não só pelo desalento em que então se
achava todo o Estado, como pela escassez
de portos n esta parte da costa. Martini Soa*
rês Moreno, foi o seu primeiro Governador. \Q\Q
Nova expedição franceza. — Povoação do Maranhão e do
Pa rã.
Em 1 D94, o Francez Jacques Rifault, havia
aportado no Maranhão, começado huma pe-
quena Colónia, e voltado á Europa, dei-
xando Carlos de Vaux, em seu lugár; pe-
quenos reforços tinhão depois vindo animar
a ténue Povoação \ até que o abondono em
que se conservava esta preciosa parte do ter-
ritório brasileiro, indusio os Francezes a
1 1
82
fundarem ali hum permanente estabeleci-
mento o
Auguste de la Ravardière , depois de se
ter assegurado de favorável acolhimento
da parte dos Tupinambás , par tio de França ,
com Emilio Rasilly^e Carlos de Harley, á testa
1612 de huma forte expedição, e veio occupár
aquella ilha, tão utii pela fertilidade do
solo , como por sua posição 3 naturalmente
defendida.
O Governador de Pernambuco , Gaspar de
Souza 5 sabendo do ingresso dos Francezes,
mandou Jerónimo de Albuquerque Coelho , cóm
ordem de os repellír \ porém os poucos meios
que foi possivel dar-lhe para atacar a forta-
leza inimiga, poderão apenas, por serem
empregados com coragem e habilidade , ob-
ter huma capitulação pouco vantajosa, e que
os instrusos principiavão a violar, quando
Alexandre de Moura, enviado com grande
83
reforço , sugeitou os Francezes a evacuarem
o Presidio, e regressarem á Europa, na mes-
ma Esquadra de La Ravardière. 1615
A Albuquerque Coelho , nomeado Capitão
Mor do Maranhão, se devem grandos ser-
viços tendentes ao engrandecimento d'esta
Povoação, que foi augmentada com 240 ca-
zaes de Açoritas, e progredio tão repentina-
mente , que 1 1 annos depois foi separada
do resto do Brasil , com o titulo de
Estado do Maranhão, e administrada por
Francisco Coelho de Carvalho , com responsa-
bilidade á Corte.
Depois de restaurada aquella ilha, Albu-
querque Coelho , desejando formar hum esta-
belecimento perto da foz do Amasonas, fez
partir o intrépido Francisco Caldeira , com-
mandando 200 homens, na pesquisa de aza-
da posição, o qual achando-a na margem
oriental do Tocantins, sobre abaliiade Gisa-
84
jará , deo logo principio á Cidade de Belém ?
1616 por bum Forte de madeira, d\>nde muitas
vezes foi obrigado a repellír os Tupinamba-
ranás e Maues , que por largo tempo fizerâo
huma guerra crua e destructiva aos Portu-
guezes, e a quem só podião resistir a cons-
tância e valor de Caldeira,
Alguns navios holandezes transportarão
huma pequena expedição , que veio abordar
ao Sul do Amasonas-, mas os Colonos a ex-
pellirão , apoderando-se de toda a artilheria
da Frota.
Factos mais interessantes agora reclamão
1621 attençao; Filippe IV sobe ao throno dHes-
panha \ e o Brasil vai ser desolado por huma
guerra mais longa e ruinosa do que todas as
que ate então tinha sustentado,
85
O» Hofandezcs atacâo o Brasil. — ConJucta dos Colonos
para com os Indígenas.
A Holanda, herdeira da gloria Portugue-
za, estendia o seu domínio pelas costas da
Asia , quando intentou estabelecer-se no
Novo Mundo. O projecto da conquista do
Brasil, proposto ao Conselho Geral, encon-
trou alguns detractores, a quem parecia im-
prudente vir arriscar em novas e Lmgiquas
terras, os homens e o cabedal que a Republica
podia empregar nas suas Colónias*, todavia,
a tregoa concedida á Hespanha hia expirar,
e a fraquesa deste Estado promettendo a fa-
cilidade da empresa, concedeo-se a huma
companhia, denominada, das índias Occiden- >j
taes, armár huma Esquadra de 6o velas
contra o Brasil.
Tres oíílciaes hábeis diregião a expedição;
Jacob Fillekem, e Pedro Haynes comman-
86
davao a primeira Divisão-, Ilans Vandort
condusia a segunda , e as Tropas de terra.
Os tempos contrários separarão as duas Fro-
tas ; porem bastou que a de Vilíekens apa-
recesse na bahia de Todos os Santos, para
i 624 que lU(lo se lhe rendesse.
Tal hera o apuro a que a Corte d'Hespa-
nha tinha levado a Colónia , que o Governa-
dor Geral Diogo de Mendonca , não tinha
mais de 8o homens de Tropa regulár para a
defensa da Capitál. Os Milicianos, que elle
juntou precipitadamente 5 o abandonarão
logo que o inimigo abordou. A resistência
se tornou então inútil. O Governador, po-
rem, homem corajoso e firme, entrinchei-
rando-se em seu palácio 3 não consentio em
depor as armas , sem a condição de que se
lhe conservaria a liberdade *, bem que, con-
tra o direito , e todas as leis da honra, fosse
condusido como prisioneiro para bordo do
Navio Almirante,
8j
Vandort, chegou a S. Salvador quando a
Cidade estava já em poder dos Holandezes,
e tomou o cominando das Tropas. Willekens
voltou á Europa ; e Haynes, foi levár a guerra
á Capitania do Espirito Santo.
Os habitantes da Bahia, obrigados no pri-
meiro impulso a ganharem o interior do paiz,
resolvem expulsar os invasores, escolhendo
para seu Chefe o Bispo D. Marcos Teixeira ;
este os anima eom discursos cheios de fogo e
eloquência, e cahe denodadamente sobre o
inimigo , fazendo tervivel matança. O Ge-
neral Vandort perde a vida n'este conflicto,
e o temor se apodera dos seus. 0 nobre
Prelado succumbe gloriosamente ás fadigas;
mas Francisco Nunes Marinho, seu digno suc-
cessor, conservava os Holandezes em contínua
ameaça, quando Z). Fradique de Toledo,
commandando huma considerável força com-
posta de voluntários Portuguezes, surge de-
fronte da Cidade de S. Salvador. 0 inimigo
88
defende-se com esforço e habilidade ; mas no
fim de 3o dias he constrangido a capitulár;
e jurando não mais tomár armas contra a
Hespanha e seus Dominios , evacua o terri-
1625 tório.
De balde o Almirante Balduíno Henrik vem
com grande reforço soceorrer seus compatrio-
tas ; o Chefe Hespanhol o obriga a regressár ,
e elle, procurando os mares do Norte, lie vic-
tima de hum contágio declarado a bordo , e
mortal para a maior parte da guarnição.
Toledo , tendo restituído a paz aos habi-
tantes da Bahia, voltava a Cadix , quando
huina furiosa tempestade destruio a Esqua-
dra : sò 3 pequenos navios chegarão ás costa*
da Hespanha.
O Almirante Haynes , batido na Capitania
do Espirito Santo, hia no rumo da Holanda,
quando tomou os galiões que do México leva-
/
89
vão annualmentc á Metrópoli o producto da
Colónia : captura a mais rica que se tenha
feito sobre os mares.
A sorte dos Indígenas, tão temíveis na
guerra quanto inúteis na paz , empeiorava
cada dia \ os Colonos tinhão adoptado como
meio de represália contra os ataques frequen-
tes dVstes Povos, escravisarem quantos ca-
hiao em seu poder ) as riquesas dos proprie-
tários heião avaliadas pelo numero dVstes
desgraçados , bem vezes tratados com injus-
tiça e crueldade por seus possuidores. Na po-
voação do Pará , particularmente, se exer-
ciâo barbaridades, desde o começo do esta-
belecimento de Francisco Caldeira , contra
os Tupinambás, que não cessav.lo de accom-
meter as primeiras habitações. A ííespanha
interveio a favor dos Selvagens, com algumas
leis philantlirópicas obtidas pelo Jesuíta
Antonio Vieira, que para este eíTeito se trans-
portou a Madrid ; e hum Breve do Santo Pa-
/
9o
dre excomniungava todo o que eaptivasse
qualquer Americano *, mas nos vamos referir
hum facto posterior a estas providencias, e
que prova quão pouco ellas influirão.
Bento Maciel, Capitão igualmente bravo
e tiranno, tinha governado desde 1621
até 24, a Colónia do Gram Pará, sempre
guerreando com vantagem contra os Tu-
pinambãs, a quem hia procurar no meio
dos bosques. Manuel de Souza d' Eça , que
lhe succedeo no Governo , foi atacado por if\
Tribus reunidas doesta Nação *, e no momento
em que hia suecumbir com todos os habi-
tantes , Maciel offerece-se para bater o ini-
migo, e acabar por huma vez com este flagelo;
e á testa de hum numero considerável de
Tapuyas, implacáveis rivaes d'aquelles Sel-
vagens, obriga os atacantes a recuar até aos
matos, e aií lhes faz hum cerco tão bem
diregido, que os ^4 Chefes são aprisionados.
Elie os entrega á barbaridade dos Tapuyas^
9l
que os dilacerão e devorão em huma hora ,
e volta a Beiem com mais de 3oo Indígenas 1627
escravos.
Segunda invasão , e estabelecimento dos Holandezes.
Chegamos a hum dos períodos que mais
interesse inspirão na Historia do Brasil.
Hum Povo pequeno e sem recursos , mas
cheio do mais nobre patriotismo, vai com-
bater a prol de sua independência, contra
ávidos agressores, com tão assignalada va-
lentia, que as mesmas Tribus por elle op-
primidas não hesitão em calar antiga
inimisade , e concorrerem para fazer trium-
phár a mas illustre das causas.
Se os Brasileiros, descendentes d'estes he-
roes, se virem ainda submergidos em alguma
de semelhantes crises, que exigem, além de
hum decidido valor, a mais firme perseve»-
92
rança, attcntem n'esta época da sua Historia :
n'ella acbaráõ feitos tão gloriosos como os
mais gloriosos da antiguidade', aqui vcráõ a
victoria reunir todas as raças que compõem
a Nação, para as coroar com o mesmo louro.
Os ílolandezes, longe de desanimarem com
a derrota que tinhao experimentado na
Bailia, tentarão hum maior ataque sobre a
opulenta Capitania de Pernambuco, na es-
perança de assim recuperarem as perdas da
guerra precedente.
Apezár das precauções tomadas peia Com-
panhia das índias Occidentaes, para que se
ignorasse o verdadeiro alvo da expedição , a
Hespanha foi d'elle instruída pela activa vigi-
lância do Governo dosPaizes-Baixos, e enviou
1629 Mathias d' Albuquerque^ ao soccorro do ponto
ameaçado; porém, as poucas forças postas
á sua disposição, não permettião bem agou-
rar do resultado \ com efeito , não obstante
93
seus esforços, mal a Armada holandeza ha-
via ancorado no porto, quando o General
Henrique Loncq occupava Olinda.
Os soldados mercenários , em quem o amor
da gloria está substituído pela esperança da
pilhagem, salisfasem raramente á politica
de seus amos \ os da Republica Holandeza
commetterão os mais odiosos excessos 3 e assim
atearão nos habitantes, curvados ao poder
do numero, o fogo da vingança, dc prompto
secundado pela mais abaiisada coragem.
M. a" Albuquerque , dando ao inimigo huma
primeira prova de seu caracter, lançou o
fogo aos armasens que continhão as riqncsas
de Olinda-, levou as chamas até á Esquadra,
que poderia servir ao vencedor, e foi reu-
ni r-sc com os seus lonsre da Cidade.
Tudo pois parecia submettido aos invasores;
94
no Forte de S. Jorge, porem , commandad©
por João Fernandes Vieira , tremolava ainda
a bandeira portugueza. Este moço impávido
e por ventura hum heroe d'aquelle século ,
á frente de 37 guerreiros animados com
seu nobre exemplo , defende o posto durante
6 dias inteiros , contra os esforços de 4°°Q
homens disciplinados e munidos de nume-
rosa artilheria ; mas finalmente , vendo-se
quasi sepultado com seus bravos nas ruinas
do pequeno baluarte , propõe capitula-
ção *, e se o inimigo o quer constranger
por ella a deixar o serviço da Patria, res-
ponde que vai deixaUo com a vida , e conti-
nua o fogo mais activo sobre os sitiantes, que
então admirados lhe dão inteira liberdade.
M, d' Albuquerque, animado com a pas-
mosa defensa de Vieira, volta as visinhanças
da Cidade, com hum punhado de habitantes
extenuados de miséria , retoma o Forte d®
95
Nazaré th , guarnece Porto Calvo , e entrin-*
cheira-se entre o Recife e Olinda , cTonde
inquieta o inimigo com repetidos ataques.
O Indígena Filippe Camarão, diregindo
hum corpo de seus patricios , impede a apro-
ximação dos Holandezes, por meio de conti-
nuadas escaramuças , em huma das quaes
aprisiona o General Loncq , e passa á espada
a sua forte guarda *, aquelle consegue evadir-
se por hum feliz occaso.
Todavia , o Chefe Portuguez vendo-se com
menos de 600 homens de Tropas regulares
carecidos das munições mais indispensáveis,
resolveo limitar-se á defensiva, e escrever
á Côrte, pintando hum exacto quadro da
extremidade a que se via redusido. Em res-
posta a esta reclamação, a Hespanha lhe en-
viou hum pequeno reíbrço , que foi cortado
no primeiro ataque.
96
Talvez que o Brssil fosse então por huma.
vez abandonado, se a Côrte de Madrid não
recebesse informação de que a Holanda man-
dava hiima Armada considerável contra o
Brasil , e que o Chefe , Adrião Palrid, tinha
ordem de hir depois em cata dos galiões
do México. O temor de ver segunda vez
passar ás mãos do inimigo, tão grandes
riquesas, obrigou o Conde de Olivares sl
mandar D. Antonio Oquendo , com algu-
mas Tropas disciplinadas , ás duas mais
1631 importantes Capitanias do Brasil. As es-
quadras se encontrarão em Pernambu-
co, *onde a victoria , disputada com igual
valor, pertenceo finalmente aos liespanhoes ;
e Patrid, preferindo a morte a render-se2
antes de se lançar nas ondas, envolvido na
bandeira nacional, pronunciou estas pala-
vras, que o immortalisarão : o Oceano he
o único túmulo digno de hum Almirante
Batavo.
97
Oqiiendo desembarcou a expedição, com
posta de 700 homens, Portuguezes, Ilespa-
nhoes, e Italianos, eommandados pelo Conde
de Bagnolci) desta última NaçXo.
O General Jorge de Vardnnburg , Chefe
dos Hoiandezes, julgando o reforço mais con-
siderável, entrega Olinda ás chamas, e ten-
ta em vão fazer-se forte no PonUl de N&za-
reth, ena Povoação tia Parahyba, onde perde
muita gente. No meio dYsles desares, o Par-
do Domingos Fernandez Ca (abar, deixando
os Portuguezes , pas.ca ao inimigo, e a victoria
com elle. Ao ardil deste transfnga deveo
Vardnnbur g a tomada da Ilha d"Itamarará,
onde 20 homens commandai !os por Pedro
de Albuquerque, defi ndem o Forte , e monem
todos gloriosamente', sí 11 digno Chefe, coberto j £32
de feridas, torna á vida em poder do ini-
migo, que pasma de tanta bravura.
Por este tempo, chegarão a Pernambuco
i3
98
633 mais 3,ooo Holandezes entregues ao Gene»
ral Lourenço Reimbach, revestido de am-
plos poderes. F ar de mb ur g pedio demissão ) e
se retirou ás Províncias Unidas. M. d' Albu-
querque, com menos de i,2Go homens de In-
fanteria , convida o inimigo a huma acçlo ,
esalie viciorioso. O General Reimback recebe
huma ferida mortal, e he substituído por
Sigismwido de Escup.
Com tudo, os Portuguezes não tinhao ga«
nhado tão desigual batalha, sem grande des-
falcamento, e Sigismundo, aproveitando as
circunstancias, foi, ajudado pelo traidor
Calabar, occupár a Cidade do Natal , da
qual fez o theatro da mais horrorosa carni-
ceria j e d'aqui passou ao Pontal de Naza-
reth, cujos defensores lhe não terião cedido,
a não ser Calabar , que por hum admirável
estratagema, fez servir a Marinha holandeza
á tomada da V illa, desmastreando a Esquadra,
e fazendo-a passar por hum canal lãô estreito
99
e baixo, que até então as mais ligeiras bar-
cas não tinhão ousado ahí aventurar-se.
Pouco tempo depois, Porto Calvo resistio
em vão ao assedio de 5o,ooo bomens reu-
nidos.
O pavilhão invasor estava pois arvorado \
em Pernambuco, Puo Grande do Norte, e
Parahyba *, tudo annunciava que em breve o
inimigo hia diclár a lei aos poucos Por tu-
guezes que resta vão.
M. d' Albuquerque , tendo esgotado todos
os recursos que lhe offerecia seu valor , e ta-
lentos militares, nada mais lhe ficava do que
fugir á tirannica oppressâo dos vencedores.
J. Fernandes Vieira^ que sempre combatera
a seu lado , proclama aos Colonos, e estes se
unem a seus Chefes, tomando a nobre reso-
lução de com elles emigrarem para o interior
de Pernambuco.
100
Velhos, mulheres, e crianças, todos aban-
douTo o ninho pátrio, e vã;) penetrar p< ios
sei tõ< s , a travez tle mil calam idades. Nos
desertos do Brasil resoarão ent o os clamores
dos Europeos perseguidos por Europeos, e se
alguns Selvagens, sahindo do seio dos bos-
ques, vierãp comtemplâr esta scena de deso-
lação, acharão talvez que o Cco os vingava
com demasiada crueldade.
Estes desgriçados passavão perto do Porto
Calvo, quando Sebastião de Souto, que es-
tava em poder dos Holandezes, se offereceo
para reconhecer os fngithosj e voltando á
Villa, assegurou que M. d' 'A lnufjiKrque náo
tinha mais de 200 homens, que todos Lião
carregados de avultadas riqutsas, faci is de
tomar com pequena força. Sigismundo faz
immedia lamente partir 3oo soldados com
ordem de seguirem m passos de Souto', mas
este, ehrgando á frente dos Portuguezes 9
passa para elles, e se arremessa de súbito
lOt
sobre os Holandezes, que surprcndidos fogpm
precipitadamente, M. d' Albuquerque os se-
gue com igual velocidade, hindo entrar de
envolta com o inimigo dentro da Praça, cuja
guarnição cede a este ataque inesperado», e
abandona a Villa. Ca abar íicou orisiosnito,
e pagou com a vida, n'este mesmo lugáronde 1635
nascera, a sua infame traição.
As cousas se aehavTo assim, quando chr-
gou hum pequeno reforço qtie a líe -punha
mandava a Pe rnambuco ; porém Aí. d' Alba»
querqve foi então rendido por bum Geunai
Hespanho! > e o heróico defensor do Brasil
voltou á Europa., onde seus ber\iço:> íicarâo
sem a menor reeompensa.
D. Luiz de Roxa y Borela , quiz seguir
hum syslema de guerra em tudo opposto ao
do seu anti cesso r, e perreeo no [rt bueiro
combate 3 em que todo o Exeieito tjn i.i igual-
mente succuuJjido bc Fil.ppe CamaruO , e
102
Francisco Rebelo, não tivessem, por meie
de acertadas manobras , sabido proteger hu-
ma perigosa retirada.
Pela morte de B orgia , o cominando re-
cahio no Conde de Bagnolo,
Os Holandezes, mais activos do que nunca,
repetia o sem cessár novos ataques sobre Porto
Calvo; por outra parte, F. Camarão, e o
Preto Henrique Dias, fazião babeis e conti-
nuas sortidas, ás quaes o inimigo não podia
reagir sem empregar muita gente. N'estas
637 circunstancias, apareeeo hum numeroso troço
de Tropas holandezas, que vinhão debaixo do
com mando do Principe Mauricio de Nassau,
Primo do Stadhouder, concluir a conquista.
O novo General começou por juntar todas
as forças disponiveis , e assaltar o único re-
fugio dos Portuguezes. Os defensores resistia o
com hum denodo admirável j muitas mulhe-
io3
res tomarão as armas para repellirem os
encarniçados invasores ; H. Dias mostrou
que o heroísmo pertence a todas as raças;
porem foi força ceder ao número , e evacuar
a Villa.
Segunda vez vão trilhar ásperos sertões
os malfadados Colonos de Pernambuco , bus-
cando agora asilo na Capitania da Bahia.
As particularidades d "esta viagem, for-
mão hum dos mais dolorosos quadros que
possão offerecer os annaes das Nações. Qua-
tro centas pessoas expirarão nos desertos ,
victimas da crueldade dos Pitagoares, ou
atormentados pelos horrores da fome, antes
que os emigrados chegassem a S. Salvador.
O Governador Geral Pedro da Silca^ não
recebeo sem repugnância as Tropas comman-
dadas por Bagnolo \ mas cedo conheceo que
i©4
es*e soeorro inesperado o subtrahia a elíe
mesmo a igual sorte,
O Príncipe Mauricio , animado prla Vic-
toria, embarca 7,800 soldados em 4° navios,
e vai atacar S. Salvador, em quanto oulra
Divisão assalta a Povoação de Seregype, e a
incendia depois de horroroso saque*
Logo que a Armada inimiga apareceo na
Bahia, o Governador, apezár de viva oppo-
siçâo, d< o o commaudo < m chefe das Tro-
pas ao Conde cie Bagnoli), o qual desenvol-
vendoentão, pela primeira vez^ todo o valor e
Í637 actividade de que hera capaz, salvou a Ca-
pital de huma invasão que p reeia inevitável,
pondo Mauricio na necessidade de regressar
ao Recife com perda de grande parte do
seu Exercito.
Depois deste destroço, o Chefe Holandês
io5
voltou suas vistas para o progresso interno
da Colónia, e principiou a gosár tranquillo
da nova conquista. Hum sábio regulamento
tendente a reprimir a indisciplina da Tropa
e a intolerância religiosa foi posto em exe-
cução j a administração de finanças recebeo
salutares melhoramentos, e opaiz voltou em
breve espaço á antiga prosperidade.
Viagem pelo Amasonas. — O Brasil hé governado por
Yicereys.
A vastidão do Estado do Brasil, e a difi-
culdade de communicações , conservavão
como ilhados os differentes estabelecimentos.
Em quanto nas Capitanias situadas a meia
costa, se passavão os factos que acabamos de
narrar, Rio de Janeiro e S. Vicente jasião
cm perfeita bonança, e os habitantes do
Norte seoceupavão em guerrear contra huma
multidão de Tribus indigenas, que invadião
as novas Povoações.
«4
io6
O temor de cahír nas mãos «Testas Hor-
das bárbaras, tinha prohibido a Jdcome
Ray mundo de Noronha , que havia usurpado
o Governo do Pará , de reconhecer o mages-
toso rio Âmasonas, até que finalmente hum
occaso o animou á empresa.
Dois Jesuitas Hespanhões, Domingos de
Brieba^ e André de Toledo , se tinhâo in-
trodusido entre os Selvagens do Perú , no
intuito de os converterem á fé catholica;
mas, perseguidos por alguns Chefes escan-
dalisados dos Christãos , ti verão , para esca-
par á morte , que se embarcarem em huma
piroga , e abandonando-se á corrente de
bum rio desconhecido , aparecerão , no
fim de longa e calamitosa viagem, perto da
Cidade de Belém, pela foz do Amasonas.
Exultante e Governador Noronha com a
narração dos Missionários, e desejoso de
dár principio á empresa que gisava desde
107
tanto tempo , propôs a Pedro Teixeira, co-
nhecido por valente, e instruido no idioma
e costumes dos CaLocolos, o commando da
arriscada expedição: o que sendo acceito por
este, de acordo com Bento Rodrigues de Oli-
veira, partio immediatamente huma Frota
de /}5 canoas guarnecidas por 70 soldados,
e 1,200 Indígenas, levando por guias os dois \fâf
Religiosos Castelhanos,
Logo que os navegantes entrarão na em*
bocadura do Amasonas, tiverão que lutár
com as impetuosas correntes, qnc os lança-
va©^ já ao Sul, já ao Norte, com tal violên-
cia, que muitos remadores desanimarão, e
alguns Indigenas, no fim de to dias de
viagem, se revolucionarão , e regressarão a
Belém, em 4 canoas. Teixeira mandou então
que a Frota se repartisse em duas Divisões,
e confiou a da vanguarda ao hábil Rodri-
gues de Oliveira , com ordem de aportar onde
conveniente fosse. Assim navegou a expe-
io8
dição per longo tempo, até que chegando
ao lugar onde o rio Paganino se lança no
Amasonas, fizerão alto junto ás ruínas de hum
pequeno Forte 9 ali construído pelos Hespa-
nhoes para conservár em respeito a Tribu
dos Quixos. Rodrigues de Olhara mandou
d'isto parte ao Commandante, e este deo
pressa em se lhe reunir. Como o rio deixasse
aqui de ser navegável*, seguirão por terra na
mesma ordem , atravessarão as férteis cam-
pinas habitadas pelos indígenas que Teixeira
chamou índios Cabelludos , passarão por
Baeza, antiga Praça hespanhola , centrarão
em Quito, depois de hum árduo trajecto de
mais de 700 legoas. A noticia dos impávi-
dos viajantes pareceo fabulosa no Perú, até
que os correios de Baeza a confirmarão. O
Vicerey, o Corpo Municipal, e todas as per-
sonagens da Cidade, na maior surpresa %
alvoroço vi era o felicitar os ousados Portu-
guezes por tão importante descoberta ; e o
Corregedor D. João Fellasques de Âcuha^
io9
©ffereceo desde logo a sua pessoa e bens a
favor de huma grande expedição para acom-
panhár Teixeira na descida do rio.
Pela actividade do Vicerey, em pouco
tempo se achou a grande Frota prompta
a partir.
Para evitar a marcha por terra, Teixeira
começou a viagem entrando por huma das
origens do Napo, veio por este sahír ao
Amasonas*, examinou 38 dos mais considerá-
veis tributários d'este rio, e 24 grandes Na-
ções cabocolas ate então ignoradas, que ha-
bitavão as suas margens; chegando á Tribu
dos Cabelludos, tomou solemne posse d ;s
Campos dos Açores para a Corôa de Por-
tugal, em nome de FilippelVj e, depois
de ter por cinco vezes combatido com os Sel-
vagens , em duas das quaes teve que aban-
donár todas as embarcações, chegou a Be- 1639
leni com 1 1 mezes de viagem.
He fácil imaginár o gáudio que causou a®
Governador Noronha, o bom resultado da
empresa; pelo qual foi perdoado da usurpação.
Se então a Hespanha tivesse prestado o
devido auxilio á navegação do grande rio,
se gosariao hoje as gigantescas vantagens
de tao util achada; porém a negligencia,
mais do que a politica, fez com que as
margens do abondante Amasonas se con-
servem ainda hoje desertas. As mesmas Na-
ções bárbaras que aqui babitavão desapa-
recerão, e não tem sido possivel saber o seu
destino. Talvez, mais prudentes que outros
Selvagens , se retirarão ás impenetráveis
brenhas do Norte \ mas , cedo deixarão de
haver estes asilos *, e o vasto território ama-
sonico, descortinando-se aos olhos de intré-
pidos viajar? tes , mostrará as deploráveis
Tribus escapadas ao furor da civilisação \ aqui
se encontrarão os Topinambás repellidos do
Sul, e os Qmagoás , que se teráõ pouco a
1 1 1
fastado de sua antiga Patria : mais longe, os
Tapuyas, victimas de todos os conquistado-
res, e outros de quem se ignora até os no-
mes*, oxalá que os respeitáveis restos d'estas
poderosas Nações sejão conservados , e que
possamos oíFerecer aos séculos vindouros a
prova de que a America descoberta em nossos
dias não foi manchada por atrocidades , só
desculpáveis á superstição e ignorância.
Por esta época, o derradeiro Filippe con-
decorou o Governador do Estado do Brasil ,
que então hera o Marquez de Montalvão ,
com o titulo de Vicerey, que passou aos 1640
seus successores.
QUARTA ÉPOGA.
© ôrasil livvt iro jitga ir^rspanlja.
A tirannia dos Filippes tinha abatido o
ânimo lusitano, sem conseguir degradal-o ;
o ódio aos Hespanhoes, e o amor da inde-
pendência , não deixarão hum momento os
peitos portuguezes, durante 6o annos que
sua illustre Patria jaseo oppressa pelos in*»
i5
"4
justos ferros estrangeiros. Quarenta Nobres
finalmente, aíFrontando as colossaes foiças
inimigas, escudados pelo valor e patriotismo
nacional, sol ião o primeiro grito de 'liber-
dade; Lisboa inteira repele: Liberdade; c,
como por bum eífeito eléctrico , em poucas
horas, o Duque de Bragança oecopao throno ,
com o nome de D. João l\ ', e Portugal torna
1640 a ser dos Porluguczes.
A nova da gloriosa restauração foi iccc-
4 641 bida no Brasil t om geral enlbusiasmo; os
Hoiandezcs porém, mostrai ão bum regosijo
de cuja sinceridade há permittido duvidar.
Insurreição em S. Vicente.
Os ITcspnnhocs residentes em S. Vicente,
e a({dí aUiacfos a muitas famílias, mo sou-
beião sem grando prçár da feliz revolução
de Portugal; c confiando na ignorância
do Povo dla^Liella Capitania, tnluo mais
1 15
propenso ás armas cio que ás letras, tenta-
râo aproveitar o abandono cm que se adia-
va esta parte tio Estado, e conserval-a no
domínio de Caslella. Paia principal iuslru-
mento da revolta , lançarío vistas soijre
J maior Bueno de RiLeira , nome, e descen-
dente de ILspanlioes*, e tendo conseguido
illudír a plebe, dizendo- lhe que, nenhuma
sujeição deviao a El P.ey D. Jo o IV , por
ai mia lha rito lerem jurado, fora o em chus-
ma á morada de Bueno* exclamando: Vira 1642
Amador Bueno , nosso Rey. Este porém, dando
pasmoso evempl j de obediência , recusou
a perigosa Coroa, e vendo-se perseguido pe-
los amutinados, sahe com huma espada nua
pelas ruas da Villa , grilando : Viva Et Rfy
D. João 1F , nosso senhor, e vai refugiar-
se no Convento dos Benedictiuos.
Algumas pessoas notáveis chamadas ao
Mosteiro arengar 3o ao Povo, descobri ndo-
lhe as cavilosas manobras dos Hcspanhocs^
n6
e com tal veliemcncia e razões animarão seus
discursos, que todos os rebeldes ali mesma
acclamarão El Rey D. João IV \ e fazendo logo
reunir a Camara Municipal , nomearão dois
Commissarios, Luiz da Costa Cabral, e Bal-
ihazar de Borba Gato, para hirem á Corte
prestar juramento de fidelidade á nova Caza
Reinante, em nome da Povoação de S. Vi-
cente»
Expulsão dos Holandeses. — O Brasil recebe titulo dg
Principado*
Atrégoade ioannos, queElReyD, JoãoIV?
310 princípio do seu feliz reinado firmou com
a Republica Ilolandeza , deo lugar ao Prín-
cipe Mauricio de Nassau , a tornar profícua
a fertilidade do território de suas conquistas,
e crescidas som mas entrarão nos cofres da
Companhia. A Cidade de Olinda foi recons-
truída , e augmentada com muitas obras, d©
que ainda se conserva© preciosos restos.
II7
Todavia, a desconfiança do Conselho da
Holanda , augmentava na razão da prospe-
ridade de Nassau 5 e, ainda que este Chefe
não mostrasse jamais nutrir as ideas d'cgois-
mo de que o accusavuo , o Governo das
Províncias Unidas o chamou á Europa , subs-
tituindo-o porhumaCommissão Governativa, 1 644
composta de Reynaldo Hamel , Samuel de
Bas, e Victor Bailcslrate.
Estes tres homens não desenvolverá a sa-
bedoria e prudência de seu antecessor *, e á
afteição que tinhâo sabido ganhar, medidas
doces e moderadas, succedeo hum ódio mor-
tal, filho das vexações que agora pesavâo so-
bre os P01 tuguezes.
João Fernandez Vieira , que tanto se ti-
nha distinguido na guerra da invasão, me-
ditava de continuo na liberdade do Brasil;
avultados cabedaes lhe oíFerecião recursos,
que sua nobre alma consagrava inteiramente
ao bem tia Fali ia adoptiva.
A Ilha cio Maranhão, atraíçoadarnente.
conquistada pelos Holandezes já durante a
4 paz, acabava de ser restaurada pelos Colo-
nos d'aquella Capitania, e esta vicloria héra
hum novo incentivo para os conjurados de
Pernambuco, que deviao proceder de acordo
com aqueloutros. Nada mais faltava do que
a chegada de Fiiippe Camarão , e Henrique
Diasy que vinhão reuni r-se, com [ ,40(> 1 n-
digenas, e Pretos j tudo promeltia que em
breve o heroe descarregava o golpe capitil ,
quando huma infame delação veio perturbar
seus planos , constrangendo-o a levantar
prematuramente o estandarte da indepen-
4645 dencia.
0 Governo llolandez, tâo timorato quanto
tiranno, suf prendido com a imprevista re-
ii9
volta , limitou*se a reforçar a guarnição tias
fortificações, e, conserva íulo-se na defensiva,
requereo â Corte os necessários auxílios;
porém, estes tinliâo de ser retardados pelos
obstáculos de mais de 2,000 legoas , em quanto
por outra parle, o Vicerey Antonio Telles da
Silva, enviava a Pernambuco Ândrè Vidal
de Negreiros , com mandando bum corpo de
boas Tropas, as quaes entrando com o dis-
simulado pretexto de pacificadoras, se englo-
barão logo com as insur gentes.
À guerra tomou enlap bum caracter ,
mais do que nunca fatál aos ííolandezes.
Vieira , sempre pinto ao perigo , destribue o
Exercito com prudência e babilidade, e se
bé mister destruir as plan tições e edifícios
que servem ao inimigo, appòc-sc á inteira
ruina de seus compatriotas, mas incendia
as suas ricas propriedades. 0 General Hen-
rique II usS; que sabe a campo com 2, 200 solda-
120
dos, he batido e aprisionado, e o generoso
Vieira o restitue aos seus. O despresivel Fre-
derico Hoogstrate , Conimandante do Forte de
Nazareth., vende este importante posto por
25,ooo cruzados ; Porto Calvo succumbe
ao valor de Chrisiovão Cavalcanti , e Valen-
tim Rocio , apodera - se da Villa do Pe-
nedo. O inimigo 3 concentrado em Olinda,
contava 4, Boo defensores, entre Holandezes
e Indígenas, quando Vieira o acommet-
teo ajudado pelos de Camarão , e Dias, e
com 3,200 homens obriga o General Huss a
1646 deixar a Cidade, e entrincheirar-se no
Recife.
A Holanda 9 finalmente convencida da fra-
quesa e perigosa indecisão da Junta Gover-
nativa^ do quanto importava substiluil-a
por bum Chefe militar e activo , enviou pela
segunda vez Sigismundo de Escup , como
Governador da Colónia, e Commandante
das forças, o qual chegou a Pernambuco
com hum a considerável Armada bem refeita
de gente e armamento.
Os Portuguezes esperarão a pé firme todo
o poder do inimigo diregido pelo novo e
bravo Capitão, e ganharão ainda huma por-
fiada batalha , em que o General Belga foi
ferido gravemente.
Apenas restabelecido , o Chefe inimigo
junta a sua Armada, e deixando no Recife
unicamente a força necessária para a defen-
siva , vai com 5,ooo homens surgir inópia
nadamente na Bahia , e tomando a Ilha de
Itaparica, d ali pede satisfação ao Vicerey ,
dos soccorros por clle enviados os rebeldes de
Pernambuco. Telles da Silva, naturalmente
fogoso, responde, contra a opinião geral ,
mandando Francisco Rebelo, á testa de 2,000
Portuguezes atacar os instrusos *, mas , de-
pois de renhida batalha, este valente Com-
16
I
122
mandante morre com 600 dos seus , e Si-*
gismundo não volta ao Recife sem ter arra-
zado a Povoação de I tapa rica , e obtido lumia
ordem em nome d'El Rey , a Vieira , para
cessar as hostilidades 5 porém este responde :
lurei receber do Soberano o castigo da deso^
bediencia , quando lhe tiver restituído o mais
bello apanágio da sua Coroa.
O implacável patriota , ganhando cada
dia novo valor, não dava ao inimigo hum
momento de tranquilidade; mas as vanta-
gens que elle tinha até então obtido, de
foiça se achavão agora equilibradas pelo aug-
mento das Tropas holandezas entregues a
mais hábeis mãos.
El Rey D. João IV, sabendo que huraa
formidável expedição partia da Holanda ao
auxilio de Sigismundo , mandou, sem aberta
declaração, Francisco Barreto de Menezes 9
com alguma gente, tomár o cominando do
123
Exerci to pernambucano*, mas como o General
fosse aprisionado nas agoas da Capitania da
Parahyba 3 só depois de nove mezes de prisão
pôde evadir-se, favorecido por Francisco de
Brat, e chegou a Pernambuco a tempo que
Vieira, constrangido ate ali á simples defen-
siva, projectava liuma batalha terminante.
A entrada do novo General lhe deo ainda
occasiâo de patenteár a extensão e nobresa
de seu caracter, cedendo irn mediatamente
o commando , e continuando a prestar-sc
com sua fazenda para a sustentação de todo
o Exercito. Barreto soube apreciar as rarag
qualidades de seu antecessor: armonia a
que se devem attribuír as victorias successi*
vas alcançadas pelos Portuguezes.
Sigismundo, á frente de 7,0.00 homens
Holandezes, e Cabocolos, dezafia o General
Barreio, tomando posição nos montes Gua-
rarapes j os Portuguezes impacientes por
avançarem aos adversários , acompanhão
em numero de 2^000^ o novo Chefe, que se
arremeça sobre os Belgas, obtendo completa
1647 e brilhante victoria.
Como por este occasião, Sigismundo re-
cebesse segunda ferida , o commando recahio
em Astolplw Brinck9 que tomando tão so-
mente o tempo necessário para reorganisar ,
e augmenlar a sua gente com mais 1,200
Holandezes, e 2,000 Cabocolos de rezerva ,
volta aos montes Guararapes; Barreto apres-
sa-se em disputar-lhe a posição, e ao cabo
de pleiteada e desigual batalha , fogem os
Holandezes vergonhosamente , deixando ao
Portuguez, 10 bandeiras, 6 canhões, 800
prisioneiros, e 2,200 mortos, entre os quaes
se contava o General Brinck , e vão acossados
refugiarem-se precipitadamente no Forte da
Í643 Barretta.
Tâo desastrosa derrota exacerbou o animo
nimiamente beilicoso de Sigismundo, forçan-
125
do-oasahíra campo antes de restabelecido;
e voltando todo o ódio contra o Vicerey , que
protegia com- mão occulta os revoltosos de
Pernambuco, tratou de hir em pessoa ata-
car segunda vez a Capitania da Bahia. A con-
tinua reacção a que o obriga vão repetidos
assaltos do General Portuguez , o demorava
no Recife; mas recebendo por este tempo
dois Regimentos, que de reforço lhe vinhâo
da Europa, foi com elbs, e mais 1,200 ho-
mens de desembarque, aparecer na Capitai
do Brasil. Em troco das requisições que ar-
rogantemente fez, de nova satisfação, res*
pondeo Telles da Silva, que , além de nada
querer providenciar sobre Pernambuco, por
lhe parecer sobejamente justa a defesa da
própria liberdade contra tirannos aggressores,
lhe intimava que dentro de 'a/± horas o obri-
garia a evacuar a Bahia, se de bom grado
elle o não tizesse.
Nada porém corroborava a ameaça do
1 26
fero Vieerey. Sighmundo , linlia-se apresen-
tado inesperadamente no porto , e os Bahia-
nos desprevenidos, mal podcriâo secundàr a
bravura de seu Chefe, contra 4?700 soldados
aguerridos-, com effeito, o Holandez desem-
barcando logo com a sua gente nas praias
do Recôncavo, matou muitos habitantes,
1649 saqueou as Povoações, e voltou a Pernam-
buco, sem ter encontrado a menor resis-
tência.
Depois d'este acontecimento , os dois par-
tidos , conservando-se sempre em vigilância,
diminuirão de actividade, sendo o primeiro
facto digno de referir-se a morte do leal e
í 650 y alente Filippe Camarão, perda tanto mais sen-
sivel, quanto sua conducta heróica o tornava
eharo aos Portuguezes , e temivel ao ini-
migo.
Cançada a Holanda de enviar despendiosos
^occorros ao Brasil, os quaes a habilidade
dos Chefes insurgentes inutilisava ; e El
Rey D. João IV , temeroso de comprometter-
«e com as Províncias Unidas, abandonando
o General Barreto , os dois Exércitos cahirao
em hum a apathia, que por largo tempo só
foi interrompida por alguns pequenos ata-
ques suscitados pelos Pernambucanos. Os Ho-
landezes conservava o-se senhores da Villa do
Fiecife e do por lo , em quanto os contrários
occupavão á Cidade de Olinda. 1
Mais de 7 annosse tinhao passado de guerra
em Pernambuco , e a longe se prolongaria
Ião destruidora época , a não sobrevir
huma circunstancia imprevista e poderosa.
Pedro Jacqaes de Magalhães , oíficial de
reconhecido mérito, apareceo n'esta Capita-
nia, commandando huma Armada por-
tugueza encarregada de comboyár os na-
vios de commercio até á Europa ; o General
Barreto apressou-se em communicár ao Ai-
mirante o estado da guerra , pedindo o seu
auxilio para a expulsão dos instrusos. Este
porém , receando tomár parte activa em
hum * luta a que apenas assentia o Governo
portuguez, submetteo a questão a hum con-
selho de guerra a bordo da Nao Chefe, e
em consequência de decisão affirmativa , o
ataque do Recife foi resolvido.
Barreio j desejoso de ver terminar esta
lide por aquelle que a tinha começado ,
entregou a direcção do ataque da Villa do
Recife a Fieira , e foi com o resto da gente
assai lá r os outros pontos fortificados. 0 pa-
triota aproxima-se da Praça, apezár dos
esforços dos sitiados; a Esquadra principia
hum fogo successivo sobre as fortificações ,
que Barreto, por outra parte acommette ,
e toma ; redobra-se de vaíor e de artificio ;
e , em quanto Vieira , perto do Recife avança
a travez das balas holandezas, o Engenheiro
Pedro Dumas abre huma galeria de mina 5
12$
c hia fazer jogar o formidável fornillio 3
quando as Tribus indígenas, que auxiliava©
os já atterrados Ilulnndezes, instruídas da sorte
que as aguardava , procurarão ^ atravessando
o rio, escaparem aos mortíferos prodígios do
engenho europco, e Sigismundo , do alto das
baterias propõe capitular. Então, Vieira
chega junto á Traça , onde reina a maior
confusão , reune-se o conselho holandez , e
convenciona-se em que , a Villa c porto do
Recife sejâo entregues ao General Barreto ,
assim como todas as fortificações dependen-
tes , as Capitanias oceupadas pelos Holande-
zes serão evacuadas á chegada da primeira
ordem ; ás guarnições se concederá sahirem
com as honras da guerra . 0 tratado reali-
sou-se , e o Brasil ficou para sempre livre do 1654
domínio estrangeiro.
El Rey D. João IV, soube com vivo prazer
que havia recobrado a posse d\sta parte
de seus Estados; e, se as circunstancias d@
*7
i3o
Portugal o tinliao privado de soccorrer eílíi-
cazmente os illustres patriotas, a gratidão
e justiça, com que de mão larga o dotara
a natureza, translusirao nos prémios que
liberalmente lhes outorgou. João Fernandez
Vieira , recebeo recompensas proporcionadas
a seus nobres feitos , e El Rey confirmou o
glorioso titulo de Libertador do Brasil , que o
Exército unanimemente lhe conferira.
Se a invasão dos ílolandezes prejudicou a
Portugal e sua Colónia , lie igualmente in-
contestável que elles , transportando ás pos-
sessões de ultra-mar a ordem e actividade
que os distinguia na Europa , concorrerão
para o augmento d 'este paiz. Muitos vestí-
gios de sua indústria attestão ainda no Bra-
sil a verdade d 'es ta asserção j por muito
tempo as observações de Pison , e as de
Marcffgraff, forão as únicas que podessem
servir de guias na Historia Natural destas
regiões.
i3i
Antes dos acontecimentos que acabamos
de narrar, em 1 647 3 tinha El Rey D. João
IV illustrado o Brasil com o titulo de
Principado , hereditário para os successores
á Coroa , na pessoa de seu primogénito , o
Príncipe D. Tkeodozio.
Povoação de Santa-Catharina. — Rasgo de valor. — Po-
voação das Alagoas. — Fundação da Colónia do Sacra-
mento. — Minas de ouro. — Povoação de Minas Geraes.
Chegando nVste tempo a Portugal a nova de
que os Castelhanos tentavaõ estabelecerem-sc
na importante ilha de Santa Catharina, en-
tão chamada dos Patos, e incorporada á Ca-
pitania de S. Vicente, concedeo El Rey
D. João IV a Francisco Dias Velho , a posse
da mesma ilha , e do território opposto no
continente, o qual tendo chegado com pouca
gente, dava principio ao estabelecimento,
quando Roberto Lewis, Corsário Inglez, j 555
abordando ali , o assassinou. Por tempos
1*2
depois se conservou descria aquella ilha ,
até que, cm 1692, João Felix Antunes ,
veio com 260 Acolitas dár começo á Po-
voação 3 para o que achou grande auxilio
nos habitantes da Laguna, que, i35 annos
antes, o Vicentista Domingos de Brito Peixoto
havia começado a povoar.
i 656 Pela lamentada morte d'El Rey D. João IV,
a Rainha D. Luiza, sua esposa, como tu-
tora dos Pi incipes menores, nomeou Francisco
1 657 Barreto de Menezes , para Vicerey do Estado do
1 662 Brasil , e concluio hum tratado de sólida paz
com as Províncias Unidas , concedendo livre
commercio aos Holandezes em todos os por-
tos da America Portugueza.
Chegando o primogénito filho do defunto
Monarcha á idade própria , mais desejoso
do que capaz de governar, subio ao sólio com
o nome de D. Afíbnço VI, e enviou o Conde
1663 d'0"bidos7 como Vicerey do Brasil: razãe
i33
única pela qual seu escuro nome aparece nas
paginas brasileiras*, porque, entregando logo
ao Conde de Castehnclhór , por ventura varaõ
de crescido mérito, a direcção dos negócios
nacionaes, para d'est'arte poder inteiramente
entregar-se a ilícitos exercidos, preparou a
a sua prompta e desairosa queda.
Com effeito, fatigado o Reino da escanda-
losa conducla do Monarcha , obteve, a requi-
sição da Junta dos Tres Estados, que o Go-
verno caliisse nas mãos do Infante D. Fedro, \
o qual, aceitando a Piegencia , voltou suas
vistas para a felicidade das Colónias : e daqui
datâo as importantes descobertas das riquesas
do interior do Brasil. As Capitanias do
Norte receberão consideráveis melhoramen-
tos, e as transacções marítimas furão prote-
gidas por huma Armada, que regularmente
comboyava os navios do commercio até
Lisboa. 0 distincto Almirante João Correa
i34
âa Silva, Chefe de huma d'estas Armadas y
pereceo com mais de 400 Portuguezes, nau-
fragado perto da entrada da Bahia.
Entre os repetidos assaltos dos Cabocolos,
que n'estes tempos experimentou a Capital
do Brasil , cumpre distinguir o da Povoa-
ção de Cayrú.
Estando os habitantes da Villa reunidos
na Igreja Matriz , por occasiao de grande
festividade , 800 Indígenas armados de fle-
chas vierâo cercar o Templo, e começavão
horrorosa matança, quando o Capitão Manuel
Barboza de Mesquita, encarregado da guarda
d'aquelle Ponto , cahio denodadamente sobre
os bárbaros , com 7 soldados , únicos que ou*
sarão seguil-o, e cortando a hum e outro
lado , abrio larga estrada no meio dos ini-
migos, succumbindo finalmente trespassado
por cinco mortaes feridas, depois de salvar
i35
as vidas dos habitantes cuja segurança lhe
estava cenfiada : tal hera ainda o ânimo por- 1672
tuguez.
Nas sábias providencias que o Brasil deveo
ao Regente D. Pedro, hé rniste'r conlár a
expressa ordem ao Vicerey A jfonço Furtado
de Mendonça, para mandar povoar o terri- ^ 674
tório dos Alagoas , e fortificar o porto de
Maceió contra o ingresso dos Indígenas , e
dos Estrangeiros contrabandistas de pao
brasil, que a cada passo acommcttiâo e sa-
quearão as raras cabanas estabelecidas á
beira-már. Esta Povoação se conservou su-
bordinada á Capitania de Pernambuco até
ao anno de 1817, em que foi d'ella desmem-
brada , tendo por primeiro Governador ,
Sebastião Francisco de Melo Póvoas.
Por morte do Vicerey, hum triumvirato 1675
ficou encarregado do Governo , ate' á chegada
de Roque de Castro Barreto. \ 573
m
Em quanto os habitantes de toda a costa
entre o Pará e Rio de Janeiro, gosavao da
prosperidade que lhes procurava o desvelado
Regente, os Vicentistas, quasi independen-
tes , longe de participarem da sorte de seus
compatriotas , se occupavao em pelejar cou-
tra os líespanlioes do Paraguay e Buenos
Ayres, os quaes, estendendo seus dominios
até ás visinhanças do Uraguay, fazião assim
recuar os limites de Brasil.
D. Manuel Lobo , nomeado Governador do
Rio de Janeiro, veio, por ordem do Infante
D. Pedro, no intuito de obstar a continua-
ção doestes estabelecimentos , fundar a Co-
1680 lonia do Sacramento.
Construída a Praça, D. José Garro , Go-
vernador de Buenos Ayres, surprendendo e
1681 passando á espada a guarnição, se apossou
(Telia. Por convenção das duas Coroas, foi
depois a Colónia restituída a Portugal, e
i3j
reedificada por Duarte Teixeira Chaves. Em 1683
i^o3, D. Alonso Valdez, pondo- lhe per-
tinaz e rigoroso sitio , obrigou o Governador
Sebastião da Veiga Cabral a evacuar a for-
tificação, que voltando ao domínio portu-
guez em 1718, pelo tratado de Utrecht,
em i^35 D. Miguel de Salcedo a atacou,
e apezár de redusir a guarnição á mais cala-
mitosa extremidade , foi a final repeli ido
pelo valeroso Antonio Pedro de Vasconcello <$,
Tianquillisados os Yiccntistas com a bar-
reira opposta pela Colónia do Sacramento
ás empresas dos seus limitiophos do Sul,
poderiâo oceuparem-se na cultura do vasto
território em que vivião independentes; mas
seu espirito inquieto necessitava exercícios
mais árduos.
Ja , como dissemos, em 1573 Sebastião
Fernandes Toyrinho , havia dado exemplo
na pesquisa de terras auríferas; e se esta
s38
expedição , e outras que se lhe seguirão , não
tinliao alcançado vantajosos resultados, sup-
punha-se , por outra parte , que as montanhas
visinhas do Peru encerrarão valiosos the<-
souros, e isto deo causa a que muitos Seria-
1685 nojos se reunissem em Bandeiras , e se intro-
dosissem peio interior, em Bifferentes direc-
Imaglnem-se estes exploradores , percor-
rendo paizes sobre osquaes não tinliao outros
indícios mais do que as informações vagas ,
e muitas -vezes falsas , dos Indígenas *, vivendo
annos inteiros no centro de medonhas matas,
do pr o dueto da caça , ou recorrendo a peni-
veis culturas , para poderem subsistir no de-
serto 5 e se fará exacta idéa do caracter
d\*stes homens em prendedores, a quem a
ambição tornava mais perseverantes.
4 Depois de muitas incursões infructuosas ,
Antonio Rodriguez, natural de Thaubaté ,
i3g
acompanhado por 5o homens , atravessou
os sertões de Cxiyaté, e foi aparecer na Ca-
pitania do Espirito Santo, onde apresentou
3 oitavas de ouro. 1693
Por morte de Rodrigues, Bartiwlomeo
Bueno, e Miguel d' Almeida, continuarão a
empresa*, Manuel Garcia, e Salvador Fer-
nandez, se lhes reunirão no seguinte anno?
na serra de Itaberava , e acharão maior
cópia do procurado metál. Por outra lado,
Fernando Dias Paes, penetrava nos sertões
do Serro Frio, e descobria parte das pre-
ciosidades queelles oceul tavão. Os Yicentistas,
animados pela esperança de avultadas rique-
sas, afíluiruo então em grande numero n'a-
quelle território, e ali formarão huina con-
siderável Povoação com o nome de Aldèa dq Igo^
Ouro Preto , a qual foi em 1711 mudada
para mais apropriada posição, com o titulo
de Villa Rica, sempre sujeita a S. Vicente 7
até 1720, em que a Capitania de Minas Ge-
raes se desmembrou da de S. Paulo, tendo
por primeiro Governador , D. Lourenço
d' Almeida.
O respeito que desejámos guardar á or-
dem chronológica dos faclos, nos obriga
agora a interromper a Historia dos desco-
brimentos devidos aos "Vicentistas, para re-
latarmos outros successos não menos inte-»
ressantes.
Kegros de Palmares*
Os Negros que procurao escapar á escra-
vidão, bem vezes insupportavel pela tiran-
nica injustiça de seus senhores, formão quasi
sempre pequenas associações nos matos, onde
liuma má ou nulla administração, concorre
para es entregar as primeiras tentativas da
policia; a Povoação de Palmares, porém 9
oíTcrece liuma excepção d'esta negligencia,
geral.
«4>
Entre os annos de i5:>o e i53o, se tinhão
formado doas d'estas reuniões com alguma
regularidade na Capitania de Pernambu-
co , perto de Porto Calvo 5 os líolandezes
as extinguirão em 1 6^ 4-
Pouco antes da expulso dVstes instruas,
mais de zjo negros fugitivos, fornecidos de
armas de fogo , foi 5o estabelecesse no mesmo
lugár, para onde affluirão em pouco tempo
mui los outros. Pernambuco, primeiro oceu-
pado na grande luta de sua independência, e
depois desfalecido pelos resultados de tào
pi\ longada crise, não pôde obstar o pro-
gresso da nova Povoação de Palmares, que
ganhou hum rápido e assombioso cresci-*
mento.
Como os fugitivos não possuiâo snííiciente
numero de companheiras, as procurarão á
maneira dos Fiomanos, cahindo brutalmente
«obre as habitações visinhas, e apoderando-
3e de todas as mulheres de cor : Pwcfia Pitta,
diz, que o roubo das Sabinas nao foi, nem
mais completo, nem mais geral. Os Palma-
rienses imitarão ainda os antigos domina-
dores do mundo , saqueando as Povoações.*
e commettendo mil outras barbaridades.
Os Agricultores de Porto Calvo , obrigados
a comprarem a alliança dos Negros , lhes mi-
nistrarão armas , munições e outras merca-
dorias ; e a Colónia Africana tornou hum
aspecto ílorecente e terrível.
A agricultura, a que os Palmarienses se
entregarão com hum a ordem e previdência
que fazem pasmar, adoçou seus costumes.
Hum Chefe electivo e vitalício escolhido den-
tre os mais bravos, denominado o Zumbe ,
estava encarregado de vigiar sobre a segu-
rança e auginento da Povoação 9 executando
por meio de Ministros de sua nomeação,
huma espécie de código , hoje infelizmente
i43
ignorado. A Religião adoptada hera o Chris-
tianismo, alterado por muitas superstições.
A população de Palmares crescia pois por
admirável maneira; as matas virgens apa-
recerão em breve transformadas cm terrenos
cultivados, e numerosos edifícios occupavão
os arredores da Cidade. \ Capitai foi forti-
ficada por meio de enormes troncos cravados
em estaca , formando huma muralha circum-
dante de grande altura.
Cincoenta annos tinhao decorrido desde
o começo do estabelecimento , quando o
Governo de Pernambuco , amedrontado ,
resolveo aniquilal-o. João de Lencasíro ,
que governava esta Capitania , de acordo com
Caetano de Melo , então Yicerey , fez marchar
7,000 homens de Infanteria , porém os Ne-
gros os repellirão vigorosamente. Com tudo,
como os atacantes conservassem em sitio a
Povoação s em quanto lhes chegava a Ar ti-
i.44
lhei ia que requisitarão , e os habitantes cir-
cunivisinhos se tivessem eoncentraclo na Ca-
pital ile Palmares, a fome veio complelár
a ruína dos audases Africanos, fazendo-os
suocun.bír aos primeiros tiros do canLão.
Este acontecimento deo lu0ár a hum d'a-
queííes rasgos qoe atteslão ser o verdadeiro
valor o mesmo em todas as espécies do gé-
nero humano. Zumbe vio os h ri os que se lhe
destinav^o, e seus companheiros lendo nos
olhos do Chefe o horror que lhe inspirava
o captiveiro, souberão imital-o , e morr< rao,
i 697 despenhando-se do cume de hum alto rochedo.
Os velhos, mulheres e doentes forão ven-
didos, extinguirao-se as mesmas rui nas da
Cidade, e só resta hoje de Palmares, a me-
moria de seus célebres habitantes.
Oulras expedições francezas. — Decadência no Norte. — Po-
voação de Piauhy , de Mallo Giobso , e de Goyaz.
i 703 A- alliança com a Inglaterra, contra a Fran*
i45
ça, foi para Portugal hum gérmen des-
truidor de todo o engrandecimento devido
á sábia administração do Conde da Ericeira.
Este tratado, que estipulava união oíFen-
siva e defiensiva , mas que na realidade
hera hum tratado de com mor cio , abrio fa-
vorável senda á invasora cobiça dos ne-
gociantes Inglezes, que, livres de Iodas as leis
prohibilivas , inundarão Portugal dos va-
riados productos de suas fábricas, paraly-
sando a indústria nacional.
A França, pois, nao conseguindo enla-
bolár mais vantajosas relações, no princípio
do oneroso reinado d'El Rey D. João V; 1707
pretextando a regcição de sua alliança , pela
de seus antigos rivaes , resolveo trascr a
guerra ao seio das Colónias portuguezas da
America.
Sete náos com 1,000 homens de Tropa s
*9
\46
ao cominando de Carlos Duclerc , vierão
1710 aportar na Capitania do Rio de Janeiro.
O Governador Francisco de Castro de Mo
racs, avisado da aproximação do inimigo ?
mandou tudo dispor para a reacção ; porém ?
sabendo que Duclerc , tendo desembarcado
no porto da Guaratuba, eslava em marcha
sobre a Cidade, em vez de lhe disputar o
passo em hum terreno para isso tão pro-
picio, se conservou quedo em posição , e
o Chefe fraricez, penetrando na Cidade,
passou pela frente das Tropas do Go-
vernador, sem que este se movesse, nem de
suas fileiras se disparasse hum só fusíL Du-
clerc , animado com tão pusillanime resistên-
cia, sè' diregio sobre o palácio do Governo,
e o teria oceupado, se Gregorio de Castro de
Moraes . com quem a natureza fora tão pró-
diga em coragem , como avara para com
o Governador seu irmão , não defendesse o
i47
poslo durante 3 horas, até cahir mortal-
mente ferido. A este tempo , aproximando-
se finalmente as Tropas nacionaes , o ini-
migo se retirou, e foi loucamente postar-
se no trapiche da Cidade. Entuo, o Go-
vernador , fazendo para ali transportar mui-
tos barris de pólvora, Francisco de Mace-
i/o Brito, que rTaquelle lugar possuia , a-
lém de importantes propriedades^ sua es-
posa, may e íilhos, mais patriota que
Bruto , ou Maiio, sc ofierecco pajsi lançar
o fogo ao combustivel *, mas o Francez , sue-
eumbindo a tão poderosa insídia, se apressou
cm "depor as armas, entregando-se e os seus
como prisioneiros de guerra. Poucos dias de-
pois, o Chefe se achou aleivosamente assassi-
nado em sua prisão : tão vil he a covardia. Í710
Recebendo-se em França, no regresso da
Esquadra de Duclerc^ a noticia do desastroso
resultado da empresa, o Almirante Dugtwy-
Trouin, obtendo de Luiz XIV, 4)^00 s0^"
0
da Jos , e concordando com hum a Companhia
commerciál , que, aproveitando a ensejo,
lhe fornece© o cabedal necessário, veio a-
parecer com i5 náos na barra do Rio de
1711 Janeiro.
0 Govrrno de Portugal, mandou em au-
xilio da Colónia, 4 náos, e outras embar-
cações, entregues a Gaspdr da Cosia d' Atayde.
Trouin , apesar da resistência das fortifi-
cações, ganha a bahia, e vai tomár a For-
leza da Ilha das Cobras, onde alvora o pa-
vilhão francez. D'esta posição se convence de
que ordens previdentes tem disposto a Cidade
para reagir ao ataque \ todavia, fazendo pri-
meiro varrer as praias pelo fogo de 4 navios,
eífeitua o desembarque, e, ponclo-se á frente
do centro do seu pequeno Exercito, confia
a vanguarda ao Cavalheiro de Goyon , e a re-
serva a Adolfo Courserac, e avançando impá-
vido, a poucos passos está senhor do Forte
de S. Bento 9 e de outras posições impor-
tantes.
Antes de começar o assalto, Trouin escreveo
a Castro de Moraes, exigindo, os assassinos
de DuclerCj a liberdade de todos os prisio-
neiros, e h u ma quantia capaz de o indemnisár
das despesas da expedição. 0 Governador,
procedendo por maneira que mal se compa-
dece com sua condueta anterior, responde,
que não satisfará a nenhuma das condicções,
e conclue protestando que saberá morrer no
seu posto.
Os Froncezcs, reservando então o assalto
para o dia seguinte 9 mandarão desde logo
a favor das trevas algumas chalupas bem
armadas, para se apodei arem de 5 embarca-
ções poi tuguezas surtas no porto : bum raio ,
que caldo quando se aproxima vão das presas,
fez descobrir os atacantes, e hum chuveiro
de balas de mosquetaria se disparou contra
i5o
elles. Troutn , receando perder esta preciosa
parte de suas Tropas , eh egeu o morrão a
fruma peça d'artilheria, e deo assim o signá!
convencionado para que todas as baterias
rompessem o fogo sobre a Cidade . Esta deto-
nação simultânea, o ruído dos trovões, cem
vezes repetidos pelos echos da bahia , e o cla-
rão interrompido das bocas de fogo e dos re-
lâmpagos, atterrarão os habitantes , contra
quem os elementos pareei&o juniár sua guerra
á guerra dos invasores, forçando-os a ganhar
o interior do paiz , com o possível de seus
thesouros ; os mesmos militares abandonarão
as muralhas : a Cidade íieou deserta»
Trouin , prevenido da existência de hum a
mina, que hia fazer voár o Forte dos Be-
nedictinos com a guarnição franceza , se deo
pressa em entrar na Cidade , e dcixando-a
primeiro saquear, foi logo ao encontro de
Castigo de Moraes, Depois de hum pequeno
YJ\\ debate ? o Portuguez capitulou, assignando
I
i5i
a affrontosa condicção de pagar 610,000
cruzados a Buguay*Trouhi) o que foi realisado
dentro de i5 dias*, e o inimigo regressou á
Europa, levando, n£o obstante o naufrágio
de huma das mais preciosas embarcações,
92 por 100 sobre o custo da expedição.
Se os Portuguezes se sustentuo mais 2^
horas, teririo recebido o possante soccorro
de 3,ooo. homens, que descerão de Minas
Geraes , commandados por Antonio de Al-
buquerque Coelho , 2 ,00o dos quaes herao
de boa Cavaliaria, elníanteria. Assim, outro
que não fosse o inerte e timorato Castro cie
Moraes , caro teria feito pagár ao invasor,
seu temerário arrojo.
Ate' aqui, Portugal, debaixo ainda da in-
fluencia de antiga prosperidade, pòdeconcluír
hum tratado por intervenção da Rainha Anna \
d'Ingla terra,, pelo qual , o território do Brasil
se estendia do Oyapock ao Prata; em pouco
i5a
porem, o Governo á"E\ Rey D. João V, to-
lhendo a actividade e indústria poríugueza r
foi produsír iguaes effeitos em todas as
Colónias. Mais de 4o annos que este Prín-
cipe occupou o throno , offerecem humu
longa e humilhante retrogradação para os
séculos do brutal monaquismo , e fazem do
seu reinado liuma época de luto nos annaes
de Portugal. O fanatismo , que até ali tinha
ajudado o espirito bellicoso da Nação, nas
suas gloriosas e ineomprehensiveis façanhas,
se achava agora lubstituidp pela abominosa
hypocrisia , só fértil en acções negras e de-
gradantes.
O commercio do Brasil paralysava pro~
gressi vãmente, á medida que as Colónias
Holandezas, Francezas e Inglezas enviavao
aos mercados da Europa maior cópia dos
géneros, de que elleaté então os fornecia ex-
clusivamente. Muitos mezes se passavâo , e
hum só navio estrangeiro nuo aparecia nos
m
seus portos, em busca dos productos agrí-
colas, as seccas assolavão o paiz desde Per-
nambuco até Maranhão, tudo definhava,
c jasia na apathia e na mizeria, sem que 1
o Governo despertasse de tão ruinoso lelhargo.
Só huma Povoação inteira não participava
cTes te despereci mento. Os Paulistas, que ti-
nhão observado sem alteração as épocas fe-
lizes do resto do Brasil, se conservavão agora
igualmente alheios da triste vicissitude que
experimentavão as Capitanias do Norte;
occupados em conquistar *os terrenos do in-
terior, e em guerrear com as Tribus dlndi-
ge nas que se lhes oppunhão , não soffrião os
males de seus compatriotas, porque não se^
alimentavão da mesma fonte.
A furiosa mania de conquistar, tinha
levado estes célebres Colonos aos mais re-
motos lugares do Brasil. Eni 1666, Domín~
gos Jorge ? penetrando pelos sertões até as
cabeceiras dos rios Piauhy e Gurguéa, foi
39
i54
combater com os Indígenas denominados Pi-
menteiras, e recolheo-se a seus lares, trasendo
mais de 200 prisioneiros. Domingos Affonço,
que o tinha acompanhado , foi o primeiro
Europeo que residi o n"aquellas terras , onde
estabeleceo l\i fazendas de creár. Depois, o
Governo do Maranhão enviou para ali algu-
mas fa mi lias, que juntas a mais de 3oo de-
gradados vindos de Portugal, formarão a
primeira Povoação de Piauhy, fundando a
1718 Villa da Mocha, que se conservou subor-
dinada ao Maranhão, até passar a Lugar
Chefe de huma nova Capitania.
Ern outras direcções avançava o igualmente
os Paulistas a largos passos pelo interior do
paiz. Pascoal Moreira Cabral, subindo o rio
1719 Cucliipómirim , reconheeeo que o terreno
de suas margens encerrava abundância de
ouro, elogo com seus companheiros ali edi-
ficou algumas cabanas, depois augmentadas,
com a chegada de huma nova Bandeira. No
1 55
seguinte anno, se mudou o Arrayál para o 1790
lugar da Forquilharem cujas visinhanças,
o ouro se ofFerecia em tamanha cópia , que
no espaço de hum mez se extrahirão $00 ar-
robas deste metal, exeavando-se apenas a 4
braças de profundidade. O Governador de S.
Paulo , Rodrigo Cesar de Menezes , enviou
huma Commissâo encarregada de receber o
importe do quinto, a qual, abusando da autho-
ritlade para proteger alguns mineiros, com
quebra dos direitos dc outros, ateou tal dis-
córdia entre elles, que estes insensatos, como
feras se dilaceravao sobre os montões do se- ^79^
ductor e perigoso inetál, encontrando a morte
no mesmo princípio que huma ávida cobiça
lhes figurava como a origem de todas as ven-
turas. Dois annos depois, a Povoação foi
transferida para o lugar cio Cuyabá, como ^y^i
filial de S. Paulo, e recebeo o titulo de Villa
em 1729.
A primeira Divisão que sahio de Cuyabá 3
m
em 1730, transportando 65 arrobas de ouro,
foi acommeltida por huma Frota de mais
de 80 canoas com 800 Payagoas, que, depois
de porfiado combate, se apossarão da ri-
quesa, matando 90 Portuguezes, com perda
de 4 00 dos seus.
De peleja em peleja ganhavão os Paulistas
novos terrenos. Em 1660, tinha Bartholomeo
Bueno , com 12 annosde idade, acompanhado
Seu pay, atravessando o Districto dominado
pelos Goyazes, e já então havia observado
que estes Cabocolos se adornavão com folhe-
tas de ouro. O Descobrimento das minas do
Cuyabá , lhe despertou a idéa de ali voltar,
e como o Governo de S. Paulo fornecesse
100 espingardas á expedição , o Sertanejo se
pôs em marcha, acompanhado de numerosa
comitiva. Sua curta idade quando visitara
aquelles lugares, ha via o 09 annos, lhe tinha
feito perder a memoria dos signaes que o de-
vião guiár3 de forma que, ao cabo de ire*
,57
annos de perigosa e enfadonha viagem, re-
gressou o septuagenário a S. Paulo, deixando
nas matas a maior parte dos seus, mortos de
desastres ou doenças. Voltou de novo o Ser-
tanejo, no seguinte anno, e, com mais feliz
successo, encontrou a desejada paragem , e se
estabcleceo no lugar onde hoje está o Ârrayál
do Ferreiro. Tanto abundava o ouro no paiz,
que, não sendo escassos os mantimentos, hidos
regularmentede S. Paulo , hum porco se com-
prava por 28 libi as deste metal. Foi destas mi-
nas (pie hum filho do nosso respeitável Bueno,
extrahio o ouro de que formou huma collecçâo
dos frucios brasileiros, em grandesa natural,
e que pessoalmente oftertou a El Rey D. Joio
V. Em pouco tempo, se achou a Povoação 1728
com mais de 4,000 almas, e foi então trans-
ferida para as margens do rio Vermelho,
onde tomou o titulo de Villa Boa, cm 1730.
i.58
Minas de diamantes. — Povoação do Dio Grande do Sul. —
Guerras de limites. — A Capilál do Brasil passa ao Ri»
de Janeiro,
Este período da Historia do Brasil se torna
mais rernarcavel ainda pelo descobrimento
de novas e íicticias riqnesas, que arruinando
o Estado 5 hião pejar os cofres estrangeiros,
Antonio da Fonceca Lobo , tendo penetrado
no Serro Frio, em caía de terras auríferas,
1729 achou o primeiro diamante, em huma mina
que enriqueceo os futuros exploradores. Mui-
1730 los Sertanejos se diregirão logo para aquella
paragem, que a natureza, como querendo
occultal-a aos olhos humanos , cercou de altas
e escarpadas montanhas.
O celebre diamante à:\ Coroa de Portugal,
foi achado no córrego de Abaythé, em 1800,
por tres malfeitores comdemnadtfs a exílio.
Hum Ecclesiastico o apresentou ao Gover-
i5c)
nador de Minas \ o volume prodigioso do pro-
ducto, fez duvidar de que fosse diamante,
até que reiteradas experiências convencerão
da identidade. Este maravilha foi enviada a
Lisboa, e os degradados tivera o o perdão.
Huma Companhia, que depois foi explorar
as margens do Abaythé, colhco apenas com
que equilibrar as despesas.
A' intrépida ambição paulistana se deve
pois o descobrimento dos thesouros bra-
sileiros. Esta época porém, da qual pareceria
datár a prosperidade da Colónia, he aquella
em que mais se abandonarão as artes, e par-
ticularmente a agricultura, únicas sólidas
bases da felicidade das Nações, por isso
nenhum monumento existe de sua ephémera
grandesa. Hoje a industriosa Europa em-
presta aos Eslados da America Meridional,
com avultados ganhos , o mesmo ouro em
que ha hum século nadavão os ociosos Colo-
nos.
i6o
Em quanto nas Capitanias do Norte,, con-
tinuado novas seccas a devastar os poucos
terrenos cultivados , e que tudo ali ameaçava
1738 tolál decadência, se alargaváõ os Paulistas
para o Sul de seus limites , e estabelecido pe-
quenos Arraya es nas terras adjacentes ao gol-
fão do Rio da Praia , já concedidas ao Vis-
conde d'Assêca. D 'aqui transferirão algumas
fazendas de creár para as visinhanças da la-
goa dos Patos j avançando sempre na direcção
S. O. , ao passo que os Cabocolos lhes aban-
donava o o terreno. A primeira Povoação com
1743 algl,ma regularidade, foi a de S. Pedro , no
lugar do Estreito, a qual., Gomes Freire
d' Andrade mudou para o locál que hoje oceu-
pa. Aqui foi a Capital do Piio Grande do Sul ,
até 1763, em que esta primasia se concedeo
a Portalegre, que foi fundado pelo Governa-
dor José Marcelino de Figueiredo , e teve o
titulo de Villa em 1808.
Muitos casaes de Açoriías vieião por ve-
i6i
ses reforçar a Povoação. Dois navios que
transportavão 700 d'estes Colonos, naufra-
gârâo desgraçada mente em 1774? na barra
do Sul do Canál de S. Calharina, sem que
hum só passageiro guardasse a vida.
Pela elevação d'El Pvey D. Jozé ao throno, 1750
se firmou hum tratado de limites , entre Por-
tugal e Hespanha. Os Commissai ios, que por
parte de huma e oulra Corôa vieruo demarcar \ 752
a raia, o não poderão realisír, porque, a
sugestão dos Jesuítas, se lhe oppôs hum corpo
de 3,ooo índigenas de Missões*, á vista do
que , enviarão os dois Governos contratantes,
Tropas de huma e outra parte, no intuito
de redusirem os hái baios. Gowes Freire
d' Andrade, Governador do Pvio de Janeiro ,
marchou com 1,200 homens, e o Conde de
Valdelirios , Governador de Buenos Ayres,
com 2,3oo. Perto da foz do Caziquey lhes
Eahirrjo ao encontro 12,000 Tappes, mas os
alliados os forçarão a retrogradar, matando-
2 1
l(}2
1756 lhes i,5oo homens, e capturando-lh.es todas
as munições de guerra.
1762 Chegando depois á America a nova do
rompimento da guerra, os líespanhoes ata-
carão dimproviso a Colónia do Sacramento,
o Governador Vicente da Fonceca , resistia
com geral admirarão por 25 dias consecu-
tivos; mas obrigado a ceder ao poder do nu-
mero, sahio pela brecha com toda a guar-
ptçâo,. Os inimigos continuarão a marcha,
è f orâo oeeupár os Fortes de S. Miguel, S»
Thereza , e S. Pedro ; e d aqui , avançando
em numero de i,6oo , começarão o ataque ao
Forte do Piio Pardo. Hum corpo de Dragões
de S. Paulo , de sós a3o homens , ca h indo de
surpresa sobre elles , os derrotou comple-
ta men te.
1763 Sobrevindo n par , o Governador de Buenos
Ayres, D. Pedro Cerados, reslituio a Colónia
do Sacramento a Pedro de Sarmento, para
i63
isso nomeado ; ficando indevidamente os on->
tios Presídios no domínio hespauhol, até
1777, que fora o restaurados pelo General
João Bo/temi.
PTaquelle mesmo anno mandou El Rey Pft
Jozé transferir a Capital do Estado do Bra-
sil, da Bahia para o Bio de Janeiro, a fim
de que os inquietos Povos limilrophos do
Sul, achassem prompta reacção ás suas con-
tínuas e atrevidas incursões.
Melhoramentos no Brasil! — Os IIe?panhops tomâo S. Ca-
tbatina. — Limites definitivos. — Intento revolucionário
em Minas Geraes. — Guerra com Buenos Ayres,
Eis-nos chegados pela rapidez da nossa
marcha, a huma nova época de regeneração
para Portugal c seus domínios.
Se he verdade que os grandes homens fazem
a força e gloria de huma iNação , justo he dl-
£er-seque5 Sebastião Jozé de Carvalho, depois
Marquez de Pombal, deve figuiár no alio da
lista das grandes influições iudividuaes, que
tem fundado ou sustentado Estados. Munido
de hum poder immenso, devido á absoluta
confiança d'El Rey , marchou por invariável
róta, rompendo colossaes obstáculos, a seu
fim , que hera a regeneração de Portugal ,
e, rrgoroFo medico da moribunda Monarchia,
tocando irritáveis feridas, e cica Irisando in-
veteradas chagas, devia excitar gritos dolo-
rosos , e tramas de vingança assim , nenhum
homem il lustre tem sido tão diversamente
julgado. Todavia, a hesitação na escolha dos
retratos, que, em contraste, dVíle fazem os
d i fie rentes escri piores nacionaes , e estran-
geiros , não pode ser longa. O Marquez de
Po mb dl, foi inimigo dos Jesuítas, foi o Her-
cules que derribou a hydra de cem cabeça
e dVquí nasce o tresbordo de ódio e ca Som»
nia , que intentou submergir sua memória»
OsJeauitas tem em todos os tempos 3 sobic»
i.65
pujado em destruir a reputação de sens ad-
versários*, porém as sérias e duradouras
controvérsias a que o caracter de hum grande
homem d'Eslado está sujeita, não permUtetia
que o erro seja eterno a seu respeito : a pos-«
ter idade o anniquila. 1
Mal toma as rédeas do Impeli o o ?darrj'rz
de Pombal, trata com todas as Côrles, ne-
gocia com todos os Gabinetes., c mostra aos
Soberanos d Europa , que Portugal torna a
ser Potencia j organisa hum Exército formi-
dável; acrescenta a Armada; derroga leis
imiteis, e promulga as necessarks; minora
o poder dos grandes; restabelece a subordi-
nação ; regnla a policia interna ; augmenta
as finanças, prohibindo a exportação do
numerário; acode ás artes; vivifica o co n-
mercio ; junta novos ramos á in lústria na-
cion d , e estabelece hum cslenço svsiema
fabricante. Tranrpiillo sobre o estado politico
e económico da Nação, cura cL homem moral,
i66
c o arranca aos nós da Eirâft-má sagrátTa ;
proscreve os Jutas da /p, c apaga os aliares
sanguinários, cerrando a tremebunda inqui-
sição nos estreitos limites de meia disciplina
ecclesiásiica.
Se a America Portngueza n~opóde utíTisâr
de todos os bens que lhe preparava e incom-
parável- Ministro , participou ao menos de
sua benigna influencia. A armada , que
desde a morte d'El Piey D. Pedro II ,
cessara de acompanhar annual mente os na-
vios do eommercio até aquém do Atlântico,
1/68 f0i (]e novo posta em actividade; por con-
í j 4 0 yeneces com o Gabinete de Londres, conside-
ravel porção de géneros brasileiros entrava
regularmente nas alfândegas britânicas ; mais
de 20,000 Açoritas vierãoaugmentár o numero
dos agrícolas em todo o Estado; liuma lei
sábia e philanthrópica restituio a liberdade
a todos os indígenas, indevidamente escravi-
sados3 e convidou muitas Tribus á catequi-
zaçao», razoáveis e bem administrados tribu-
tos, repararão muitas fortificações e edifícios
públicos, de que apenas se vião as ruínas*, e
finalmente, 10 escolas regulares de Bellas
Letras forão erradas nas d i Aferentes Capita- 1
nias. Francisco Xavier de Carvalho , irmão
do illuslre Marquez, veio, na qualidade de
Vicerey , encarregado da execução d estas sa-
lutares medidas.
A inveja, porem, e abaixa intriga, não
tardarão, por moí te do Monarcha , em der-
ribar o esclarecido Protector de Portuga] , e
com elle o ediíicio da prosperidade da Nação.
A queda do Marquez de Pombd' , no co- \
meço do reinado da Rainha D. Maria I, foi
assignalada no Brasil, pela execução de lium
tratado oneroso, que a sagacidade do liabil
Ministio tinha sabido evitar.
JNTa tranquillidade da paz , huma Armada
íicspanhola , ])om provida de Tropas , aó
4777 conimando de /). Ppí/ r.fl Cevallos, se tinha
apoderado da liba deS. Calhai ina, e commet-
tido as mais indignas barbaridades^ sem que
fosse possível resistir-lhe , pelo estado de des-
falque da Capitania-, e esk' aUcntaelo obrigou a
4777 ^,Jíq^< sa do Governo portuguez á conclusão
tio vergonhoso tratado de S. íldefonço, pelo
qual se fixarão novos limites ao Brasil, per-
dendo Portugal, a Colónia do Sacramento,
todo o ieriilorloao Norte do Caparannatuba;
e, na Afi iça, as ilhas de S. Gabriel, Annohom,
e Fernando Pó, em troco de hum mcsquiniio
terreno ao Oriente do Uraguay .
Pelo derradeiro tratado, em iCoí , se mar-
carão definitivamente as raias geraes. Esta
linha divisória com todes os paizes limitrophos
do Brasil , ainda ilfiò rcalisada , deve começar
na boca do riacho de Castilhos Grandes*, segue
pelo Aricá aoseptentriâo, procurando a íoz do
Piquiiy, e daqui á origem deste rio-, se-
i6.9
auindo depois pela serra de S. Fernando,
buscando o Paeoré; e entrando no Iguassu,
vai aguas deste a baixo até á sua emboca-
dura no. Parannâ ; passada a correntesa das
Setequedas, sobe pelo Iguiahy, e vai entiár
no mais visinlio tributário do Paraguay, de
cuja confluência em diante, este a continua
até hum ponto que dista igualmente da sua
emboradusa no Maranhão , e da união com
o Ma more ; donde segue L. O. até ao Yabary $
avançando ao Norte ás cabeceiras c!o Aciary,
vai logo pelo Parai leio tomar o rio Negra,
e por este até ao lago Paiirné j depois , aguas
do rio Branco a baixo, á serra de Tumucu-
raque, e d aqui L. O. ás montanhas de Pi*
riús.*, e cortando ao Marony , vai topar com
o Amary , na forquilha de Ba labuto; ga-
nha, na mesma direcção o Oyapock } e,
por elle até ao Oceano. 0 terreno entre o
arroio de Chuhy , e o rio Thahim , conserva-
se neutral,
22
s7o
Por muito tempo depois se conservou ©
Estado em perfeita quietação, até que hum
facto, ião notável por sèr o primeiro que no
Brasil envolve idéas de independência, como
pela singuíár incúria com que se hou verão
os principaes que nelle figurão, veio occu-
pár todos os espíritos,
I^Qg Sendo Luiz da Cunha e Menezes Governador
de Minas Geraes, teve aviso de rpie hiinia
conspiração, com o tilo de declarar indepen-
dente aquelía Caphan a , sob bum Governo
republicano, á imitação da America Ingleza,
estava a ponto de rebentar. Tão quimérico
intento não mereceo a a l tenção do Governa-
dor; e os revolucionários, ganhando maior
vigor , ti verão tempo de grangearem novos
sócios nos di Aferentes Povoados de Minas. Com
a chegada do novo Capitão General , Visconde
1788 ^e ^ar^accnai Por occasião de se effcituár a
derrama da contribuição de ouro, em que a
Capitania hera taxaJa , e de que estava de»
m
vedora , quisera o os insur gentes romper na
revolta ; mas vindo então a consideiâr que a
sua posição lopográphica, no interior d©
paiz, hera menos propícia para tal projecto^
destacarão ao Rio de Janeiro, Joaquim Jozè
da Silva Xavier , denominado o Tiraclentes 9
com o fim de allieiár maior pai tido n'este
porto. Jaze Alves Maciel, natural de Minas,
que aqui se achava de volla da Europa , asso»
verou ao emissário, que as Folencias que
tinhâo protegido a emancipação da Coloma
inuleza , não deixariâo de igualmente abraeár
a causa de Minas Geraes } e que evidente
hera o terem hum forle Exército francez, e
huma mais forte Armada hespanh<da, ou,
holandeza em seu favor , ao primeiro grito
de liberdade, que soasse no Brasil. Nada mais
necessitou o inexperto Xavier, para transpor-
tar-se a Villa Rica, contente da missão; e9
o que mais espanta, isto bastou para que os
mais dos conjurados contassem com ítiizsuc-
cesso.
\
I72
Em último acordo, os rebeldes, depois de
adoptarem novas leis, e nova bandeira* re-
solverão que , no momento em que o Governo
mandasse realisár a capitação , expressamente
retardada, se porião em movimento, sol-
tando vivas á Republica , e que a Tropa de
Ia. Linha , commandada pelo conspirado
Francisco de Paula Freire d 'Andrade , se 1 lies
uniria. Huma proclamação faria conhecer ao
Povo que ficava desonerado de todos os im-
postos ; o Governador seria preso, ou assassi-
nado em caso de resistência - e, em derra-
deiro apuro, se prometteria a liberdade aos
escravos. JN'estas circunstancias , Joaquim
Silvério di s Reis , instruído do trama, por
*|739 a elle pertencer, denunciou seus sócios ao
Visconde de Barbacena , o qual por ordem
do Vicerey D. Luiz de V ase once lios ^ os fez
prender, sem achar a mínima opposiçlo.
Joaquim Jozè da Sii a Xavier , julgado Chefe
da insurreição, expiou só, na forca , od( lirio
de todos os rebeldes, Cláudio Manuel da Costa9
•:3
e Joaquim da Silra Pinto do Rego Fortes , pe-
recerêo na prisco; 10 outros, igualmente
condemnados ao suplício, espera¥$o a horâ
fínál, encarcerados no mesmo edifício, Onde
por hum notável cnconho, alguns d'ellcs
vierão depois figurár na Asserriblea Consti-
tuinte, quando lhes foi intimada huma Carta 1792
Regia da Rainha, diregida ao Yicerey Conde
de Rezende, commulando-lhcs a pena em
exílios para diversos Presídios da Africa;
Assim se mal logrou o insensato projecto de
liuma sociedade , rpie em seu seio guardava o
gérmen da própria destruição.
A Rainha D. Maria I , at içada de mo-
léstia mental, encarregou de governar em 1793
seu nome ao Príncipe do Brasil, D. Joio;
porem , como o mal da Soberana se aggra-
vassè no seguinte anno, ficou o Príncipe
governando em qualidade de Regente dc
Portugal e seus Dominios. 1794
i<74
Chegando ao Rio Grande do Sul , a no-
iSOÍ Licia da declaração de guerra pela llespa-
nlia a Portugal, inconlinente partirão, P<í-
tricio Correa da Camara, com Tropas, aoc-
cuj ár a fionteira do Rio Pardo, e Manuel
Karcjtifs de Souz-i , a do Rio Grande. Simão
Soares , com i5o homens foi atacar o acam-
pamento de Címy, eo surprendeo e saqueou.
Jozé Antunes, que havia passado até o Hcr-
■vál, foi demolir os postos avançados caste-
lhanos do Jaguaraâ.; e iguál sorte tiverâo
todas as posições até ás visinhanças do Jacuhy,
sem exceptuar o forte de S. Tecla*, retiran-
do-se o inimigo ao Serro Largo, não sem
perda de todas as munições e petrechos de
guerra, que lhe forHo capturados pelos Por-
tuguezes no lugár doBatuvy. Os Hespanhoes
postai ão-se na margem meridional do Ja-
guarfo, e os contrários na septcntrionál ,
d onde, depois de terem os últimos, em dif-
fe rentes avançadas, feito 5o prisioneiros 5
partirão em numeio de 1^200 , ao ataque
4
t7§
\ío Serro Largo. Aos primeiros liros ficarão
os Porluguezes senhores de hunia obra avan-
çada ; porém a aproximação de grande re-
forço, que ao inimigo vinha de Montevideo,
os obrigou a retirar ao abarracamento do
Jaguar ao , onde, já em presença de todo o
Exercito rival, es ta vão dispostos a huma de-
cisiva acção, quando ali chegou a noticia da
paz. \ 302
Rompido o tratado dWmiens, começou a 1£03
guerra entre França, clnglaterre, succedendo
o systema continental , ao impraticável pro-
jecto de huma invasão furtiva na Gran Bre-
tanha. P ortugal , que pela mediação da Rússia
e Prússia , caro comprara a neutralidade, que
escrupulosamente guardou até ao famigerado
Decreto de Milão, recusou fechar seus portos
á bandeira britânica*, e Napoleão, quiz, em
troco, riscar-lhe o nome da carta politica
d Europa. A ambiciosa inépcia do Príncipe
da PaZ) secundou os intentos do Guerreiro,
■ %.
e pelo aério tratado cie Fontainebleau , foi
otlominio de Portugal repartido entre aqm lie
Ministro, e o Rey iVEtrúria. Iluma Divislo
ao cominando do General J unot , marchou
1807 logo sobre Lisboa.
QUINTA ÉPOCiL
brasil como &foe ira Monavclpa poviu-
No momento em que a vanguarda do Exer-
cito francez pizava a terra lusitana, o Prín-
cipe Regente, cedendo ás instancias de seus
Conselheiros collaboradores da politica in-
gleza , se dispunha a sahír do Tejo, com a
Real Familia , e abandonando , Reino, forti-
178
ficaçoes, arcenaes e soldados, a hum inimigo
pérfido, Trio buscar asilo no Estado do
Brasil. Assim, chegado hera o tempo em
que a vasta America, até ali refugio de obs-
curos desvalidos, devia oílerecer nova Patria
aos Príncipes perseguidos pela revolução.
Á Real Armada de 9 náos de linha, acom-
panhada por huma Esquadra ingleza, e com
destino ao Rio de Janeiro, fendo experimen-
tado contratempos que a dividirão, alguns
vasos, e entre estes, o que transportava o
Príncipe Regente, arribarão á Capitania da
1803 B*liia-
Liberdade de eommercio. — Conquista de Cayenn».
Pahiótiea administração. — O Brasil elevado a Rei-
uo. — Campanha do Sul.
Mal hera chegado o Príncipe Regente,
aos seus Falados da America, quando, annuin-
do ás representações do Conde da Ponte ,
'79
Governador da Bahia, soltou o último am'l
do grilhão co'omál , que prendia o Povo Rra-
sileiíoá Metropoli , promulgando na Cidade i 808
de S. Salvador a immortál Carta Regia, que
concedeo livre e franca entrada nos portos
do Brasil, aos navios de todas as Nações em
paz com a Coroa portngueza, que transpor-
tassem quaesquer mercadorias.
Depois de curta residência na Balua, veio
o Príncipe Regente unir-se ao lesto da Real
Familia no Rio de Janeiro, onde estabcíeceo
a primeira Corte monárchica do Novo Mun-
do.
A guerra em que laboravão a Inglaterra
e Portugal , contra Napoleão , justiíicava
qualquer empresa tentada por estíS Poten-
cias, sobre possessões íianc^zas ; assim, ex-
pedio-se ordem ao Governador do Paia, Jozé
Nareizo de Magalhães e Menezes ^ para que
fizesse marchar as Ti opas d aquella, Capitania
,i8o
eontrs a Guyanna Franceza , enviando-lhe
em apoio 2 embarcações de guerra. João
Guilherme Fo, commandando huma Fragata
ingleza, devia cooperar para a conquista.
Manuel Marques , Chefe da expedição, com-
posta de 55o homens, soldados, e marinhei"
ros , senhoreou-se cm dois dias de todos os
pontos fortificados do continente; e, ao au-
xilio de falsa promessa de liberdade aos es-
cravos de Cayenna, obrigou o Governador
Victor Hugo a pedir capitulação. Os Por-
tuguezes entrarão íriumph antes na Praça,
1809 onde se arvorou a bandeira nacional , sabindo
a guarnição franceza, de 600 praças, com
todas as honras da guerra, sob condieçao de
ser transporta á França em navios portugue-
zes. Dest'arte avançarão os limites do Brasil
á foz do Marony , ate ser a Colónia resti-
tuída ao antigo dominio, pelo tratado de
paz geral em 1 8 1 5 .
Nao poucos forao os augmentos que e
iSi
Brasil recebeo com a fixação do domicilio
Real em seu fértil seio. No armo de i3o8
começou a brotar para este continente huma
fonte de prosperidades, devida principal*
mente á solicitude do Ministro D. Rodrigo de
Souza Coutinho, depois Conde de Linhares ,
benignamente acolhida por hum Príncipe
bemfazejo. A' influencia dVste benemérito
varão na governança se deve o Alvará de
aboli cio dos obstáculos que to] Lião a indús-
tria, permittindo no Brasil todo o género
de manufacturai j a ereação do Banco do
Brasilj a instalação de hum Tribunal en-
carregado de vigiar pelas cousas do comurer-
cio, fabricas, agricultura , e navegação a
Escola Mcdico-Cirúrgica; o Archivo Militar,
e huma Typographia. A milícia recebeo do
conspícuo Ministro, a ereaçuo da Academia
Militar, a cio Arcenál do Exercito, e Fabrica ^ §j \
de Pólvora. Aos Governadores das diíTercntcs
Capitanias se proporcionarão os meios de
abrir e facilitar as communicaçces entre os
182
P voados; e riVste artigo se deve agradecer
ao Conde de Linhares, atém de outras, a
estiada de \i\ legoas entre o Registo de S.
1812 Maiia, e o Porlo do Pontal, concluída com
pasmosa brevidade. A' lavoura coube o con-
tingente de 54o casaes de Açoritas, que se
espalharão pelo 11 i o ele Janeiro, Baliia, Es-
pirito Santo, S. Faido , e Minas. Cento e oi-
tenta plantadores Ciiinezes vierao oceuparern-
se na cultura do xa *, e deo-sc começo a 4
Jardins Botânicos, em diversas Capitanias 5
concedendo-se generosos prémios, pecuniá-
rios, ou bonoriíicos , aos que introdusissem
110 Brasil quaesquér plantas rarase forasteiras.
Tacs são, mui resumidamente , os principaes
traços da administração deste acrisolado
amante do Brasil , que a mais alto o elevaria,
1C12 se tão cedo a morte o não aeommettera : gra-
tidão tributem os Brasileiros á memoria d®
Ministro Cidadão.
Os successores do Conde de Linhares , nâ»
i83
tem infelizmente direito a igual histórica
mens^o*, o Governo jaseo 3 annos em quasi
perfeita apathía, até que o Príncipe Regente ,
tendo creado , além de muitos Tribunaes
necessários á moderna Côrte de tão cs tensos
Dominios, 10 novas Comarcas, e 29 Villas ,
ill ustrou o Brasil com o titulo de Reino, unido 181
aos de Portugal e Algarves.
Havendo-se, pelos annos de 1808, e 1809,
atea lo em Buenos Ayres o fogo da insurreição,
alçando aquelles Povos o estandarte da inde-
pendência, ali começou a lavrár a horrorosa
guerra de partidos, que tão longa c san-
guinária Linha de ser. As fronteiras do Bra-
sil se acha vão ameaçadas, c Montevideo, fiel á
Metropoli, pedia soccorro ao Governo portu-
guezj mal logrados os meios de concórdia, se
ordenou em 18 1 1 , ao General D. Diogo dt
Souza, que, com hum bom corpo de Tropas de
S. Paulo, Rio Grande, eS. Catharina, fos e
levantar o cerco daquella Praça, e repelar
i&4
os rebeldes para âlétn do Prata. O General
penetrou até Maldonado \ mas o inimigo
apressa ndo-se em firmar armistício com o Go-
verno de Montevideo, voltarão sem fructo
os Poriuguezes, ao cabo de mil sofrimentos.
Tornando ainda os insurgen tesa invadirem
o território do lado oriental do Prata, mar-
iQ\6 chou a combatel-os burna luzidissima Divisão
do Exército de Portugal, que, debaixo do
com mando do General Carlos Frederico Lccor,
depois Barão , e Visconde da Laguna, tinha
voluntariamente vindo d'aquelle Reino. Eni
quanto esta Divisão lutava para livrar Mon-
tevideo dos ataques praticados pelos bravios
bandos do Chefe D. Fructuoso Rivera , o Ge-
neral Joaquim Xavier Curado , que foi Conde
de S. João das Duas Barras, se achava no
território do Uraguay , com as babeis Tropas
do Sul do Brasil > para obstar a sublevação
dos Povos de Missões, queemprendia o Chefe
D. Jozé Artigas, trasendo suas correrias até
i85_
ao Rio Pardo. DVsta Divisão, destacou aJozé
de Abreo, depois Barão do Serro Largo , com
63o homens, o qual, depois de ter varrido
a margem do Uraguay, desde Japejú até S.
Borja, das partidas epie a infestavão, doo ba-
talha ás forças de Artigas neste liltimo ponto,
e obrigou a debandarem 1,400 insm gentes,
ficando no campo muitos Portuguezes. Parte
dos inimigos, que na retirada procurarão
o Passo do Uraguay, íorao perseguidos, e
forçados a precipitarem-se no rio. Pouco de-
pois o General João de Deos Mcna Barreto ,
por ordem de Curado, marchou com 53o ho-
mens contra hum troço do inimigo, que veio
assolar o território entre o Guaraim, e o
Ubaraguay, e carregando com vivesa sobre
ellc, lhe rompeo e desbaratou a principal
columnaj vindo depois reunir-se ao resto da
Divisão, nas fronteiras do Rio Grande.
Recebendo-se depois aqui notícia de que o
inimigo destacara 3, Soo homens coa-
24
i86
dnsiilos pelo Chefe D. Jozé Verdum , ao
encontro dos Portuguezes, mandou o Ge-
neral Marquez de A le grele , a Joze de Abreo y
com 5oo soldados acommetler Artigas, na
sua posição do A rapa y, ent~o mal guarneci la;
o que aquclle Chefe executou por maneira
que, matando 700 homens aos de Arti-
gas , senhoreou- se do poslo , perdendo
aliás 120 dos seus. Chegando Verdum ao lu-
gar do Ca talam , onde acam pavão as Tropas
portuguezas , achando-as desprevenidas, ca-
hio de improviso sobre ellas , e as teria cor-
tado , se o General Joaquim de Oliveira Alva-
res 3 não remediasse a lâo imperdoável negli-
gencia , oppondo-se bizarramente com a Le-
gião de S. Paulo, até chegar Abreo, que de
prompto veio soccorrer a direita da columna j
e tal foi a disposição e bravura das Tropas,
que o inimigo experimentou a mais completa
derrota: hum estandarte , muito armamen-
to, 1 canhões, 214 prisioneiros, e 5, 000 ca-
1817 vallos, forão os despojos da victoria.
■
i$7
Constando mais ao General Curado , que
os insurgcntes tinhão a sua vanguarda de
Soo homens em Belém 4 enviou 100 praças
coinmandadas por Z?fnto Manuel Ribeiro, para
os surprender-, a intrepidez deste official
vingou o projecto, e Verdum foi aprisionado
e condusido a Portalegre com muitos outros
He.spanhoes. 1817
Em Missões, o General Francisco das Cha-
gas Santos, se oppunha com vantagem ás
numerosas e bárbaras guerrilhas inimigas,
que percorri ão todo aquelle território*, em
quanto o General Manuel Marques de Souza,
distribuía com acerto *j5o homens pelas fron-
teiras do Rio Grande, e as garantia do con-
tágio revolucionário.
Por outra parte, o General Lecor , á testa
da sua Divisão, avançando pelas campinas
do Sul, dtstacou o General Sebastião Pinto
de Araujo Correa^ com alguma Tropa; e est»
m
se apossou do Forte de S. Thereza , quasi sem
resistência; e transportando-se ao Passo do
Chafuiote, ali bateo os insurgentes , causan-
do-lhes perda de 1 5 mortos, e mais prisio-
neiros. Como o inimigo voltasse a campo,
em maior número , condusido pelo Chefe
Rivera , foi o mesmo General Pinto recebel-o
no lugár da Índia Mor la, onde se travou
porfiada acç?o , ficando a final a Victoria aos
Portuguezes, com perda de sós 34 guerreiros,
em troco de 160 inimigos. Foi o General Le-
cor , depois acampar em Maldonado , d'onde
marchou sobre Montevideo, tendo previa-
mente combinado os seus movimentos com
os da pequena Esquadra corn mandada pelo
Conde de Viãnna. Hum a deputação do Cavildo
o veio receber, entregando-lhe as chaves da
7 Praça, onde entrou tríuinplianíe; havendo-a
já a esle tempo evacuado o Chefe D. Manuel
Barreros, delegado de Artigas , fugindo pre-
cipitadamente com a guarnição. D'aquí man-
dou o General em Chefe 5 a Manuel Jorge
igg
Rodrigues, com i Batalhões occnpár a Coló-
nia do Sacramento, revolucionada a favor
dos nossos, pe lo Portuguez Fasqiies) e huina
Brigada a senhoreai -se do Serro Largo.
Tacs forao os principaes feitos do Exército
naaberlura tia campanha do Sul. A (ninada
de Montevideo, Colónia, é Maldonado, alem
de sei" hum bi ilhante começo de operações ,
muito cÒncòrreo â princípio para oHiminui-
mento dos numerosos Piratas que, com ban-
deira de Artigas 3 infestavão os mares, por
ficarem assim privados dos principaes portos
onde se arma vão , c recclJiiâo,
Revolução em Pernambuco. — Cnznmmto elo Príncipe
Real. — Àcelamação d'El Pey D. Jo^o \I. — Segundo
período da campanha do bui.
Em quanto as armas do Príncipe Rebente
tr umphavuo na parte meridional do Brasil,
se forjava em Pernambuco huma conspirae o
enraizada na Europa , cm que en travão pes-
soas influentes de iodas as classes, com o fito
de piomover a mudança politica , que
teve depois lugâr. 0 conjurado Jozé de
Barros Lima, por alcunha Leão Coroado,
officialde Artilheria, sendo reprehendido pelo
General Manuel Joaquim Barboza de Castro,
julgou-se traindo, e arrancando da espada o
assassinou ^ pondo logo os soldados em deci-
dida rebelliâo \ acodio hum delegado do Go-
vernador , o Coronel Alexandre T/wmaz^ que
igualmente expirou aos tiros dos revoltados;
entre tanto, o Chefe da insurreição, Domin-
gos Jozé Martinz, congrega os conspirados;
amulina o Povo , e a demais Tropa, fazendo
scár hum rebate geral; calca aos pe's a ban-
deira nacional ; proclama-se independente
1817 do Príncipe Piegente , e institue hum Go-
verno Provisório composto delíe, e 5 dos
r/iais sanhudos revolucionários, em despeito
das fracas providencias do Governador Caetã"
no Pinto de Miranda, Montenegro , que corre
J9*
a encerrar-se no Foi te do Brum , onv c foi
logo posto em sitio, e obrigado a capitulár,
e recolher-se á Corte , trasendo tSo infausta
nova.
Em quanto os insurgentes, contando com
a adhesão de ou tias Capitanias, vacila vão na
escolha da constituição que deviâo adoptar ,
para tirmarem seus mal baseados planos, o
Conde dos Arcos , Governador da Bahia , ins-
truido da explosão, que havia rebentado no
Recife, e começava a lavrar por longe, faz mar-
char toda a sua Tropa sobre Pernambuco,
commani!ada pela General Joaquim de Melo
Leite Cogominliode Lacerda, e ao mesmo tempo
liuma Esquadrilha entregue a Rufino Peres
Baptista, punha rigoroso sitio ao porto do
Recife.
Do Rio de Janeiro se expede incontinente
huma Esquadra ao cominando do Chefe Ro-
drigo Jozé Ferreira Lobo, para augmentár o
bloqueio, e, pouco depois, outra, transpor-*
tando huma vistosa Divisão, preparada com
rapidez ^ e commandada peio General Luiz
do Rego Barreio, nomeado Governador de
Pernambuco.
A este tempo se aproxima vâ o j \ as Tropas
da Bahia *, e Martinz , deixando a cadeira eu-
riál a Domingos Tkeotonio Jorge, sahio a
campo para debellár es do General Lacada',
porem , não obstante faltarem a estes as
precisas munições de guerra, forao ven-
cidos e postes em fuga os revoltados, nos
campos dlpojuea; embrenbandp*se huns ,■
outros sendo Jogo presos, e remetlidos para
a Ca pi lá l de Pernambuco, e para a Bahia;
e com estís Martinz, cabeça da insurreição.
Instruídos os do Provisoiio, do mio êxito
da peleja, e succuinbindo ao aperto do blo-
queio, dissolver.lo-sc , e entregarão o Governo
ao Çhefe Iferr eira Lobo,
>9^
Cbégándo o General Rego á Bahia , e sa-
be" rn! o da dissipação da revolta, seguio paia
Pernambuco, ònde tomou posse do Governo.
Huma Commis>ão Militar instalada nYsta
Capitania, e ou Ira na Bahia, julgarão os
rcos. Domingos Jozê Martini , e 11 outros,
perderão ávida; muitos sofrerão degredo, 1317
e os demais complicados forno absolvidos
por hum decreto do Príncipe Regente. A paz
se restabelcceo em Pernambuco, depois de
mallogrado este immaturo plano de libertado,
cuja execução rompeu |>or d; is assassínios do-
brad mente crimino os. Esta Capitania apre-
sentou ern pouco, o mais brilhante aspreto
mililár cftie se tenha visto em nenhuma das
do Brasil.
Em contraste com as scenas do Norte, se
celebravão na Corte os desposórios do Prin-
cipeRealD. Pedi o d'A:cantara , com a Archi-
duqueza cPAustria D. Maria Leopoldina Jo-
zefa Carolina; e o Principe Regente D. ^817
20
*94
í§\8 João, subia ao primeiro sólio da America,
vago pela morte da Rainha D. Maria I.
A funesta lição que o Governo acabava
de receber no movimento revolucionário
de Pernambuco, foi todavia mal pezada na
Capital. El Rey D. João VI, que melhor
conhecia o damnOj do que bera capaz de
appliear-Uie as rigorosas medidas, a que se
oppunha seu caracter plácido e hemfazente,
contenloiwe com mandar vir de Portugal
buma porção de Tropas regulares, que se
repartirão pelo Rio de Janeiro, Bahia, e
Pernambuco, deixando a interna adminis-
tração,, na sua quasi absoluta decadência;
tudo permanecia na mornidlo que costuma
presagiár os grandes successos políticos.
Còntimiavao a vagar ousados nos cam-'
pos de Mentevideo, c margens do Uraguay,
as guerrilhas de D. Jose A rti gas , mais con-
fiadas na ligeuesa de seus cavaílos, e na
"95
summn destresa com que mancjav^o o laço e
Lolas, do que na disciplina militar, e conli-
nuavão sempre os nossos a rcpillil-o£. O
General Bernardo da Silveira Pinto , enviou
45o homens surprender algumas partidas
postadas no silio do Figueredo , o que con-
seguido pela boa direcção de Caetano rílberio
df Souza Canavarro , repassando este o arroio
do Pando, veio cahír sobie o ílanco direito
de huma grande columna inimiga, e a dis- 3 1 3
persou.
0 General Francisco das Chagas S mtos ,
em Missões, eo:n 700 homens ataça (;oo ini-
migos, no lugar de S. Cai los* os Insurgen-
tes se entrincheirão no Collegio, e pelas
ja 11 cl las e abertas da Igreja fazem aetivissimd
fo^o -, mas o General manda cercar em roda
o Povoado pela Cavai laria- e ^.00 infantes de
S. Catharina, subindo ao alto das cazas, fí-
zerâo e m successivo tiroteio suecumbír es
contrários, que deixarão, alJm cie muitas
iqô
petrechos e munições, 90 mortos, e 384
prisioneiros , perecendo íi elos nossos, e fi-
cando prisioneiros 34. Retirou-se o inimigo
ao Povoado da Purificação, onde, perseguido
pelo General Curado , lhe abandonou a po-
sição, e marchou a acampar jnnlo ao ar-
roio de Gnahejú. Aqui, o General Mata
Barreio o foi acommetíer com io3o homens*,
e , aproveitando com o maior acerto todos os
favoráveis accidenles do terreno, e distri-
buindo as suas Tropas de todas as Armas,
com rara habilidade, caminhou para o ini-
migo , e o pôs em fuga depois de curta batalha,
deixando no campo o Chefe Aron la 1 33 mor-
tos, e 2"jo prisioneiros, além de outros, que ac-
cossados pelos nossos lanceiros, <e precipitai âo
no lago. Todo o armamento, e 600 cavallos,
ficarão ao General Mena Barreio. Esta bri-
jg lhante victoria he assistida da pasmosa cir-
cunstancia, de só ter custaio a vida a hum
único soldado nosso.
197
Escandalisado o inimigo, das muitas per-
das que em seus irregulares cornija tes tinha
sempre experimentado contra os nossos*, aban-
donado da esperança, não só de assim poder
ainda regauhár os principaes pontos for-
tificados, mas de conservar o terreno que
occupava , projectou dár Luma batalha em
ordem com toda a sua força para isto ,
reunio na margem do Uraguay as Tropas dos
Chefes Aguidr, Aedo , e Ramires , que mon-
ta\âo a 800 homens, e pertendia marchar a
encontrar-se com as forcas de Ar ligas , a quem
já se havia juntado a gente de Rivera. Ins-
truído efisto o General Curado , mandou
Bento Manuel Ribeiro, com 56o homens ,
atacar este reforço. O inimigo dividio-se cm
duas columnas, ameaçando os flancos dos
nossos j porém o Commandante Portuguez r
ca h indo sobre huma , a desbaratou , e a ou-
tra tomou a fuga. Foi notável o valor que
nVsta acção desenvolverão os oííiciaes., Jozé
Luiz ftUna R atrelo, e Jozé Cardoso de Souza 5
195
rívalisando com ?eu valente Capit~o. Oâ
Chefes Jguidr, e Acéo, u 33o dos seus, se reffe-
18 trerão pHsioBtiçot.
Muito honrosa mcnsão aqui merecem o%
serviços prestados pela- Esquadrilha de 5 va-
sos, com ma ndada por- Jacinto Roque de Sena
Pereira , que tendo cons< guido penetiár e
sul)ír o rio Uraguay, a brio communicoe~o
coín as Tropas de Curado , cortando a da van-
guarda de Artigas , com seus depósitos* NVsta
última acç*o , a Esquadrilha, depois deter
ofíerecido transporte aos de />. M. Ribeiro ,
com admirável rapidez, aprisionou no espaço
de 5 dias , 1 9 embarcações inimigas.
Ao mesmo tempo, Antero Jozé Ferreira dê
Brito, Commandante do Posto de Castilhos ,
surprende as partidas de La Torre , e Pa nxo,
8 e aprisiona estes Chefes.
Da Divisão do Barão da Laguna, foi ©
m
General Jorge de Acilez Zuzatte, bater o
inimigo noPasso d' Arenas , em quanto da eo-
lumna de Curado, sahia de novo B M. /ií-
beiro com 600 homens , a atacar o Chefe
Rivera, que se liavia transportado ao Airoio
Grande, sahindo dVstas pelejas os nossos, co-
mo as mais das vezes? victoriosos :, 3jo inimi-
gos suecumbirâo. 1819
Conseguindo Artigas^ alguns mezes depois
juntar 2,000 homens, tenum traser até ao
nosso território a vingança de tão repetidas
desfeitas; e avançando ás fronteiras, veio fa-
zer gerál saque e destroço. O General Abrea
se lhe oppos com 4°^> homens, para proteger
a retirada dos fazendeiros', porém, atacado
com vigor pelo inimigo, foi cortado*, e cons-
trangido a retirar-sc em debandada ao Passo 1S19
do Rosario, deixando 5o mortos , e 60 pri-
sioneiros* Pieunindo-se-llie aqui o General
Benlo Correa da Camara, marcharão juntos
ao encontro dos de Artigas , c, depois de
200
trez acções parceaes, lendo na principal,
que foi no Passo do Ibicuy, sofrido o ini-
migo a perda de 6o soldados., foi ao fazer
face a toda a força contraria , que sob a di-
recçc.o do Chefe La Torre, acampava na
margem esquerda do Taquarembó. O Gene-
ral Conde da Figueira, que a este tempo tnha
vindo tomar o cominando dos nossos, man-
dou o General Ahreo com a sua Brigada aía-
cár de frente o inimigo, em quanto o Gene-
ral Camara, passando bum ramo de Taqua-
rembó, lhe ameaçava o flanco; o primeiro
arrostou com tal impetuosidade que, forçan-
do primeiro La Torre a perder terreno, e
tomar segunda posição, defendida pelo rio ,
o compeli io a fonál, não obstante a forte
Artiiheria adversa , por meio de bum fogo
continuo, e bem condusido, a retirar- se em
desordem, abandonando , alem de numerosos
petrechos de guerra, e muita munição, 800
mortos , incluido o Chefe Solelío, e 49° pri-
sioneiros, perdendo nós somente 36 homens.
201
Depois (Testa gloriosa victoria, o Conde det
Figueira , mandando varrer o resto da cam-
panha até ao Uraguay, estabelecco postos
avançados ao longo a este rio , e do Arapay ;
os quacs, combinados com a Esquadrilha,
derão huma tran qni 11 idade , bem que tran-
sitória, ás nossas fronteiras, que, por tempos
depois, só forâo ameaçadas por pequenas par-
tidas inimigas.
Este segundo período da guerra do Sul ,
como o primeiro, mostra a vantagem em que
os nossos quasi sempre se mantiverâo, o*u ba-
tendo os msurgèntes., quando clles ousavão
apresentarem-se, ou obrigando-os a fugirem,
para nlio eombalerem. Com tudo, os Piratas
Artiguenhos, encontrando na desleal ma-
lícia ingleza, protecção e abrigo, coalhavão
cs mares, e nos iiiterceptavão a navegação
costeira. Mais sofríamos nós vencedores, do
que os contrários vencidos.
26
202
Noya Constituição Politica. — Reunião eleitoral no Rio de
Janeiro. — Regresso cTEl Rey D. João VI. — O Principe
Real D. Pedro fica Regente do Brasih
Se a infância das Nações se prolonga pela
falta de movimento social, o excesso d'este
movimento as decompõe; a Historia da Mo-
narchia porto gueza dá óbvio exemplo desta
verdade.
Portugal , sendo hum peejueno Estado ,
estendeo o seu dominio sobre mais vasto uni-
verso, do que aquelleque outrliora fez appel-
lidar os Romanos Reis do mundo ; porém,
estes fortificavao-se ao passo que sealargavao,
pela incorporação dos Povos vencidos, o que
Portugal não podia fazer, por que a menor
das difficnldades seria o longo aífastamenío
das terras conquistadas. Os Romanos forão
os mais tolerantes dos conquistadores \ Lerão
polylheistas, e, por toda a parfe encontrando
20 3
polytheismo , só impunhão leis civis*, os Po-
vos cliristãos que engrandecerão pela força
das armas, não offerecerão hum pantheon
aos Deoses estrangeiros: vencerão, mas não
conservarão. Assim, Portugal não pôde ser-
vir-se de Povos contra outros Povos \ durante
mais de hum século precisou recrutar, de
annos a annos em novas gerações , para sus-
tentar as conquistas por combates successivos:
eis a primeira causa de sua decadência.
A segunda está na repelida expulsão das
raças moura?, e judias , que formavãoa parte
essencialmente agrícola e industriosa da Na-
ção,
A terceira se encontra no resultado da falsa
prosperidade proveniente das riquesas orien-
tacs, e das minas d' America. O ouro fugia ,
e o abandono phisico e morál., o horror ao
trabalho, gerados pela sua possessão, íicavão
incuráveis *, desaparecia o ouro, e a industria.
20 4
filb.a da poferesa ■ se nascia , não vingava • de
lodos os lados aírluião cobiçosos alliados , pre-
nhes do producto de seus apurados trabalhos.
A quarta causa, finalmente, da decadência
portugueza , e amais radical , se reconhece
na superstição e monaquismo. 0 progresso
das artes manuaes hé sempre proporcional
ao das sciencias inlellectuaes j e como pode-
iiao estas florecer á face da inquisição?
O Marquez de Pombal , pertendeo , como
vimos , reedificar o gôthico mon u mento d'esta
illustre sociedade ; porém , se para isto abun-
dava em forças, faltou-lhe o tempo; depois
d'elle , a derradeira recahida foi fatal \ a roá-
china politica se achava já desmontada pelos
choques de tantas transições súbitas de hum a
a outra existência,, e a Inglaterra saltou de
novo sobre a moribunda Lusitânia.
Se aos ponderados motivos da desgraça d©
205
Portugal, se junta o abandono em que o dei-
xara o Governo, redusindo para sempre huni
velho Reino da encanecida Europa, hum
Reino fundador d'Estados, a desdenhado' vas-
salo de hum paiz remoto, se verá quanta ne-
cessidade de completa regeneração sentiria o
natural orgulho portuguez, no momento em
que soou na Hespanha a voz da liberdade,
e com quanta electricidade revolucionaria ?e
devia ali cotamunicàr o nobre movimento
de seus visinhos.
A guarnição militar da Cidade do Porto íleo
o exemplo, proclamando a convocação de aiím \ g0()
Congresso nocionál, no qual se reconheces-
sem como prineipaes bases da deforma', a Reli-
gião dominante, e El Rey D. João Ví, com sua
Real Dynastia; lodo o Portugal repeti o logo
unissone : Constituição \ e este mágico son,
transpondo o immenso Oceano, sem nada
perder do seu vigor , veio repercutir nas ma*
2QÚ
gestosas plagas brasileiras, apczâr da mm*
tenciado Monarcha, habilmente capeada pelo
Ministro influente Tlwmaz Antonio de Villa
Nova Portugal.
0 Pará foi primeiro em erguer a voz re-
1821 volucionaria, depondo o Governador Conde
de Villa Flor , e substitui ndo-lhe huma Junta
Provisória. Domingos Simões da Cunha , hum
dos que mais cfFicaz mente tinha cooperado
na revolta , foi levár congratulação ás Cortes
Constituintes, já instaladas em Lisboa.
Na Bahia, Jozc Pedro de Freitas Guimarães y
1821 amutinandoa Tropa, á frente d'ella rompeo
no grito constitucional ; e como Hermógenes-
Francisco de Agtáldr, se lhe opposesse com
alguns soldados por parte do Governo , man-
dou contra cile disparár hum tiro de mi tra-
lha , e o assassinou, matando, e ferindo ou-
tros. Instaiou-se huma Junta Governativa
207
com só obediência ás Cortes, cuja presidência
foi recusada pelo Governador Conde de pal-
ma.
L. do Rego Barreto* Governador de Per-
nambuco , instruído do humor revolucionário
de que estava possuída aquella Capitania,
quiz transigir com a quasi geral opinião ,
e se declarou adhercnte a Portugal, por iiu- 1821
ma proclamação cm que , n^o obstante seu
brio militar, timoratas malignamente attri-
buía todos os vícios que se podessem nolár no
seu Governo , ao abuso de a uthor idades secun-
dárias.
Chegando á Capital a nova do rompi-
mento na Bahia, o General Jorge de Avilez
Zuzarte, Commandante das Tropas poriu-
guezas aqui estacionadas, passando secretos
avizos a diíFerentes oíliciaes dos Corpos, foi
formár a guarnição no largo do Rocio , no
intuito de ali proclamár a nova Ordem Poli-
3o8
tica. O Príncipe D. Pedro, porem, que , por
activíssima vigilância linha alcançado prévio
conhecimento cias manobras do General e
seus sócios, solícito em garantir o Estado
e El Rey seu Pay , de qualquer terrível con-
ílicto, veio aparecer á frente das Tropas,
e, tomando a iniciativa, subi o á varanda
exterior do Theátro de S. João, e ali leo
hum decreto, pelo qual El Rey D. João
VI aprovava a Constituição da Monarchia ,
tal como a fizessem as Cortes em Lisboa • e
1 82 1 h>go prestando juramento, em nome d7 El Rey,
e cm seu nome , o fez repetir por todas as
personagens ali chamadas , e pela Tropa ;
publicando depois o novo Ministério nomeado
por El Rey. Assim se concluío pacificamente
este magestoso acto, ao son de geraes e sin-
ceros vivas, redobrados ainda com a pre-
sença do Monarcha, algumas horas depois.
Resolvendo El Puy inopinadamente partir
para a antiga Metrópolí, mandou convocar
hum Congresso dos Eleitores de Parróchia5
209
debaixo da presidencial do Magistrado Joa-
{fuimJozê de Queiroz, para ali elegerem os
Eleitores de ' Comarca, que devião escolher
os Deputados; c ao mesmo tempo lhe mos-
trava o modo de governança que ficava no
Brasil, concedendo a esta Junta oppôr a tu-
do suas observações.
Reunidos os Eleitores, e numeroso povo ,
quasi todo occultamente armado , no edifício
da Praça do Commercio; mal acabou o Pre-
sidente a leitura do Aviso de convocação,
quando rompeo o auditório em súbito alai ido,
receitando todos os meios propostos, e cla-
mando que a Constituição hespanhola fosse
logo provisoriamente adoptada. Altcrrados
os do Collegio, consentirão que huma Depu-
tação fosse a El Rey, expor-llie a requisição,
á qual o Monareha timidamente assentio,de-
clarando-o por decreto. Por outra parte, or-
denava a Junta, queas Fortalezas da barra n"o
deixassem sahir El Rey. Palavras menos de-
37
210
corosas á authoi idade Real abundavao nas
Locas de muitos dos circunstantes, exacerba-
dos com a baldada intimação do Governo ao
Presidente para levantar a sessão. Finalmente,
a noite se tinha passado na maior confusão e
delírio n'este tumultuoso Tribunal, quando
d improviso hc o edifício cercado por hum cor-
po de Tropas, que, começando por atirar
sobre os do Povo que resistirão armados, aca-
1821 bou com horrível matança nos Cidadãos que
estavao no recinto. Avalia- se em 6 mortos,
e 25 feridos, o número das víctimas de tão
bárbara medida. Justo e gcrál ressentimento
causou tal violência na Capilál.
Concluídos os preparativos da Esquadra ,
<j$21 H Rey seguio viagem para Portugal, tendo
antes revogado o decreto de adopção da Cons-
tituição liespanhola ; deixando no Brasil o
Príncipe Real D. Pedro, como Regente do
Reino, e nelle seu Lugár-Tenente, com am-
plos poderes.
/
211
SEXTA ÉPOCA.
© Ôraeil Jmpn-ia Constitucional 3nirrpfn-
Entre os espectáculos que mais enlevão na
Historia das Nações, se distinguirá sempre a
Independência do Brasil. A heróica revolu-
ção dVsta a mais preciosa porção da America,
conseguindo a regeneração de hum Povo ar-
dente e nobre, curvado por 3 longos séculos
212
ao duro rigor colonial, apresenta a singular
circunstancia de ter por Chefe aquelle mes-
mo Príncipe, a quem por direito indisputável,
tinha de primeiro caber a Coroa do Tríplice
Império. Tal foi o dote, que só ao selecto
Brasil concedeo a Providencia, nas austraes
rigiôes do Novo Mundo, para o subtrair á
deplorável sorte de seus míseros visinhos.
Começou o Príncipe D. Pedro a Regência
do Brasil, por assign alados actos de pura
constitucionalidade, promulgando salutares
decretos, e acudindo com pessoal vigilância
á pública administração.
Todavia, as Cortes de Lisboa,, na ausência
dos Deputados Brasileiros, lançava*.» os fun-
damentos de iuima Constituição, que parecia
©ílVnder os direitos do Reino limão. O en-
thusiasmò pela Melr poíi parai vsou de sú-
bito; e, em breve, a creaçâo de Juntas Go-
vernativas em todas as Províncias do Brasil,
2l3
com directa responsabilidade á Corte, se-
guida da ordem a D. Pedro para hir instruir-»
se viajando pela Europa , acabou cie exaeer^
bar os Brasileiros, mormente aqiteli.es que
não cahirão no verdadeiro fito do Congresso.
O Príncipe Regente, desobedeci do nas Pro-
víncias do Norte, e rednsido aos curtos ren-
dimentos da Capital, resolveo cumprir a
determinação das Côi tes , e regressar a Lis-
boa.
Em quanto tudo se dispunha para a sabida
do Príncipe D. Pedro, pelo Sol do Brasil
se manifestava decidida opposiçao ás ordens
de Portugal. No Rio de Janeiío, Joze Joa~
quim da Rocha dava impulso a bum reque-
rimento do Povo á Camara Municipal, a íim
de (pie esta pedisse ao Pi incipe para sobrestar
a sua partida ; e o corpo do commercio adop-
tava o mesmo expediente 5 mas, antes de le-
gadas a eííeilo estas medidas, apareceu na
3 I 4
Capital huma enérgica reprezen tacão cio Go-
verno de S. Paulo, agenciada por Jozé Bo-
nifacio de Andrada e Silva , por concessão do
Presidente João Carlos Augusto de Orynhau-
$W, contra as disposições do Congresso; a
qual , sendo precedida de dois dias, por pro-
testo em iguál sentido, com posterior data,
obtido pelo P. Manuel Rodrigues da Costa ,
e pelo emissário da Corte Paulo Barboza da
Silva, da Municipalidade da Villa de Barbace-
na, emMinas Geraes, para onde havia eseripto
J. B. de Andrada , determinou o Regente a
responder ao Presidente da Camara da Ca-
pital , Jozé Clemente Pereira, que lhe apre-
zentou a petição fluminense, com estas me-
moráveis palavras : Como hè para o bem de
todos , e felicidade gerdl da Nação , estou
2 promplo : diga ao Povo que fico \ e chegando
á varanda do Paço, disse: Agora só tenho a
recommendar-vos : União e tranquillidade.
Sobremodo contentou a Capital esta Real
2l5
resolução \ porém, o General Jorge de Âvllez
Zuzarte , zelozo defensor dos direitos do Con-
gresso , quiz-se oppôr á transgressão das suas
ordens, e obrigar o Príncipe a cumpril- as } che-
gando a apoderar-se com a Divisão lusitana,
do morro do Castelo, que domina o recinto da
Cidade, sob pretexto de se defender contra
atraiçoados ataques da milícia do paiz; mas,
á vista das promptas e violentas providencias
do Regente, pedio passar ao outro lado da
bahia, donde regressou com os seus a Por tu- 1822
gal.
0 Governo de Minas Geraes, que tinha
sido instalado, debaixo da presidência do
Governador D. Manuel de Portugal eCastro,
por hum partido das Cortes , em que princi-
palmente tiguravâo Jozé Maria Pinto Peixoto^
e Cassiano S per idi tio de Melo e Matos, negava
sujeição ao Rio de Janeiro*, porém o Prínci-
pe, em rápida viagem áquella Província,
ii6
1 £22 conciliou as facções , e as fez entrar na obe-
diência.
De volta á Capital, aceitou o Regente o
Cargo e Titulo de Defensor Perpetuo rio Brasil,
que lhe foi ofFereeido pela Camara, a requi*
1822 sição do Povo e Tropa*
Na Província de S. Paulo se haviâo des-
pei tado antigos ódios de famílias influentes,
e liuma luta começava entre diversos compe-
tidores ao com mando das Tropas ; a Junta do
Governo participava das desavenças, dei-
xando a recear maiores comnrsoções. NVstas
circunstancias, o Regente, transportando -se
ali, conseguio com sua prezença , e com
1822 adequadas providencias , apkxár os ânimos*
Vindo o Príncipe D. Pedro nos Campos
de Piranga, com grande séquito militár,
recebeo novos decretos das Cortes , nos
i
2*1
quaes se dava por nullos e irritos todos os
actos do Governo do Brasil, praticados a
pedido dos Povos e que declara vão crimi-
nosa a Junta de S. Paulo. Taes decisões,
produsindo geiál indignação , fornecerão
benigno ensejo á execução dos traçados pla-
nos*, as circunstancias urgido, e D. Pedro
levantou o grito: Independência ou morte,
geralmente aplaudido. i822
7 &CL
Chegando ao Rio de Janeiro , foi o Príncipe
Libertador , por unanime voto , no meio do
mais fervoroso entliusiasmo acclamado Zm-
perador Constitucional e Defensor Perpetuo do
Brasil. iQ^">
Reunião da Assembtéà Constituinte. — Movimentos em dif-
ferentes rrovincias. — Incorporação de Montevideo ao
Brasil.
Já a este tempo se retiravão de Portugal
os Deputados Brasileiros, e se procedia a no-
28
2iS
vas eleições para a AsseínMea Geral Consti-
tuinte e Legislativa do Império, mandadas
fazer por anteriores decretos do Príncipe Re-
gente , promulgados pelo preponderante Mi-
nistro Jozé Bonifacio de Andrada e Silva. Con-
cluídas as eleições, congregou -se a Âssembiéa.
Entre tanto, nas Províncias do Norte,
partidos dissidentes embargavão que ali vin-
gasse a frondosa árvore dos Campos de Pi-
ranga.
Já a BaLia havia sido o theatro de
dolorosas scenas, promovidas pela rivalidade
dos partidos dos Generaes Ignacio Luiz Ma-
deira de Melo , e Manuel Pedro de Freitas
Guimarães, ambos aspirantes ao cominando
das Armas; o primeiro, Chefe do destaca-
mento lusitano, hera designado por El Rey
para acjuelle exercício, ainda que sem legál ti-
tulo, e o outro, de popular nomeação, se havia
n'elle encartado por voto da Junta Provisória.
O Governo da Província tentou evitár pre-
judie iaes choques, instalando hum Conselho
Militar para commandár as Tropas*, porém
a oííicialidade lusitana compeliio o General
Madeira a não ceder. Grandes perturbações
succederão a esta resolução; Os dois partidos
antagonistas romperão em encarniçados com-
bates, que todos reverterão em calamitosas
vexações para os pacíficos habitantes *, ficando
a final Madeira na posse da authoridade
militar.
Baldadas todas as providencias da Corte,
para que de bom grado evacuasse o General
Lusilanoo território da Bahia, se enviou con-
tra elle huma Divisão entregue ao General
Pedro Labatut, auxiliada por foiças maríti-
mas ao co mm ando do Almirante Lord Co~
chrane. Madeira defendec-se com denodo em
repetidos ataques. Quem conhecer os curtos
recursos que ofíereceni os próximos arredores
da Cidade da Bahia , fará justa idéa da des-
esperada situação a que se virão redusidos
os habitantes d'ella , durante muitos mezes.
Sem o nobre patriotismo dos Proprietários
Joaquim Ignacio de Siqueira Bulcão, e An-
tonio Joaquim Pires de Carvalho e Albuquer-
que, depois, respectivamente remunerados
com os Títulos de Barão de S. Francisco > e
Visconde da Torre, tudo teria talvez succum-
Lido á fome e á miséria.
Finalmente, o General Madeira, de huma
parte fortemente cerrado pelas Tropas bra-
sileiras, e abandonado da Esquadra portu-
gueza commandada por João Felix Pereira de
Campos , que fugia de travar combate com o
Almirante Cochrane\ e por outra, temeroso
de ofíender as delicadas relações que existiâo
entre El Rey B. João VI, e seu Filho, vendo-
se forçado a deixar a Çahia , firmou capitu-
lação com Jozè Joaquim de Lima e Silva , em
quem recahira o cominando dos nossos; pois
que d elle havia sido deposto o General La-
11 1
balut , por estranha cabala suscitada no Exer-
cito pelo Chefe de Brigada Felisberto Gomes
Caldeira, Só depois do regresso dos Por-
tugnezes, se unio a Bahia francamente á Ca-
pital. 1823
A Província de Pernambuco aíFectava obe-
diência ao Rio de Janeiro-, porem a dominante
facção se declarava contra todas as authoi ida-
des que não fossem de escolha sua. Depois
de horríveis commoções, e de terem sucees-
sivamente sido expulsos os Generas , Luiz do
Rego Barreto, Jozé Maria de Moura, Jozé
Correa de Melo , e Joaquim Jozé de Almeida,
e bem assim a Brigada lusitana, ali des-
tacada , apareceo Pedro da Silca Pedrozo
eleito Commandante das Armas da Província.
Este, porém, desconfiando do Governo, seu
coevo, se insurge para o destruir, e o obriga
a retirar-se á Villa do Cabo, mas forçado
logo a ceder, hé preso, e remettido para a
Corte. 1823
222
Restabelecida a paz,, foi jurada a Indepen-
dência. Bernardo Jozè da Gama , ora Vis-
conde de Goyana , havia anteriormente pres-
tado para este efíeito notáveis serviços.
Alagoas, Parahyba, Rio Grande do Norte,
e Ceará , imitarão em tudo a marcha de Per-
nambuco.
0 bravo João Jozè da Canha Fidié , a ro-
gos e instâncias dos Piauhyenses, se propôs
a sustentar ali o systema das Cortes portu-
guezas. De acordo com o Governo do Mara-
nhão ^ pedio soccorro ao Pará , que lhe enviou
i5o homens*, porem, o Povo cearense em
massa, invadio o Piauhy, capitaneado por
Jozè Pereira Filgueiras , e á força de mil ex-
1823 cessos, ali fez jurar-se a Independência. Fi-
dié retirou-se a Caxias com hum punhado
de soldados, e sustentou valente e generosa
defeza , até que, redusido a sós 90 defensores,
fez a sua brilhante capitulação do morro da
22$
Taboca-, e, recusando agradecido os empregos
com que os Brasileiros lhe querião retribuir
generosidade, por generosidade, deixou o paiz,
onde com respeito se lhe escuta ainda o no-
me : tão bom hé ser honrado \
Proclamada a Independência em todo o
Fiauhy, d^quí se diregio convite ao Governo
do Maranhão , para que adherisse á causa bra-
sileira- e ao mesmo passo se lhe enviou hum ex-
presso cornminatorio de hostilidades, as quaes
logo se manifestarão pela suppressão dos ga-
dos. O GovernoProvisorio, que, por fundadas
anteriores razões, temia que tão violenta in-
timação tivesse mais por objecto compíical-o
em huma Independência puramente demo-
crática , do que fazel-o concordar com a reso-
lução, até então ignorada , do Imperador,
não só se recusou a eila, como fez marchar
para Caxias, em ponto confinante com Piauhy,
huma força commandada por Manuel de Souza
Pinto de Magalhães. Este, porém , inopinada-
mente se destacionou cTaquelle lugár, e re-
gressou á Cidade de S. Luiz, allegando
frívolos motivos. O Governo , de acordo com
o Commandante das Armas Agostinho An-
tonio de Faria, ordenou então que a Tropa
marchasse para a Villa d'Alcántara. Esta de-
cisão transpirando no meio do Povo, pro-
dusio amcaçadoura irrupção; numeroso con-
curso, com estrondosa vozeria, clamava que
aquella Tropa fosse desarmada , e remettida
para Lisboa *, n'este conílicto o Governo fez
executar a vontade populár.
Assim se achavão as cousas quando ali che-
gou noticia de que a Independência se havia
proclamado na Corte á sombra do throno Im-
perial; por outra lado, Jozê Felix Pereira
de Burgos, que condusia as Tropas anti-
independentes em Itapicurúmirim, de sú-
bito se declarou pelo opposto partido ; então
o Governo marcou dia para o solemne ju»
ramento da Independência. Todavia, na
225
madrugada d 'este dia , fortes grupos de povo,
instigados por homens rivaes do Governo,
sollando-se em assuada , invadirão os quar-
téis, largarão e armarão os presos, e vierão
exigir do Commandante das Armas imme-
diata proclamação da Independência 5 a Tro-
pa os repellioj porem novo embaraço sobre-
veio com a chegada dos navios que reconclu-
siâo os soldados porluguezes da Bahia. Tudo
se achava em inteira perplexidade, quando
apareceo a Esquadra brasileira commandada
por Lord Cochranc, o qual, achando nas
intenções do Governo benigno acolhimento,
acabou de dissolver os obstáculos, ea Inde-
pendência foi geralmente proclamada. Bem 1323
violências então praticou o Almirante Inglez*,
aliás guerreiro de grande nomeada.
Do Maranhão destacou Lord Coe fira ne hum
Brigue ao cominando de João Pascoé Green-
ffell, para intimar ao Pará, que annuisse á
proclamação da Independência. A chegada
29
226
dVste ofliciál, que aíFectou ser emissário de
huma forte Esquadra surta perto da Cidade,
exaltou o partido da Independência , o qual
1823 logo triumphou , sem embargo da obstinação
do General Jozè Maria de Moura de concerto
com todos os Chefes da Tropa regular. 0
General, e outros militares forão presos,
remei ti dos para Lisboa , e sofrerão a confis-
cação de seus bens.
Em vez de succeder alegre e benigna tran-
quillidade ao juramento da emancipação na-
cionál, foi este sagrado acto seguido no Pará
pelos maiores excessos. Grupos de homens
máos percorrião a Cidade em todos os sen-
tidos, e, ao soa de vivas ao Imperador, com-»
mettiao insultos, arrombamentos, espólios e
assassínios. Trinta horas de perfeita guerra ci-
vil, obrigarão finalmente o Commandante
Greenffell a descerá terra com sua equipagem,
e prender 3oo dos mais encarniçados pertur-
badores, e decidirão o Governo a mandár
227
fusilár hum individuo de cada corpo militái
complicado nas desordens. Todavia , tudo
fazia recear que , no estado actual do movi-
mento popular, os criminosos i:*: j* tivessem
seguros na cadèa, e GreenffeM fez recolher
258 homens ao poráõ de huma galiera , para
onde disparou contra elles alguns tiros.
A madrugada do seguinte dia veio aclarar
o mais pungente espectáculo : 254 homens
asphyxiados cobi ião em montões as cavernas
do navio! As desordens continuarão n'esta 1823
Província, até á chegada do Presidente
Jozé de Araujo Rozo, que prendeo os motores
apparentes d e! las.
A Divisão lusitana estacionada em Monte-
video, havia, por hum Manifesto promovido
por Antonio Claudino Pimentel, em 1821,
resistido ao decreto que a desligava do Exér-
cito portuguez 5 e , subtraindo-se ao com-
inando de seu Chefe , o Barão da Laguna , lhe
substituío hum Conselho Militár soh a presi-
328
delicia dVste General. Quando ali se soube
o rompimento do vínculo que unia o Brasil
a Portugal, o General D. Alvaro da Costa de
Souza Macedo, concentrando-se na Praça com
4,000 soldados, sustentou hum sítio de 17
mezes contra o resto das forças do Barão da
Laguna , declarado a favor da Independência;
mas , recebendo a nova de que todos os seus
compatriotas destacados no Norte, particular-
mente os da Bahia , havião succumbido, eva-
cuou a Praça por capitulação; e dando assim
azo á execução do resolvido em 1821 pelo
Cavildo, ficou Montevideo incorporado ao
Brasil, com o nome de Estado Cisplatino.
Desde esta época , hum só soldado Luso não
mais pizou o solo brasileiro; e a bandeira
da Primavera e do Ouro ondulou altiva do
Prata ao Amasonas. Oxalá que tal se houvera
conseguido sem o sacrifício de tantas víctimas;
4,000 cidadãos úteis, tiverão que transportar
para além do Oceano seus cabedaes, montantes
229
a mais de 8o milhões de cruzados, para es-
caparem ao impune punhal da populaça , a
quem animava com tremendas recom-
mendações hum Governo terrorista, que,
pretextando hum a fantástica expedição do
Tejo, em nome da Patria assolou a Patria,
em crescente progressão do Sul ao Norte.
Dissolução da Constiluinte. — Constituição ofTeroeida pelo
Imperador. — Segunda revolução em Pernambuco. —
Atteulado na Bahia.
A agitação dos espíritos^ crescia na Capi-
tal de dia em dia; a discórdia tinha pene-
trado ate ao sanctuario augusto da lei. As dis-
cussões á cerca da marcha do Governo se ti n hão
tornado demasiadamente animadas*, e o re-
cinto da Camara hera occupado por povo , em
parte aunado ; alguns Deputados, em menos
parlaiiiétitár linguagem, parecião fulfriinár
contra o Executivo terrível anathema. O ím-
perador convencido de que o procedimento
23o
cTestes poucos Representantes da Nação, que
aliás gosavão de popular crédito, tendia
a destruir o poderio que lhe ha\ia con-
ferido a unânime vontade brasileira, resolveo
anniquilár a Assembiéa ! He assim que, na
cadèa das cousas politicas, hum erro traz
com sigo de rojo hum maior erro! O Impera-
dor fez reunir a Tropa no Campo de S. Chris-
tovão, e marchando á frente d'ella, estacionou
na praça d'AcclamaçSo, donde enviou hum a
Brigada cercar o Palacio dos Deputados. Hum
decreto promettendo mais liberal Constitui-
ção do que a composta pela Assembiéa, dis-
solvia este Corpo ■, seis de seus Membros forão
deportados para a Europa, como pensionarros
1823 do Governo, e, tempos depois, julgados inno-
centes.
Em Pouco se publicou a Constitui-
ção, organisada no Conselho d'£*stado, e
a mais liberal de quantas existem em Monar-
chias. Em todas as Provindas do Sul foi ella
s3i
logo jurada, por voto de grande maioria
dos Cidadãos, sem prévia discussão.
Todavia, na parte septentrionál do Impé-
rio produsio o violento golpe mais sérias con-
sequências. Em Pernambuco, as idéas suffo-
cadas em 1817 tomarão com os fogosos es^
criptos de Cypriano Jozè Barata de Almeida,
homem sobremaneira ardente, e avezado a
revoluções, huma expansão amedrontadora.
Manuel de Carvalho Paes de Andrade, posto
por seus comprovincianos á testado Governo
do paiz > diregio convite a todas as Províncias
do Norte, dcclarando-se independente do Rio 1824
de Janeiro, e Chefe da Confederação do Equa-
dor. Francisco Paes Barreto , nomeado pelo
Imperador , Presidente de Pernambuco, ten-
do feito inúteis esforços para se apossar da
authoridade, retirou-se ao lugár da Barra
Grande, com a diminuta força que a seu fa-
vor pôde reunir. João Taylor bloqueiou o
porto do Recife, e protegeo por már a Tropa
2S2
fugitiva, a qual, com este auxilio pode re*
sistír ás mui superiores forças que Carvalho
destacou logo em seu seguimento. A Corte
quiz conciliar os partidos nomeando hum
terceiro individuo para Presidente, e fazendo
retirár o bloqueio *, porém os insurgentes
recorrerão então a medidas terminantes para
acabarem como punhado de enthusiaslas, que,
abatidos com a retirada das forças de mar,
se achava® fortemente entrincheirados na
Barra Grande. Quatro centos homens sem
recursos, souberão resistir a toda a Tropa
de Carvalho, diregida por Jozê A nlonio Fer-
reira. Hum pequeno bloqueio enviado pelos
de Pernambuco, foi presa de duas embarca-
ções de guerra, que no momento chegarão,
ao cominando do Conde de Beaurepaire.
Carvalho pertendeo , mas debalde, occupár
as Alagoas, eParahyba.
Tristão Gonçalves de Alençdr Ararype , e
/
233
Jczè Pereira Filgueiras, decidir? o-sr a ar-
voiár no Ceará o estandarte da Confederação;
mas o Povo enfurecido teria feito sobre aque lie
partido horríveis estragos, a nlo ser enviada
do Recife liunia foiça pai a restabelecer a or-
dem.
Oecupavao ainda os pertinases defensores
da integridade do Impei io as margens do rio
Uaa, quando nas Alagoas desembalou linma
expedição mandada da Corte, ao cominando
do General Francisco de Lima e Silva ; o
qual, incorporando a sí aqueloutra força,
e levando o Engenheiro Conrado Jacob de
Riemcycr , que havia fortificado a Barra
Grande, íoi entiár por surpresa no Recife^
não obstante os esforços dos contrários,
que sofierâo grande estrago, sem matar hum
só dos atacantes. Quatio di^s depois voltarão
os insur gentes ao combate; e esla última e
desesperada acção foi mortífera para ambas
as partes. A Esquadra, comi us ida |>or Lord
3o
^34
Cochrane, coadjuvou a inteira occupaçâo do
Recife.
Os da Confederação , em número de 800,
abandonados de seu Chefe, procurarão refu-
gio no ínteiior, onde forão obrigados a en-
tregarem-se ás Tropas que os perseguirão.
Iluma Cominissio Militar em Pernambuco ,
c outra no Ceará , julgai âo os reos , dos quaes,
12 perderão a vida. Restabelecida a tranquil-
idade em Pernambuco pelas prudentes me-
didas do General Lima , foi a Constituição
geralmente jurada em todo o Norte.
Entre as vielimas da revolução de 182^ ,
que geralmente magna r2o os corações ,
se distingira João Guilherme Redtíiff, ho-
mem instando e generoso, sentenciado á
morte nos Tribunaes da Còrie, pelo crime de
ter hiiSo, por parte de Carvalho » , com 2 pe-
quenas embarcações, no intuito de contratar
com os acantonados nu Barra Grande.
s35
He na B.jJiia de piíblica notoriedade, que,
o Comrnandante das Armas Felisberto Gomes
Cal leira , tendo a principio dado viso de que-
rer annuir ao convite do Cabeça da revolu-
ção pernambucana, se mostrou nos fins de
1824 acérrimo e injusto perseguidor de todos
os militares em quem translusião ieléas de li-
berdade, e mormente dos pancgvrislas da
C n federação do Equador; entre esles, pareceo
ao General que Jozè Antonio da Si Ira Castro-
oceupava distincto lugar ; e, dando d isto
conta d Corte, o suspendeo do commaudo
do corpo que llie eslava confiado. Desde lo-
go bum tumulto militar se patenteou; o
Batalhão do Comrnandante Silva Castro, com
insubordinada arrogância exigioa reintegra-
ção d'este oííiciál ; e, como o General perse-
verasse nas medidas tomadas, cresceo a revo-
lução a ponto que, 100 homens dVsle corpo
se arrojarão a hir cercar o quartel do Chefe
Militar da Província, e intimar-lbe ordem
de prisão. 0 General cedeo, di&endo : Vou
236
fmo, com a condição de qrtc s * me nfio hade
tacdr ; pomn , mal a confiante vir ti ma
se mostrou a peito descoberto., hum dos
oííiciaes que condiisiao o piquete deo o
tremendo signal, e o General eahio Iréspas-
Í824 sa<}° por 14 balas! Quatro dos ^ompiomrtti-
dos no a l tentado perdei âo a vida* outros,
teinero os, se expatriarão voluntariamente.
Reconhecimento da independência. — Nascimento rio Prín-
cipe imperial 0. Pedro. — O Imperador dá Constituição
a Portugal, e abdica a Coroa d'aquelle Reino. — Morte
du tmneraU"i}A
1825 0 seguinte anuo, em quf por ventura co-
meçou o Brasil a gosár de bonançosa exis-
tência, foi assignalado pelo reconhecimento
da Independência, obtido do Governo portti-
guez por mediação d 'Inglaterra-. As Potencias
eus opeas vierâo logo 'x porfia buscár a alliança
do Bi a il *, assim não se tivera o nosso Governo
precipitado cm firmaí-a por tratados cujas
287
consequências promettem longa e funesta In-
fluencia na nossa vindoura prosperidade»
N^ste mesmo anno teve lugar o nascimento
«Je hum Príncipe, que veio suprir a falta
que nos deixara a morte do primeiro FilLo
do Imperador.
Kâo menos célebre se torna nos annaes
brasileiros o anuo de 1826, em (pie o Fuu-
daJor da nossa Monarehia , reconhecido,
por morte d'EI Rey D. Joio VI, eomo o ?V
Pedro de Portugal, preferindo o grandioso
Brasil ao sólio dos Aiiouços, abdicou aqucfl 1
Coroa em D. Maria da Gloria, sua primo-
génita Fillia nascida Pòrtugueza ; depois de
ter dado aos Lusitanos adequada Constimiç^o
Politica. Embora hum fascinado Príncipe
privasse acpu lia parte dos humanos , da mo le-
ia la, doce liberdade; a hora soou, em qiie^
jm lo natural progresso das luzes, o despotis-
mo tem de ceder seu* ihronos a mais braado
238
regimen.
He também digna cie memorar- se a dolorosa
perda que n'este anuo de 1 8^(5 sofrco o Brasil
fom a morte de sua jovcn , amável e instruída
Imperatriz D. Mai ia Leopoldina, modelo de
tirtudes.
Terceiro período da campanha do Sul. — Matança no Rio
de Janeiro. — Fim da campanha do Sul , e separação de
Montevideo.
Com o regresso, qnc antes mensionamos,
de grande parte do Exército do Sul , ficarão
summamente limitadas as Tropas do Barão
da Laguna , e mais enfraquecidas ainda com
as faltas de pagamento que sofrião, apezár
de todas as providencias d "es te General , e
das generosas prestações feitas por D. Tlwmaz
Garcia de Z urtiga , oi a Barão da Carrera.
Não ignoravão os Argentinos a fiaquesa cm
23g
que se acbavão os nossos; e aproveitando se
do partido existente em Montevideo a
favor da união com a Piepublica , 1 lie en-
viavão armamento , c fomentdVcIo a revolta
em toda a Banda Oi iental , a fim de des-
ligar do ímperio aquella Província ; estas,
e outras manifestas manobras, juntas a rei-
teradas reclamações da Cisplatina, derao
iugár á declaração da guerra entre o Brasil
e Buenos Ayres.
Constando a Bento Manuel Ribeiro, que os
adversários se havião reunido em número
de 2,5oo sob o Cacfe D. João Antonio
Lavalleja, e que, no lugar do Durasno ,
espera vão novos reforços para marcharem
sobre as nossas fronteiras, se diregio ao
Barão da Laguna, propondo-lhe hir bater
o inimigo em sua própria posição. 0 Ge-
neral Barão de Villa Bella , que governava
a Praça de Montevideo, rcquereo a primasia
no cominando das Tropas que se destacassem.
240
mas o Chefe, sem dar definitiva decisão, or«
denou a Bento Gonçalves, que, com a sua
Cavallaria viesse juntar-seao corpo que de-
\ia marehár. jS'este comenos , sabcndo*se que
©inimigo principiava a manobrar, concedeo
o General ena Chefe a B. M. Ribeiro, que,
com seus sós i,o<o homens mal armados, lhe
fosse reconhecer o campo; porem , este oííi-
ciai, ancioso por travar combale, topando
com Lavalle ja no lugar «'o Sarandy ,
rompeo encarniçada e temerária acção. O
inimigo, no Em de breve pleito, carregando
com vivesa sobre os flancos dos nossos, con-
seguio logo envolvel-os, e passár á espada
grande parle d'esta pouca gente, qne aqui
4825 ficou completamente derrotada, B. M. Ribei*
ro, retirou-se em debandada ás fronteiras do
Rio Grande; só Joaquim Jozè d ' A 'Lencastre f
com 200 homens persistio na luta , entre»
jraralo- se depois prisioneiro por capitulação.
Foi eslo o primeiro completo destroço que,
no Hm de 1 4 anuo» dc árdua cauiuunha p
241
sofremos, víctimas de liuma imprudente d
ambiciosa bravura.
Sobre as aguas tsnhão os nossos mais feliz
sorte*, a Esquadra brasileira ao commando
de Pedro Antonio Nunes, disputava com van-
tagem á do Almirante Guilherme Brwn , o se-
nhorio do rio da Prata.
Não teve o inimigo muito tempo para jae*
tar-se da victoria que sobre nos alcançara *,
porque, transportando-se poucos mezes de*
pois o Cíiefe Lavallejci sobre a Colónia do Sa-
cramento, teve que experimentar desastrosa 1526
derrota , vendo-se obrigado a cederá pequena,
mas brava guarnição, que, hábil mente con-
dusida pelo General Manuel Jorge Rodrigues^
pós em debanddda os numerosos atacantes.
Igual sorte ti verão as Tropas que posterior-
mente, ao commando de D, Manuel Oribes f
tentarão sitiar aquella Praça.
3i
Muito cooperarão 3 pequenos vasos desta-
cados da Esquadra de Rodrigo Jozé Ferreira
Lobo , e entregues a Frederico Mariatt, para
reagir ao ataque da Esquadsilha inififtiga,
que veio ao mesmo tempo acommeller a Co-
lónia.
Resolveo inopinadamente a Corte mandar
substituir o Chefe do nosso Exercito, Visconde
da Laguna, pelo General Marquez de Barba-
cena. Este chegou ao acampamento de S.
Anna. e sisando lo 2:0 atacar o inimigo em
campal , e regular acçlo , principiou por
inspeccionar as Tropas; porém, durante este
tempo aparecendo os de Buenos Ayres, por
3 vezes em diversos e distantes lugares, e
c nhecendo-se que sua verdadeira direcção
hera por S. Tecla , se resolveo em conselho
que, visto o mao estado do Exército, peque-
no, desarmado, e sobrecarregado de doentes,
e attendendo a que sò no Rio Grande, e S.
Francisco de Paula , teria os necessários soe-
coitos, dos quaes o Lia privár o inimigo,
cortando a meio a linha de communicaçno ,
se posessem logo as Tropas em movimento-,
isto & eíTeiUiou, deixando o General no lugár
do Serro todas as bagagens, e mais de 26*0
doentes, entregues a Pedro Jozè da Costa Pa*
checo. Segnio o Exército buscando o Icama-
cuan, a fim de rece ber os reforços, ou peio
Icamacuanchico , ou pelo Passo dos Enforca-
dos; e ifesta marcha houve tanta habilidade,
e atrevimento, visto não serem os nossos
mais de 4i200 homens mal armados, que
quando acabarão de passár algumas can etas
pelo Icamacuanchico , já o inimigo oecupava
Magé, e as suas avançadas tinhao rompido
em tiroteio na próxima collina com as
avançadas do General Sebastião Barreto Pe-
reira Pinto. Eííeituada a passagem , fora o
os nossos postar-se no arroio das Palmas ,
onde, recebendo reforços de Cavallai ia , e In-
fanteria, esperarão os adversários. 0 Chefe
Argentino D. Carlos de Alcedr , conhecendo
344
a pociç~.o occupada pelos Brasileiros, evitou
de aqui romper o ataque, e, para os deslocar,
entra nhou-se pela Provincia até S. Gabriel \
com r fiei to , o Marquez de Barbacena ma"rchou
logo em seu seguimento, e foi entrar n*a«*
quella Villa na mesma manhan em que d'a-
li sahira o General Alcedr. Este procurou o
Caciquy, e os nossos o Passo do Tiozario, no
intuito de, ou encontra J-o, se tentasse ahí a
passagem 9 ou interseptar-lhe a retirada para
o seu território, se cortasse mais aLaixp o
rio de S. Maria. Dois dias depois avistou-se a
inimigo.
0 General Barão do Serro Largo, e Bento
Gonçalves , á testa da vanguarda, tiverão or-
dem de começar o fogo. O nosso Exe'rcito
tinha 5,2oo homens, e o argentino parecia
de a 9,000. A acção foi começada com mais
ânimo do que prudência-, nenhum plano ha-
via. Ainda a segunda Divisão não estava pos-
tada, já a primeira tinha aberto a peleja.
â45
De parte a parte se fizerâo muitas cardas de
Cavallviiia ; a nossa Infan teria avançou á
posição dos contrários , e ah repcllio furtes
ataques (Turma branca, resistindo com intre-
pidez ao fogo de toda a bateria rival, que
hera bem condusida , em quanlo a nossa es-
tava dispersa , e com sós 5 praças a cada ca-
nhão. Todavia, o inimigo conseguindo ront-
pcr , e lomar-nos todas as bagagens e^ muni-
çCes , que, sem guarda, nem rczerva , se
achavâo expostas, obrigou os nossos a retira- 1827
rem-se, sem que a isso os compelltsse a força
do inimigo , o qual experimentou triplica-
das perdas, e nuo ousou perseguil-os, desde
que anoileceo.
Se o Chefe Brasileiro, em ycz de escutár o
aviso ('os militares da Província que, jul-
gando do inimigo pela disciplina que d'antes
tinha, o animarão a romper, tem esperado
a incorporação ao Exército, dos 1,200 homens
de bem provida Cavallaria coaimandados
246
por Bento Manuel Fábeiro, por certo., se pode
çonçír que se leria evitado aquelle desastre % e
com elle a perda de muitas vidas brasileiras,
enlre as quaes devemos memorar a do
valente General Barão do Serro Largo*
Foi depois d'esta infeliz accao, que o in-
trépido D. Boni fado Isac Calderon, com 100
bomens atacou o acampamento do Serio Lar-
go, hateo i5o Argentinos, e aprisionou o
Chefe D. Ignacio \Qrioes , com todas as suas
bagagens.
Iíuma Esquadra Brasileira, de proxima-
mente 4° vasos, capitaneada pelo Almirante
Rodrigo Pinto Guedes, aliás Barão do Rio da
Prata, bloqueia va os portos da República,
c procurava destruir a Armada inimiga
de até 27 pequenas embarcações, comman-
dadas por Guilherme Brwn* A superioridade
das nossas forças, e a conhecida perícia de
seu Chefe , nos fez senhores da navegação d@
i47
Prata. Jamais pode impunemente o inimigo
mostrar-se dentro dó Rio ; 2 1 navios armados
argentinos forâo aqui tomados ou destruí-
dos.
Fora deste distrieto na o ti verão os nossos
tão felizes êxitos. Huma Esquadrilha entregue
a Jacinto Roque cie Sena Pereira, que linha
hido oceupár provisoriamente o Uraguay,
teve de sofrer vigoroso ataque, por muito
superior força, e irremediável lhe foi ren- 1827
der- se 5 talvez por lhe faltar o apoio da ilha
de Martini Garcia , que qttási se pode conside-
rar como chave d\iquclle rio, e que a nossa ne
gligencia tinha abandonado ao inimigo.
Duas expedições que o Almirante empren-
deo á Patagonia, no intuito de obrigar á
divergência os de Buenos Ayres, forão suc-
cessivamente mallogradas. A primeira, en-
tregue a Roberto Skepeld, que se compunha
de 4 vasos, e gente de desembarque, levava
2#
©rdem dc tomar huma curveta inimiga, que
ali se achava, e de destruir a bateria da en«*
irada porém este Commandante, querendo
imprudentemente penetrar até á Povoação,
e sendo morto antes de lá chegar *, quando
os nossos voltarão s achando entre si e a praia
todo o pasto incendiado, se renderão prisio-
1 827 neiros. A segunda expedição, de 3 navios i
diregida por Guilhei me Eyre , perdeo i d^s-
1827 tas, á entrada da ha lua de S. Braz.
Muitas foi ao as presas feitas pela Esquadra
brasileira sobre embarcações neutraes, que
violarão o bloqueio; mas fácil foi á arro-
gância diplomática obrigar a fraquesa do
nosso Governo a vergonhosas restituições.
Hum inesperado motim militar veio por
este tempo consternar a Capital. Hum dos
corpos cFEstrangeiros assalariados ao serviço
do Império y composto de Alemães, se achava
desgostoso com a infidelidade que o Governo
M9
€om elle praticava, conservando nas fileiras
os indivíduos cujos contratados prasos haviao
expirado; e pelo rigor dos castigos com que
os pertendião constranger ao silencio. Por oe-
casião de huma dVstas arbitrárias punições,
o Batalhão, enfurecido pai tio em debandada,
e se diregio ao Palácio da Boa Vista, a pedir
justiça ao Imperador * o qual recusa ndo o tivil-
os , os soldados voltarão ao quartel, rom-
pendo em ameaças. No seguinte dia algumas
praças do corpo dlrlandezes vierão, com
suas vociferações contra o Governo, exacer-
bar os cscandalisados Alemães. A desordem
tomou cnl/io hum caracter ameaçador; o ar-
masem das munições foi forçado*, e bandos
de soldados ébrios, quasi todos Irlandezcs,
ao abrigo da noite, investido e saqwavuo
as eazas em differentes bairros. Os bárbaros
Africanos, aproveitando o propício ensejo
de se mostrarem defensores do paiz banhando-
se no sangue da raça branca, tiravão desa-
piedadamente a vida a quanto inerme solda-
32
25o
do estrangeiro encontravão , pela maior
parte innocentes. Os Alemães de outro corpo,
aquartelado na Praia Vermelha, ouvindo os
rumores do que se passava , julga i ão chegado
o momento da vingança , e, como conservas-
sem antigo odio ao Majnr Bènèdicte Tioli ,
pela infiel conta que sempre dera de suas^ra-
tiíieações , qíiiserãd prendi i-o, e remettel-o
ao Imperador; porém este acto de insubor-
dinação , iíi tentado em prezença dos Irlan-
dezes , teve mais criminoso desfeche, os bru-
taes insulares íançando-se sobre elle o assas-
sinarão. Finalmente, mais de 48 horas bavião
que a Cidade jasia submergida nos maiores
horrores, quando tomou o Governo decisivas
medidas 5 e requisitando por precaução o
desembai que das guarnições das Esquadras
ingkza, e franceza , pos em movimento a
Ti ora nacional, e fazendo fogo sobre os re-
voiíosos, os obrigou a recolherem-se ao quar-
tel do Campo de S. Anna; até á próxima
manhâa , em que, acordando elles da embria-
25 í
guez que os tornara tão íeroses, se entregarão
submissos. Os Irlancíezes forão reinviados á
Europa, e os Alemães entrarão de novo na
disciplina. Finalisou assim esta lastimosa
scena de que foi espectadora a nossa Capital. 1828
Em 7 Brasileiros, 1 5o Estrangeiros e i5 es-
cravos, se avalia o número dos mortos. O
soldado Alemão Eduardo Stcinhausen consi-
derado cabeça da rebeliião, foi fusiludo por
sentença.
Sabendo depois o Ministério que os nossos
inimigos do Sul, refeitos de gente e arma-
mento, tomavão nova energia, e que, em
força respeitável, ameaçavão de entrardiarem-
se na Província de S. Pedro, e considerando
ao mesmo tempo o desfalecimento em que se
achavão os nossos, pela aturada falta de su-
primentos, e por alguma perda de subordi-
dinação , talvez occasionada pela desarmonia
entre os principaes Chefes, á qual não hera
extranho o General Gustavo Henrique Brown ,
2$2
aliás oííicial notável por sua habilidade e rara
•valentia, íesolveo aceitar a paz com Buenos
Ayres, não obstante está r o nosso Exército,
já de novo sob o General Visconde da Laguna^
de posse das melhores posições. Cornmissarios
da Republica viera o firmar na Capital do Im-
pério hum tratado preliminar, pelo qual,
1828 Montevideo ficou desligado do Brasil. Tal foi
o pasmoso remate a mais de 17 annos de
contínuos sacrifícios !
Hum corpo de í,5oo homens que, ao com-
mando do General Francisco Jozé de Souza
Soares d' Andrea, foi, segundo o tratado,
occupâr a Praça , e que a devia evacuar a 2 de
1829 Abril, só o fez 22 dias depois*, porém na
melhor intel licencia com o Governo do novo
Estado.
253
CONCLUSÃO.
Aqui o fim de nossa tarefa; feliz se nossos
jovens compatriotas acharem neste livro
auxilio a seus primários estudos., único in-
cenúvoquea tal publicação nos animou. À
pénnas mais hábeis, que nâdá nossa de ruim
estylo e de peiór critério, pertence a arra-
zoada narrativa da completa Historia Brasi-
leira; praza ao céo que hum venturoso por-
vir lhes ministre dourada matéria *, praza ao
céo que o saber e patriotismo dos Poderes a
quem cabe o grave encargo de promover o
bem da Patria , consigão extirpar fataes riva-
lidades. Sirvão os extranhos paizes de exem-
plo ao nosso*, embora se objecte com differen-
ç s de localidade*, o génio das Nações depende
mais das leis que as regem, do que da alaioá-
phera que as cobre j o Grego da natureza hé
hoje o mesmo que o dos séculos de ouro, mas
os vícios do Governo tem privado Athenas
de novos Perycles e novos Pkydias.
N. B. Nem era huma só palavra do
dosso autógrapho tocamos, depois do
memorável dia y de abril de i85i;
julgamos ter escripto a VERDADE; e
a verdade hé huma, e eternamente
immutavel.
FIM.
(Erratas principal
Pag.
Linhas.
Erros.
Emendas,
18,
de
da
oo,
6,
inimigos.
inimigas.
99»
4,
5o, 000
5,ooo
110,
9^
ahondaute
abundante
iai,
i5,
os
aos
127,
1 ,
inulilisavâo
inutilisava
16a ,
10 ,
de S. Paulo
do paiz
i85,
1 ,
destacou a
destacou
189,
5,
Vasques
V asco Antunes
202 ,
17 1
do Condi
de Tlieodoro
258,
17.
Carrera
Calcra
ODEX.
>ce*<
PRIMEIRA ÉrOCA.
O BRASIL ANTES EA CONQUISTA. Pag. ()
SEGUNDA ÉPOCA.
O BRASIL CONQUISTADO PELOS PORTUGUESES. Í)Q
Divisão do Brasil em Capitanias. . , 4/
Povoação ilo Espirito Santo 5o
Povoação cie Pernambuco 5o
Povoação cia Bahia 5a
Tentativas dos Francezes para se estabelecerem no
Brasil 53
Povoação de S. Paulo 59
Expulsão dos Francezes 62
Povoação do Rio de Janeiro 65
Divisão do Brasil em dois Governos separados. ... 66
O Bra?il Tolta ao regimen de hum só Governador. . 69
Povoação da Parahvba. . 69
33
258
TERCEIRA EFOCA.
O BRASIL 3NO DOMIKIO HESPAJíHGL.
Minas de p\"ata 70
Povoarão de Seregypc 70
Os Inglezes acomraeltcrn o Brasil 74
Povoação do Rio Grande cio Norte 78
Incursões no interior 78
Povoação de Ceará So
IVova expedição franceza 81
Povoação do Maranhão - 82
Povoação do Pará 85
Os Holandezes atacão o Brasil 85
Conducta dos Colonos para com os Indígenas. ... 89
Segunda invasão , e estabeieeiniento dos Holandezes. 91
Viagem pelo Amasonas io5
O Brasil he governado por Vicereys . 11 J
QUARTA ÉPOCA.
O BRASIL LIVRE BO JUGO D HESPANHÀ. . 11 J
Insurreição em S. Vicente. ii4
Expulsão dos Holandezes. , 116
O Brasil recebe titulo da Principado íõi
Povoação de S. Calharma ioj.
Rasgo de valor 104
Povoação das Alagoas 100
Fundação da Colónia do Sacramento 106
Aiinas de ouro 107
^9
Povoação de Minas Geraes 1Õ9
Négros tle Palmares il\o
Outras expedições francesas. , 1 4 4
Decadência no Korle i5i
Povoação de Piauhy i55
Povoação de Matto Grosso 1,54
Povoação de Goyaz i56
Minas de diamantes i58
Povoação do Rio Grande do Sul 160
Guerras de limite? 16»
A Capital do Brasil passa ao Rio de Janeiro i63
Melhoramentos no Brasil. . , i65
Os Hespanhoes tomão S. Catliarina 167
Limites definitivos 168
Intento revolucionário em Minas Geraes 170
Guerra com Buenos Ayres 174
QUINTA ÉPOCA.
C BRASIL, CMIO SEDE DA MONARGHU PORTUGUEZ .4. 1 ~> y
Liberdade de Commercio 178
Conquista de Cayenna 179
Patriótica administração 180
O Brasil elevado a Reino , 182
Campanha do Sul iS3
Revolução em Pernambuco 189
Cazamento do Príncipe Real 19Õ
Acçlamação d"El Rey D. João VI 193
Segundo período da Campanha do Sul 194
Wova Constituição politica 20*2
Reunião eleitoral no Rio de Janeiro » • • 208
Begresso d'El Rey D. João VI 21 tf
O Príncipe Real D. Pedro fica Regente do Brasil. . . aio
SEXTA ÉPOCA.
O BRASIL IMPÉRIO CONSTITUCIONAL INDEPEN-
DENTE., .......... 211
Reunião da Asscmbléa Constituinte. 217
Movimentos em differenles Províncias. 21S
Incorporação de Montevideo ao Brasii. ....... 227
Dissolução da Constituinte 229
Constituição oflerecida pelo Imperador 2 5o
Segunda revolução em Pernambuco 201
Altentado na Bahia , . ..... 2Õ5
Reconhecimento da Independência 206
Nascimento do Príncipe Imperial D. Pedro. . . . 207
O imperador dá Constituição a Portugal, e abdica
a Coroa d'aquelle Reino. ...... 267
Morte da Imperatriz 208
Terceiro período da campanha do Sul 208
Matança no Rio de Janeiro 24S
Fim da campanha do Sul, e separação de Monte-
video 20 1
Fm DO L\DEX»
TYPOGftÀPHU DE GUEFFIER E C , RUA DA QUITANDA, 7.
LISTA
Doe Srs. Subecriptorrs Vtóta (Dbra.
À. Correa Picanço de Faria
A. Pinlo Duarte.
A. P. Limpo de Abreo.
A. Xavier de Carvalho,
A. Jozé de Lessa.
A. Jozé da Veiga.
A. Jozé do A marál.
A. Pereira Rebouças.
A. Fernandes da Silveira.
A. Joaquim de Moura.
A. Pinto Chichorro de Gama
A. Maria de .Moura
A. F. P. Holanda Cavalcanti.
A. de Souza e Oliveira.
A. de Castro Alves.
A. J. Rangel de Vasconcello*.
A. Jozé Rodrigues.
A. J. de Abreo Guimarães.
A. Luiz de Araujo.
A. Simão de Souza.
A. de Castro Vianna.
A. de Melo Pinto.
A. J. de Caldas Júnior.
A - 3. de Benavente Belém.
A. J. li onça! vos Branco.
A. Pereira Cardozo.
A. Jozé Espíndola.
A. Jozé Lopes Alvito,
A. da Silva Pereira.
A. Alvez Monteiro.
A. Machado da Cunha.
A. Tavares Guerra.
A. de Barros Falcão.
A. 3. Moreira Pinto.
A. Joaquim Soares.
A. Mendes de Carvalho.
A. J. Pereira da Silva.
A. de Almeida Feijó.
A. Jozé da Costa.
A. M. de Garfias Bozado.
A. de Souza Loureiío.
A- J. Galdino de Souza*
A. Mariisis Lage.
A. Jozé dos Santos.
A- T. Carvalho Cunha.
A. Ribeiro Fernandez Foro es.
A. Thimoteo da Costa.
A. J. Vieira Ramalho.
A. J. Ferryira Faria.
A. de Miranda.
A. Leit«o .de Alrokta.
A. de Saldanha da Cama.
A. da Cunha Barboza.
A. Pereira Monteiro.
A. Alves d.i Silva Pinto.
A. 3. dos Santos Barboza.
A. J. Pinto Percha Botelho.
/
A. fioqne de Figueiredo.
A. Machado.
A. de Macedo Moniz.
A. Acláoli Adeliano.
A. Crispiano da Cunha.
A. Pereira Gomes.
A. da Costa Cunha Lima,
A. Coelho de Melo.
A. Fernandes Lima.
A. Dias Monteiro.
A. Gomes de Liery.
A. Jozé de Castro.
A. Joaquim Franco.
A. Jozé Pinto.
A. Manuel Madeira.
A. J. de Macedo Barroso,
A. Alves Pereira Ribeiro e Ciro/?.
A. Benlo de Vassdmon.
A. J. de Carvalho Siqueira.
A. Jozé Tola.
A. de Araujo ('ornes.
A. Cypriaoo de Souza,
A. Maria de Limâ.
A. Esteves Chaves.
A- Jozé de Araujo.
A. J. Rodrigues da Silva.
A. J«»zé Peixoto.
A. Maria Baçker.
A. Dias Ribeiro Gasparinàfc
A. J. Baptista Camacho.
A Auguro de Almeida.
Baivo da Saúde.
Baruo de llapoãa.
da Traulinbcrg.
iv
Barão rio Rio da Prata. i
B. Botelho de Sigueira. i
B. Pereira de Vasconctllos» j
B. Lobo de Souza. i
B. Caetano d' Almeida. 2
B. Ferreira Maciel Pinheiro 2
B. Alvaro da Silva. j
B. M. da Silva Abreo, 1
B. Antonio da Gosta. 1
B. Jozé Pires. \
B. J. Freitas Guimarães» 5
B. Jozé de Araujo. 1
B. Pimenta dAlbuquerque. 1
B. Wailentim. i
B. J. da Cunha Gusmão e Vasconcellos, 2
Conde de Valença. 1
Conde de Lages. 1
Circulo do Commercio. 1
C. S. de Melo e Maios. 1
C. Jacob de Memoyer. 2
C. de Assis. 1
C. Lopes dArroxella. 1
C F. de Brito e Victoria, 1
C. de Souza Coelho. 1
Ç, Tenoria de Medeiros (Dona)» 1
C. Slolmes. 1
C. JNareizo Betaticourt 2
G. Leite Pereira de Sá. 1
C. C. Caldas ^Alvarenga, j
C. Jozé de Souza. 1
C. Corna z. 1
C. C. M. de Brito. 1
C. J. Ferreira Alvim. 1
G. Luiz da Costa. 1
V
D. Duarte Silva.
D. Antonio Feijó.
D. Jozé Leopoldo.
D. Stephan.
P. Goines Pereira dos Santos.
D. Jorges Torres.
D. da Silva Tavares.
D. Gomez Barrozo.
D. Sigaud.
D. A. de Moraes Silva,
E. Forrei ra da Veiga.
E. F. d<; Verna Magalhães.
E. de Weyhe.
E. Leahy.
E. Duarte Silva.
E. Antonio da Conceição.
E. Brocardo de Matos.
E. Emiliano de Medeiros.
E. Aprígio da Viega.
E. Jozé Pereira.
F. de Lima e Silva.
F. Xavier Kapozo.
F. J. Neves Gouzagn.
F. A. da Silva Bctancourt.
F. de Paula e Vasconcellos.
F. do Rego Barros.
F. J. Coelho Neto.
F. de Paula e Souza.
F. P. dAlmeida e Albuquerque,
F, Jozé de Guimarães.
F. Cordeiro da Silva Torres.
F. d'Araujo Pereira Couto.
F. Jozé Pinto.
F. Firme Monteiro.
F. Monteiro de Az-evedo. fc
F. Carneiro de Magalhães Bastos.,
F. Xavier Pereira, |
F. S. da Paz Furtado de Mendonça-. %
F. de Assis Ribeiro. $
F.. B. Romeiro Júnior. i
F. Luiz e Souza. *
F. Manuel Serpa. s
F. Antonio dos Sanfos», \
F. J. drAraujo Jaiobá. %
F. Dias Cabral, i
F. Lopes dos Santos. i
F. du Assis Chagas. ^
F.. de Paula Barros. i
F. dos Santos Pinto, i.
Franc. Carneiro de Campos S
Fred. Carneiro de Campos» 2
F. Borges de Barros. i
F. Luiz do Livramento. i
F. Vieira de Castro. i
F. de Paula Silveira. i
F. dVihneida Varelía. i
F. J. Damasceno Rezado» i
F. Machado de Souza. i
F. Rodriguez Silva. i
F. d'Albuqaerque Montenegro Cavalcanti, 1
E. A. da Gama Freitas. i
F. Alves de Pauia. 1
F. Antonio Pereira* i
F. de Paula Ribeiro» 2
F. Tavares de Miranda. 2
F. Antonio Malheiro^ 1
F. Jozé Ribeiro. i
F. Eugénio Tavares %
Ml)
F. Ignacio do Valle.
F. de Oliveira e Macedo.
F. Xavier de Abreo.
F. X. Monteiro da Franca.
F. Jozé do Rozario.
F. X. Monteiro da Franca Júnior»
Mugusío Neiva,
ozé Meira.
F. Antonio da Silva.
F. Alves de Souza Carvalho.
¥. Xavier de Andrade.
F. de Souza Maria.
F. J. da Silva Guimarães.
F. Thomaz Pinheiro.
F. Piulo dos Ueis Marcarinhas.
F. Rodrigues Nunes.
E. P. Pinto França.
F. da Silva Leite.
F. Vieira Fogaça Corte Real.
F. de Paula Pacheco.
F. J. da Silva Retaneourt.
F. Adrião Pereira.
F. Ferreira de Assiz.
F. Gomes de Araujo.
F. B. Dias da Silva.
F. de Paula e Silva.
F. M. C. Magano.
F. Ferreira liamos.
F. Alvez Pereira Ribeiro Cirne.
G. Cancio de Paula.
G. G. Monteiro de Mendonça.
G. Mestwcrdt.
G. Bormann.
G. Suckow.
viij
G. J. Nunes Furtado.
G. Nunes de Melo.
G. Francisco de Miranda.
Gueffier e Comp.
II. J. da Cunha Grugel do Amaral.
H. J. de Barros Pain.
H.-fl. Carneiro Leão.
H. Haroczinsky.
H. Lackmann.
II. Etur.
H. de Barros Mafra.
H. J da Silva Passos*
H. Anlonio Pinto.
H. Terrisse.
I. d'Almeida Fortuna,
I. Joaquim Passos.
I. Pereira da Costa.
I. Antonio Moreira.
J. Ferreira Foares.
I. F. de Paula Rodrigues.
I. de S. Thereza Brito.
I. Jozé Matla.
J. Alvez de Azevedo.
J. Jozé de Carvalho.
í. A dos Santos Xavier.
J. Martini Lourenço Yiauna.
J. Lino Coutinho.
J. F. Alves Branco Muniz Barreto.
J. Jozé Justiniano.
J. dos Santos Mendes,
J. da Silva e Oliveira.
J. A. de Freitas Dantas.
J. B. de Araujo Barboza.
I. Marques Baptista Leão.
is
J. F. de Figueiredo Rocha.
J. M. da Silva Beiancourfc.
J. J. da Silva Lisboa.
J. Duarte Nunes.
J. da Costa Carvalho.
t Marcelino de Brito.
»i Vieira Souto.
lOnçalves Ledo.
X fie Oliveira Alvares.
J. Custodio Dias.
J. A. da Silva Maia.
J. Rebelo de Souza Pereira,
J. B. Leite Ferreira de Melo,
.7. Fernandes Vasconcello»»
J. Clemente Pereira.
J. M. Carneiro da Cunha.
J. Ribeiro Soares da Rocha.
J. Correa Pacheco.
J. Antonio de Lemos.
J. J. Lopes Mendes Ribeiro*
.T. C. de Miranda Ribeiro.
J. Martiniano de Alencar.
J. A. dos Santos Seguro.
J. Vicente Gomes.
J. Joaquim Velho.
J. Antonio de Andrade.
J. Antonio Castrioto.
J. Teixeira de Azevedo Lira,
J. Maria Mascaranhas.
J. F. Gomes de S. Anna.
J. A. Pereira de Souza.
J. Dias da Sitva Guimarães.
J. da Co.<la Silva.
J. F. de Souza Lotelho.
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J. Machado da Cunha.
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J. Teixeira Barboza.
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J. Ignacio Borges.
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J. G. Ferreira de Aguiar.
J. Furtado de Mendonça.
J, Leite Pacheco.
J. F. de Souza Coutinho.
J. Moreira da Silva.
J. Ignacio da Silveira.
J. I. de Macedo Campos.
^^^la Costa Correa.
vimor.é Coelho.
J. da Costa Pereira.
J. Caetano da Silva.
J. da Cunha Lobo.
J. Cardozo Vieira.
J. Maria Pinto.
J. Marques Lisboa.
J. Prestes Barreto da Fontour*.
J. L. de Lima júnior.
J. Antonio de Medeiros.
Joaq. F. de Souza Couiinh».
J. A. Rodrigues Pereira.
J. Antonio de Lima.
J. Luiz do Livramento.
J. H. de Souza Medeiros.
J. da Costa Bastos.
J. Gonçalves da Silva Peixoto»
J. A. da Silva Monteiro.
J. de S. Anna Campos.
J. F. de Assis Passos.
J. Tibério Capistrano.
J. Feliciano de Proença,
J. Pedro da Veiga. 1
J. Fernandes da Torre.
J. Joaquim Borges.
J. Domingues Maacorvo.
J. Dias Camargo.
J. Jozé de Carvalho.
1
J. Silveira do Pitlár.
1
J. Joaquim de Faria.
1
3. Miller.
J. J. de Lima e Silva.
1
J. A. Diniz de Moura.
1
J. de Santiago Mendonça»
J. de Saules.
«Si
J. de Miranda Ribeiro,
1
J. Baptista Marcello.
1
J. Maria de Lacerda.
1
J. Vieira de Castro.
1
J. Luiz Torres.
1
J. Coelho Guimarães.
J. L. Barros Figueiredo»
J. J. Gonçalves Vianna.
1
3. Francisco de Bellegarde.
J. Américo.
1
J. Julio da Resurrcição.
1
J. Jozé de Araujo.
1
J. Ricardo.
1
J. Estevão de Siqueira»
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J. n. da Silva Marques.
1
J. Machado de Lima.
1
J. Antonio Xavier.
1
J. Antonio Guimarães.
1
J. Joaquim Dias.
1
J. Goncalves dos Santos Lim«.
1
3. de Saldanha da Gama.
4
J, M. Correa dv,' Sá.
4
J. ile A>>sis Mascaranhas.
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J. Pinto de Miranda.
4
J. M. da Silveira Sampaio»
i
i. Joaquim da Rocha,
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J. Caetano de Barros.
J. V. de Amorim Bezerra.
J. da Silveira Sampaio.
J. Alvez Massa.
J. Ribeiro dos Santos Monteiro.
J. Pereira da Silva Vidal.
J. J^Borges Monteiro.
J. J. Luiz de Souza.
J. Baptista Avondano.
J. F. de Seixas Machado.
J. Joaquim da Silva.
J. F. Xavier de Caldas.
J. Frautisco de Alaíde*
J. Antonio Baptista.
J. Justiniano da Silva.
J. Jozó da Silva.
J. Francisco Barreto.
J. J. Innocencio Pogge.
J. Antonio Gonçalves.
J. Alves Sanches Massa»
J. Maria Correa.
J. L. de Souza Rangel,
J. Xavier Vida}.
J. ISunes Pereira.
J. da Encarnação.
J. Napomuceno Borges.
J. I. Ponce de Lion.
J. Sabino Monteiro.
J. Gonçalves de Medeiros.
J. Rodriguez Gonçalves Vianna»
J. A. Lopes da Silveira.
J. L. Pereira Lima.
J. Sutero da Roza.
J. Jozé da Veiga.
riiv
Ventura Rodrigues,
J. Máximo do Prado-,
p. Rodrigues Silva.
J, Jozé de Faria.
J. Pinto Neto dos Reis.
J, B. de Andrade e Almada.
J. F. de Azevedo Lima.
J. B. de Souza Cabral.
J. Martins Pinheiro.
3. Pereira da Silva Porto»
J. Cláudio de Melo.
J. Alves Branco.
J. Plácido de Betancourr,
J, Baptista de Souza.
J. C. de Carvalho Salzedas.
I. J. Gomes da Silva Castro.
$. Fernandes da Cunha Pereira.
J. Jozé Francisca.
J, Leite Guimarães.
J. Monteiro d:e Figueiredo Grave
J. Domingues Valieng©.
i. Ferreira Tinoco.
J. J. Francisco da Cruz.
J. Francisco Vianna.
Gomes Sobral. ,
1. F. da Cruz Peixoto»
J. A. da Silva Costa*,
J. Baptista Coqueiro,
Jv Jozé Espinola,
J. J. Pereira de Carvalho»
J, Piulo Martinz,
J, Manuel do Rosana,
J, Joaquim dos Reis.
ir da Gosta Matos,
XV
J. Layola da Ronda.
J. Gantlic Ley.
J. J. de Melo Torres.
J. 13. Froes Silva.
J. Christiana Silva.
J, Jozé Lousada.
J. Napomuceno de Asm**
J. Gomes de Araujo.
J. Beuto da Sá.
J. Pessanha.
J. Manuel Ferreira.
J. J. dos Reis.
J. de Victoria Soares d' Andrea.
J. Hypulito de Araujo.
Joly e Co m p.
J. D. Esteive da Silva.
T. X. Garcia de Almeida.
J. R. de Abreo Lima.
J. Joaquim da Fonseca.
J. G. de Oliveira Guimarães.
J. P. Pereira Pacheco.
J. Soares de Lima e Mota. i
J. Duarte do Amaral. 4
J. J. de Figueiredo e Vasconcellos. i
J. Marques de Gouvea. i
J. Baptista Cosmelli. 1
J. M. Vieira de Souza Pereira. i
J. Jozé Portugal. I
J. Tiburcio Pamplona. 4
J. Rodrigues de Oliveira, pela Cidade de Portalegre. 8o
J. G. Borges da Silva. l
J. J. d'01iveira Guimarães, pela Villa do Rio Grande. 38
J. Pinto Reis. i
L. A. Muniz dos Santos Lobo. l
XV j
L. F. de Holanda Cavalcanti»
L. de Souza Godinho.
L. Jozé de Lima.
L. A. Alvez Monteiro.
L. C. Cardozo Cajueiro.
L. Jozé de Oliveira.
L J. Ducfue Estrada Furtado de Mendonça.
Ij. M. de Jezus e Almeida.
L. Eloy de Medeiros.
L. M. Alvez de Almeida.
L. Jozé da Cosia.
L. de Menezes Vasconcellos Drumond.
L. Mendes Ribeiro.
L. J. de Souza.
L. A. do Rego Faria.
L. Felix de Vasconcellos.
L. Vicente Boige.
L. Manuel de Lima.
L. Antonio de Siqueira.
L. de Matos Pimenta.
L. J. da Rocha.
L. Antonio de Carvalho.
L. J. C. Pereira do Lago.
L. Manuel de Carvalho.
Marquez de Caravellas.
Marquez de S. Jo«o da Palma,
Marquez de Baependy.
Marquez de Canlagalo.
M. de Azevedo Muques.
M. de Frias e Vasconcellos.
M. Maria do Amaral.
M. F. Ribeiro de Andrada.
M. Odorico Mendes.
M. J. de Araujo Franco.
xvi]
M. do Nascimento Castro e Silra.
M. Pacheco Pimcnl.il.
M. Zeferino dos Santos.
M. dos Santos Marlinz Vellasques.
M. A. Henriques Tota.
M. Manco Ferreira de Mesquita.
M. Mendes da Fonceca.
M. Vellozo da Silveira Nóbrega.
M. Messias de Leão.
M. Rodrigues Mocha Poiiella.
M. J. llangel.
M. Lei. o Saraiva.
M. Tavares Bastos.
M. do Nascimento Pontes.
M. do Rozario Tavares.
M . Ignacio do Rego.
M- Gomes de Amorim.
M. Francisco Lopes.
M. Coelho Moreira,
M. Archanjo de Meio.
M. Apolinário de Araujo.
Jozé da Cunha.
M. [. í!e Carvalho e Mendonça.
M. Ferreira de Andrade.
M. Antonio Brício.
M. C. de Almeida e Albuquerque.
M. A, Monteiro de Barros.
M. Carneiro de Campos.
M. de Souza Melo e Alvim.
M. Pereira He Araujo Carreto.
M. Alves de Toledo.
M. A. da Silva Mafra.
M. Jozé de Melo.
Al. Vicente de Sampaio.
M. Antonio da Silva. •
M. Cypriano de Freitas.
M. Coelho da Silva.
M. Rodrigues de Amorim.
M. Jozé de Campos.
M. Moreira Lirio.
M. F. Corrêa Júnior.
M. Antonio Pereira. .
M. J. da Cunha Betancouit.
M. Pease.
M. Jozc Ancelmo.
M. J. Alves de Miranda.
M. Freire de Andrade.
M. Tavares da Silva Coutinho.
M. Rodrigues dos Santos.
M. João Pinheiro.
M. da Costa Franco Brasileiro..
M. Joaquim de Almeida.
M. J. Pereira da Silva.
M. do Monlecarmello Brayner.
M, Pereire de Araujo.
M. da Costa Agra.
í/l. da Gosta Ramos.
M. Joaquim da Gama.
M. Rodrigues de Paiva.
M. Garcia do Amaral.
M. da Costa Lima.
M. Pinto Neto Cruz.
M. J Pereira Baptista.
M. de Brito Coutinho. .
M. Miguel Boom.
M. Jozé Machado.
M. de Souza Brito Correa Calda
M. Pereira de Carvalho. a
xix
Al. Antenio Gonçalves.
M. J. Pereira Basto.
Al. Francisco de Carvalho..
M. Jannario Cordeiro.
M», Joaqnim Pires.
M. Gomes Barroso.
M. A. lUbeiro de Vasconcellos*
Al. Rodrigues Candido Peixoto-
H. Joaquim Pardal.
M. Gomes de Andrade.
Al. A. A. C. Moulaury.
Al. Joaquim de Siqueira.
Al- Francisco Barbosa.
Al. Cypriano de Freitas.
Al. Archaujo Pereira.
i\. Tolcnlino de Vasconcellcs.
K. Gomes da Silva e Souza.
O. Saraiva de Carvalho.
P. Antonio da Costa.
P. J. de Almeida e Silva.
P. J. da Costa Barros.
P. Francisco da Cunha.
P. A. de Sepulveda Evcrard.
P. C. Bolim Filho.
P. Antonio Mouhos.
P. do Amaral e Silva.
P. Barbosa da Silva.
P. Coelho d'Alirya.
P. M. de Azevedo Soule.
P. Diniz.
P. II. de Oliveira Mascaranna&
Q. Ramos Zotto.
Religiosos Bcnediclinos,
Religiosos Carmelitas.
XX
R. J. da Cunha Mattos.
R. Tobias cTAguiár.
R. Mendes de Carvalho»
R. Roseis.
R. Filippe Lobato.
S. Jozé Maciel.
S. J. A. Pereira do Lago.
S. Ferreira Barboza.
S. Jozé de Abreo.
S. F. de Oliveira Chagas*
S. J. de Souza Lima.
S. Navarro de Andrade,
S. Jozé Henriques.
S. da Cosia Cirne,
S. Jozé de Souza.
S. Conçalves Barrozo,
S. Domingues Coelho.
S. M. P. de Lacerda.
S J da Silva Corado.
S. Tertuliano Castelbranco,
T. de Mello.
T. da França Xavier Brun.
T. J. Datiias Correa.
T. Correa Accioli.
T. de Aquino de Las Casas,
T. Gomes de Azevedo.
T. A. Gonçalves d« Medeiros,
T. S, Pereira do Lago.
Visconde da Praia Grande.
Visconde dc Caethé.
Visconde dc Congonhas.
V. Delgado Freire.
V. Ferr ara de Castro e Silva,
Y. Henriques de Rczead*»
V. J. Marinho Pereira Falhares.
V. Henrique de Miranda.
V. P. dc Oliveira Villas Boa«.
V. J. Gomes Carini lio.
V. do llego Toscano Barreio.
V. Tliomaz dos Saalos.
V. Marques Lisboa.
V. Leonel Viclor.
V. Anlonio da Cosia.
Z. Pimentel Moreira Freir».
Fíw i>\ Lisi*.